Um ator versado, um galã incorrigível e um homem de causas — os 70 anos de Richard Gere, feitos este sábado, podem resumir-se a estas três facetas. Através do cinema, deu a volta ao mundo e arrebatou milhões de corações. Ainda assim, nunca ganhou um Óscar — aliás, em mais de quatro décadas de carreira, Gere não regista uma única nomeação para o prémio mais cobiçado de Hollywood. “À Procura dum Homem”, “American Gigolo”, “Oficial e Cavalheiro”, “Cotton Club” e “Pretty Woman: Um Sonho de Mulher” foram as fitas que o catapultaram para a ribalta.

Enquanto isso, na esfera pessoal, esteve sempre Richard, o namoradeiro. A lista de envolvimentos românticos do ator é extensa e composta sobretudo por figuras públicas. Contudo, o galã regista somente três casamentos — com Cindy Crawford, em 1991, com a atriz e modelo Carey Lowell, em 2002 e com a empresária e ativista espanhola Alejandra Silva, em 2018. O ator é pai de dois rapazes. O mais velho, Homer James Jigme, tem 19 anos e é fruto do segundo matrimónio de Gere, o segundo nasceu em fevereiro deste ano, filho do último casamento. Gere tinha, à data, 69 anos.

Nasceu a 31 de agosto de 1949, em Filadélfia, Pensilvânia, numa família de classe média, e cresceu em Siracusa, no estado de Nova Iorque. Filho de uma dona de casa e de um agente de seguros, na escola acabou por se destacar nas disciplinas de ginástica e música. Entrou na universidade, mas não concluiu o curso. Antes do cinema, passou pelo teatro. No final dos anos 60, chegou à Broadway. Na década seguinte, Richard Gere, que havia sido educado na igreja metodista, aproximou-se da doutrina budista. Foi nessa mesma época que estudou a fundo a religião e viajou até ao Nepal. Nas décadas seguintes, tornou-se próximo do Dalai Lama e fez com que as suas convicções religiosas desembocassem numa voz ativa em assuntos políticos e humanitários. No início do mês de agosto, apanhou um barco e foi levar comida aos refugiados a bordo do navio humanitário da Open Arms, no Mar Mediterrâneo.

Richard Gere: 40 anos de filmes

Decorreram exatamente 40 anos desde a grande estreia de Richard Gere no cinema, com o filme “À Procura dum Homem”, ao lado de Diane Keaton, em 1977, até ao último filme em que entrou, um drama canadiano com o título “Three Christs”, que estreou em 2017. Pelo meio, houve comédias românticas, ficções históricas, um musical e alguns thrillers. No entanto, foi nos anos 80 que o nome do ator foi catapultado para a fila da frente das estrelas de Hollywood — “American Gigolo”, do realizador Paul Schrader, estreia em 1980; seguem-se “Oficial e Cavalheiro”, de 1982 (com este filme, o ator recebeu a sua primeira nomeação para o Globo de Ouro), e “Cotton Club”, de Francis Ford Coppola, dois anos mais tarde, a completar a trilogia de êxitos.

Com Diane Keaton, no filme “À Procura dum Homem”, 1977 © Paramount/Getty Images

Com eles, Richard Gere sagrou-se o ator do momento, mas também um sex symbol universal. No primeiro dos três filmes referidos, os seus nus frontais foram quase estreantes no cinema. Ao lado de Lauren Hutton, Debra Winger e Diane Lane, as três protagonistas, respetivamente, a imagem de galã era, na época, um rastilho que incendiava corações (aliás, fora do ecrã, o estilo de vida do ator corroborava a aura cinematográfica). Em 1986, “Sem Perdão” pô-lo a contracenar com Kim Basinger, com quem terá tido um caso nos bastidores do filme. No entanto, o rumor nunca foi confirmado, até porque a atriz era na altura casada. A dupla viria a reencontrar-se em 1992, com o filme “Desejos Finais”.

Em 1990, estreia “Pretty Woman: Uma Mulher de Sonho”. Ao lado de Julia Roberts, sobre quem também pairaram suspeitas de envolvimento amoroso, Gere manteve-se popular. O filme valeu-lhe mais uma nomeação para os Globos de Ouro, a segunda. “Noiva em Fuga”, de 1999, volta a juntar a dupla no ecrã. Três anos mais tarde, em “Infiel” reencontra a velha conhecida Diane Lane. No que toca ao Globo de Ouro, à terceira foi de vez. É também em 2002 que estreia “Chicago”, de Rob Marshall, musical que pôs Gere no meio de duas atrizes, Catherine Zeta-Jones e Renée Zellweger, e que lhe permitiu levar para casa o prémio de Melhor Ator num Filme de Comédia ou Musical. O ator viria a ter uma quarta nomeação pelo desempenho no filme de 2012 “Arbitrage – A Fraude”.

Richard Gere e o Globo de Ouro de Melhor Ator num Filme de Comédia ou Musical pelo desempenho em “Chicago”, 2003 © Dan MacMedan/WireImage

Com a viragem do milénio, Richard Gere começa a descolar-se do papel de galã. As suas personagens assumem outras dimensões, o que é visível em produções como “Hachiko – Amigo para Sempre”, “O Espião Fantasma”, “O Benfeitor” e “Golpe Quase Perfeito”. Para os Óscares, o ator não chegou a contar com nenhuma nomeação. Atualmente, entra na série “MotherFatherSon”, da BBC, o seu único trabalho como ator desde 2017.

Três casamentos e uma longa lista de romances

“Ele odiava ser normal”, disse a atriz Penelope Milford à revista Esquire, em 1995. Em questão estava a intensidade do ator na interação com o sexo oposto, isto em pleno rescaldo da sua separação da supermodelo Cindy Crawford. Milford foi, na verdade, a primeira namorada (conhecida) de Richard Gere. A relação terá durado sete anos e, quando se conheceram, numa produção fora da Broadway em 1971, a fama de engatatão já precedia o ator. “Ele já tinha saído com todas as raparigas do elenco”, confessou a atriz à People, em novembro de 1999. No artigo, foi dito com todas as letras: “Richard Gere tem um efeito hipnótico nas mulheres”.

Richard Gere e Cindy Crawford nos Óscares, em 1991 © Ron Galella/Ron Galella Collection via Getty Images

Muitos rumores ficaram por confirmar, mas também por desmentir. Entre eles, os casos com Barbra Streisand, Priscilla Presley, Diana Ross e Susan Sarandon. Até há bem pouco tempo, Diane von Furstenberg fez parte da lista. Recentemente, a designer de moda confirmou ter-se envolvido com o ator. Bem mais pública foi a relação com a pintora brasileira Sylvia Martins. Os dois chegaram a viajar para o Nepal na década de 70. Apesar de nunca ter constado da lista, a atriz Julia Ormond, coprotagonista no filme de 1995 “O Primeiro Cavaleiro” resumiu bem a ferocidade do ator. “O Richard é como um gato persa. Queres que o gato te dê atenção e o gato é muito independente. Mas quando é ele a pedir a tua atenção, é simplesmente irresistível”, admitiu à People.

Em 1988, ao fim de uma boa dose de romances fugazes, o ator conheceu Cindy Crawford. Há quem diga até hoje que se apaixonou a sério, que a amou inclusive. Estavam ambos no auge das suas carreiras, ele com 39 anos, ela com 22. “Ele falou comigo, depois tivemos um encontro, depois tivemos outro encontro”, chegou a revelar a manequim. As aparições públicas, em casal, tornaram-se frequentes e o casamento aconteceu a 12 de dezembro de 1991, numa capela em Las Vegas, apanhando a noiva de surpresa. Sem vestido branco, dado o inesperado da situação, Crawford chegou ao altar num vestido azul de Giorgio Armani. Herb Ritts foi o padrinho e o fotógrafo oficial da cerimónia. “Não foi o casamento com que sempre sonhei. Foi tudo tão à última da hora”, partilhou Cindy. Sem filhos, o casal separou-se quatro anos depois.

Edição de novembro de 1999 da revista People

O segundo casamento chegou em 2002, com a atriz e modelo Carey Lowell, 12 anos mais jovem. “A Carey deixa-o ser quem ele é e ama-o por isso. Ela não quer que ele mude”, disse a decoradora de interiores Sharon Simonaire à People, também em 1999. A relação começou antes, ainda no final dos anos 90. O primeiro filho do casal (e do ator), Homer James Jigme, nasceu em fevereiro de 2000. Após 11 anos de matrimónio aparentemente feliz, Gere e Lowell anunciaram a separação. O processo de divórcio arrastou-se e o acordo só chegou em outubro de 2016. Nessa altura, a fortuna do ator estava estimada em 250 milhões de dólares.

O terceiro e atual casamento chegou em 2018. Richard e a espanhola Alejandra Silva têm em comum a mobilização para causas humanitárias e sociais. Deram o nó em maio do ano passado, numa cerimónia discreta, porém inspirada nos rituais nupciais da cultura indiana. O segundo filho do ator nasceu em fevereiro deste ano.

O dia em que Richard Gere foi de barco para o Mediterrâneo

Aconteceu a 9 de agosto. O ator norte-americano partiu da ilha italiana de Lampedusa para levar comida e água ao navio da ONG espanhola Open Arms, na altura, à espera de autorização para aportar e desembarcar 121 migrantes resgatados no Mediterrâneo há uma semana. A bordo do navio da organização, Gere foi cercado pelos ocupantes. “As pessoas que vemos neste navio estão aqui por causa do trabalho que a Open Arms desenvolve e a coisa mais importante para quem aqui está é chegar a um porto, sair do barco, pisar terra e começar uma nova vida”, afirmou depois o ator. “Nós temos os nossos problemas com os refugiados que chegam das Honduras, de Salvador, da Nicarágua, do México… É muito semelhante ao que enfrentam aqui”, adicionou.

© Twitter.com/openarms_fund

Mas esta não foi a primeira vez que Richard Gere interveio em situações de natureza política. A par da ecologia e da luta contra o HIV, advogou, durante anos, a causa dos direitos humanos no Tibete. Em 1993, aproveitou o momento em que subiu ao palco da cerimónia dos Óscares para denunciar aquilo a que chamou “uma situação horrenda” desencadeada pelo governo chinês. O ator não voltou a ter a palavra em cerimónias da Academia. Há quem defenda que a sua carreira sofreu uma viragem desde então. As represálias terão sido especialmente evidentes em 2003, ano em que venceu o Globo de Ouro pelo desempenho em “Chicago”, porém nem uma nomeação aos Óscares.