Depois de ter vencido sem grande dificuldade o Bournemouth e de ter visto o Liverpool ultrapassar com nota positiva um dos primeiros grandes desafios da temporada, já que os reds bateram de forma inequívoca o Arsenal no fim de semana passado, o Manchester City recebia o Brighton com a ideia subjacente de que podia subir, pelo menos de forma provisória, à liderança da Premier League. Afinal, o Liverpool só entrava em campo duas horas e meia depois — e em caso de vitória, os citizens ficavam com mais um ponto do que a equipa de Jürgen Klopp e com mais um jogo. Mas essa não era a principal missão dos jogadores do Manchester City este sábado. 

Este sábado, no Etihad, os jogadores do Manchester City entravam em campo com a missão de realizar uma homenagem. Todos, sem exceção, utilizavam no braço esquerdo uma braçadeira negra em sinal de luto pela morte de Xana, a filha de nove anos de Luis Enrique, antigo treinador do Barcelona e antigo selecionador espanhol, que morreu esta semana devido a um osteossarcoma. O gesto, que foi previamente anunciado pela comunicação social da cidade de Manchester, era particularmente visível no braço de Pep Guardiola, que usava uma faixa mais larga do que os jogadores e que era notória pelo contraste com a camisola clara que o treinador tinha. Na antevisão da receção ao Brighton, Guardiola teve dificuldades em conter as lágrimas e esconder a emoção ao falar de Luis Enrique, de quem é amigo pessoal, e da momento duro que o técnico está a viver.

Ex-selecionador espanhol Luis Enrique anuncia morte da filha

“Em nome da família do Manchester City e em meu nome, quero apresentar as minhas mais profundas condolências ao Luis Enrique pela perda da Xana, a pequena filha de nove anos. Sabíamos que não era bom mas sonhamos sempre que vai correr tudo bem. Não tenho palavras, não tenho absolutamente nada para dizer porque tentamos sempre encontrar os motivos pelos quais isto acontece. Mas isso não é um argumento para uma menina de nove anos, a linda filha deles. Por isso espero que eles possam sentir, o Luis Enrique e a família, que eu, a minha família e o Manchester City estamos aqui. E espero vê-lo em breve e poder dizer-lhe que o amo. Não só a ele mas à família dele”, disse o treinador espanhol. No Etihad, o Brighton seguia o exemplo do Manchester City e também usava as braçadeiras negras.

O treinador espanhol apresentou-se com uma braçadeira negra, assim como todos os jogadores, em memória da filha de Luis Enrique

Dentro do relvado, os citizens apresentavam-se sem Bernardo Silva no onze inicial, que era substituído por Mahrez, e ainda sem Gündoğan, saltando Rodri para a titularidade. A equipa de Guardiola entrou praticamente a ganhar, já que De Bruyne inaugurou o marcador logo ao segundo minuto — no culminar de um lance que mostra sem ressalvas que o treinador espanhol, tido como o mestre da posse de bola do futebol europeu, se tornou exímio em colocar as equipas que orienta a jogar tão bem sem bola como com ela. No lance do primeiro golo, o lateral Zinchenko recebe no corredor esquerdo ainda no próprio meio-campo defensivo, faz um passe vertical que encontra uma diagonal de Silva, que sai do terreno interior para a ala e atrai o guarda-redes do Brighton; na grande área, Agüero arrastou sozinho dois defesas e permitiu que De Bruyne aparecesse de trás, totalmente sem marcação, para rematar para uma baliza deserta. Zinchenko viu num espaço vazio uma oportunidade para colocar a bola, Silva viu num espaço vazio uma oportunidade para receber a bola, Agüero eliminou dois defesas só com fintas de corpo e De Bruyne viu nas costas da defensiva uma oportunidade para aparecer e rematar: o Manchester City, exímio, a jogar sem bola.

Ainda assim, e mesmo em desvantagem a partir de uma fase muito embrionária da partida, o Brighton não recuou o bloco e respondeu, surpreendendo a equipa de Guardiola com um fluxo ofensivo constante e bem organizado, assente na marcação de Propper e Stephens a Rodri, que não conseguia construir a partir de trás e tinha sempre os movimentos muito controlados. Contudo, as melhores oportunidades acabaram por pertencer ao Manchester City, que mesmo jogando com as linhas mais recuadas do que o normal era sempre mais perigoso quando a bola entrava em Mahrez ou em Sterling: Agüero quase marcou assistido pelo argelino (14′), Silva atirou ao lado assistido pelo inglês (30′). Nos últimos instantes do primeiro tempo, Agüero ainda aumentou a vantagem (42′) e o Brighton ainda teve uma enorme ocasião para reduzir, que Ederson evitou com uma defesa com a perna.

Na segunda parte, já depois de Laporte sair lesionado e dar o lugar a Fernandinho, o brasileiro evitou o golo do Brighton ao fazer de Ederson em cima da linha. Num jogo bastante dividido, com ataques de parte a parte e sem nenhuma das equipas a desistir de procurar chegar ao último terço do adversário, saltou à vista a qualidade individual do Manchester City, inegavelmente superior à do Brighton, quando Agüero recebeu de Silva à entrada da grande área, desmarcou-se com um pequeno toque na bola e atirou em arco, num espaço muito reduzido, para fazer o terceiro golo (55′) e tornar-se desde já o melhor marcador da Premier League. A equipa de Graham Potter tentou responder, principalmente através das substituições efetuadas pelo treinador — e beneficiando do natural quebrar dos citizens, que com três golos de vantagem relaxaram na partida.

Até que, aos 78 minutos, Bernardo Silva entrou para substituir David Silva. Entrou, correu um bocadinho ao longo da ala esquerda, recebeu de Agüero em velocidade e rematou rasteiro e na diagonal para o quarto golo do Manchester City (79′). Um sprint, dois toques na bola, um remate, uns segundos e um golo: impacto imediato de Bernardo. Os citizens seguraram os quatro golos de vantagem até ao final da partida e conquistaram os três pontos, subindo provisoriamente à liderança da Premier League. No dia em que lembrou a filha do amigo, Guardiola ganhou para Luis Enrique, para a família de Luis Enrique e por Luis Enrique.