Há casos e histórias dispersos que figuram nas galerias de casos bizarros. Já depois da Segunda Guerra Mundial, ficou conhecido o caso de Dan Burros, um judeu americano que, durante anos, escondeu a sua ascendência e foi uma figura proeminente do American Nazi Party. Quando o The New York Times revelou o seu segredo, Burros suicidou-se ao som de Wagner.

Se começarmos a procurar, os casos não são tão esporádicos nem tão inocentes. Lucien Rebatet, nas suas Memórias de um Fascista, o grande testemunho do colaboracionismo francês, usa Aschenbach como grande exemplo do exagero das potências democráticas a respeito do ódio alemão aos judeus: Aschenbach seria ao mesmo tempo, e sem segredos, uma alta figura do Partido Nazi e um conhecido judeu.

O que levaria, então, a que o partido que tão ferozmente combateu a ameaça judaica, cuja violência indiscriminada contra os judeus é tão conhecida e repudiada, a ter judeus nos seus quadros?

É interessante, obviamente, analisar o caso a partir do indivíduo, isto é, o que é que leva alguém a abraçar uma ideologia que é declaradamente contra si? No entanto, também é importante olhar para o caso a partir do pensamento nazi. Isto porque as respostas pessoais estão sempre sujeitas a análises paternalistas e a uma distorção daquilo que professam a partir de estados de espírito previsíveis. Pode haver casos de luta pela sobrevivência, de puro e patológico ódio por si próprio ou de oportunismo. Mas, tirando estes casos em que não podemos falar de uma coabitação propriamente sincera entre nazismo e judaísmo, o que é que pode haver no antissemitismo nazi que atraia um judeu?

Os antecedentes

As consequências do antissemitismo foram tais e tão graves, que é hoje em dia difícil analisar as suas nuances sem ser fortemente vilipendiado. No entanto, antes do Holocausto, o caso era diferente. Ora, é difícil perceber a existência de judeus antissemitas ou de judeus nazis sem perceber algumas destas nuances. Ninguém adere a um sistema de ódio, e várias das faces daquilo a que hoje chamamos antissemitismo foram, durante vários anos, partes de sistemas filosóficos ou políticos com pressupostos diferentes e justificações mais ou menos sólidas.

O antissemitismo de Charles Maurras, autor e político francês, e da Action Française, um movimento monárquico e antissemita, é hoje a mais realçada das suas características. No entanto, Maurras publica num dos seus livros uma carta de um judeu que pergunta se poderia fazer parte da Action Française. A resposta de Maurras é claríssima: aquilo que ele critica no judaísmo é um espírito, não uma raça. Para ele, o judaísmo, junto com o espírito da Reforma e o espírito germânico, encarnavam o espírito de rebelião, a revolta permanente contra a ordem e, por isso, contra qualquer espírito comunitário. Seria impossível manter uma sociedade com um espírito judaico. O seu antissemitismo não é étnico, é ideológico.

Charles Maurras (à esquerda) dirigiu jornal da Action Française, o L’Action Française, juntamente com Léon Daudet (à direita). Fonte: Keystone-France/Gamma-Rapho via Getty Images)

Mesmo no antissemitismo étnico, há várias correntes que têm até genealogias opostas. O primeiro capítulo de Eichmann em Jerusalém causa certa perplexidade e valeu a Hannah Arendt acusações, lá está, de antissemitismo precisamente porque ela analisou bem as relações de Adolf Eichmann e de uma fação importante do Reich com algumas das mais importantes figuras do movimento sionista. A segregação e o Holocausto são os capítulos finais de uma cena que pode começar mais branda, e até com uma certa comunhão de interesses: da parte dos nazis haveria uma vontade de ter uma Alemanha sem judeus; da parte dos sionistas a vontade de ter um estado para judeus. Uns e outros — embora depois com as diferenças óbvias — acreditavam que os judeus não pertenciam à Alemanha.

O antissemitismo abarca, assim, várias ideias e vários tipos, desde a associação dos grandes oligarcas judeus ao espírito capitalista, à associação da famosa errância judaica ao espírito socialista, apostado em destruir as fronteiras.

É claro que a síntese nazi de um modelo que condena ao mesmo tempo o socialismo e o capitalismo, que faz ressurgir um espírito patriótico escorado, quer no espírito, quer na biologia, favorece a criação de um antissemitismo mais completo, que rejeita tanto os Rothschild como os pobres judeus da Europa central. A agregação das várias filosofias políticas e das várias classes sociais num modelo comum, torna o antissemitismo nazi mais forte e mais importante no seu corpo doutrinal do que em qualquer outro movimento político. No entanto, quando o partido surge, não é certo que esta versão completa prevaleça. A proclamação de um antissemitismo pode ser vista por uns apenas como rejeição do espírito capitalista ou por outros como a rejeição do espírito de revolta. Os termos não estão definidos com segurança suficiente para que se possa saber com certeza que aspeto tem o antissemitismo nazi.

Daí que seja possível o aparecimento de um fenómeno tão estranho como o dos nacional-judeus.

Judeus-nazis: o caso finlandês

No caso finlandês, o singular está mal aplicado. Podemos usá-lo por exemplo em Leo Skurnik, o soldado judeu condecorado por Hitler. No entanto, Skurnik era apenas um de um batalhão judeu — o único, por sinal — no exército alemão. O caso dos judeus finlandeses é curioso porque demonstra as complexidades da política.

A Finlândia entrou na guerra ao lado da Alemanha para salvaguardar a sua independência da União Soviética. País recente e cobiçado pelos bolcheviques, depois dos grandes cenários de guerra perto da Noruega não se podia dar ao luxo de se ver invadida sob o pretexto de constituir um ponto estratégico. Para não se tornar a Bélgica escandinava, recorreu assim ao único aliado possível contra a ameaça soviética.

Acontece, porém, que a comunidade judaica na Finlândia era considerável e tão patriota como qualquer outro finlandês. A “Operação Barbarossa”, nome de código para a invasão da União Soviética, que para mais permitiria recuperar alguns territórios que a Finlândia, foi uma oportunidade de ouro para que uma série de batalhões finlandeses, entre os quais um batalhão de judeus, fosse integrado no exército alemão.

“Operação Barbarossa” foi o nome de código utilizado para a invasão da União Soviética. Fonte: Universal Images Group via Getty

As guerras paralelas que a Segunda Guerra Mundial suscitou, permitiram a existência deste estranho caso em que conhecidos inimigos combatiam nas mesmas fileiras. A opção era, obviamente, estratégica e, à medida que a guerra se foi tornando mais difícil, foi-se estendendo à própria Alemanha. Embora nunca tenham constituído um corpo sustentado com o Finlandês, vários judeus com mais consciência nacional do que religiosa ou étnica acabaram, como mostra o livro Hitler’s Jewish Soldiers, de Bryan Mark Rigg, por fazer parte da Wermacht.

A guerra e a necessidade, obviamente, justificam posições que, do ponto de vista ideológico, são insustentáveis. No entanto, mesmo no campo das ideias, o antissemitismo tem os seus seguidores entre os judeus.

Naumann e Schoeps, os verdadeiros judeus-nazis

Quando Max Naumann fundou a Associação dos Nacional-Judeus Alemães, Hitler era ainda pouco mais do que uma miragem. No entanto, Naumann já alertava contra os perigos do sionismo, contra os inassimiláveis judeus de leste e contra a ideologia “racista” do judaísmo. Naumann viu com bons olhos a ascensão de Hitler ao poder, e apoiou, em grande parte, o programa nazi. Isto, porém, não foi suficiente para comover o NSDAP, que em 1935 declarou a ilegalidade dos Nacional-Judeus e prendeu Naumann, durante umas semanas, num campo de concentração.

Naumann viu no Partido Nazi uma certa afinidade com algumas das suas teses. No entanto, Hans-Joachim Schoeps fundou um grupo ainda mais estranho e mais obscuro, a Vanguarda Alemã, porquanto surgiu já em pleno nazismo. Schoeps, um historiador de religiões cujos três volumes de memórias são um bom relatos das curiosas relações entre o Nazismo e os seus odiados apoiantes, adotava uma perspetiva parecida com a de Maurras. Um verdadeiro patriota alemão, considerava o judaísmo um dos pilares do espírito alemão, pelo que defendia um regresso a um espírito judaico antissionista, que comungasse das ideias políticas e patrióticas do NSDAP.

Schoeps nunca conseguiu convencer o partido das íntimas relações entre o judaísmo e o espírito da nação alemã. Com grande consternação, viu-se obrigado a fugir para a Suécia em 1938, acabando assim com o mais fervoroso grupo de judeus nazis.