Parece estar definido o tom e a estratégia de Rui Rio para este período de (pré) campanha eleitoral: sem nunca pronunciar o nome de António Costa, vai concentrar todas as suas energias em desmontar a estratégia de “dramatização”, “oportunismo” e “propaganda” do governo socialista para explicar aos portugueses que foram enganados nas Europeias — com o truque da crise dos professores –, e preparam-se para vir a ser novamente enganados nas legislativas, com o truque da crise dos combustíveis, devido à greve dos camionistas.

Com o PSD, pelo contrário, isso nunca aconteceu nem vai acontecer, garante. Não aconteceu com o governo anterior, “antes pelo contrário”, já que Passos Coelho até pode ser acusado de “ter posto os interesses do país a frente a troco da impopularidade do partido”. E promete que também não irá acontecer no futuro: “Não haverá circo nem espetáculo, nem que aparentemente isso possa dar jeito para a eleição seguinte”, disse Rui Rio no discurso de encerramento da universidade de verão do PSD, em Castelo de Vide.

O mote já tinha começado a ser lançado este sábado, no discurso na festa do Pontal, em Monchique, e foi consolidado este domingo no encerramento da universidade de verão do partido. “O governo é acima de tudo mestre na propaganda (…), governa para a sua própria imagem, para o presente, não governa para o futuro e por isso não traz esperança”, começou por dizer Rui Rio, deixando claro que se quisesse muito também ele talvez conseguisse ser mestre da propaganda, mas não se “preocupa” com isso.

Mas o governo é também “mestre na dramatização”, e nisso, até o próprio Rio, que conhece António Costa desde os tempos em que ambos eram autarcas, se diz surpreendido. “É mestre de uma forma que eu nunca tinha visto, sinceramente, mestre na capacidade de montar um circo político mediático quando o que está em causa é o interesse do PS”, disse, dando o exemplo mais recente da greve dos camionistas, onde o governo “dramatizou” que não ia haver combustível, para depois aparecer como o responsável por ter “resolvido aquele problema difícil”.

O exercício, no fundo, é de alerta para os eleitores que, segundo Rio, caíram na casca de banana nas eleições europeias de maio, e se preparam para voltar a cair agora em outubro. “Quando as pessoas, no dia 26 de maio, foram votar muito marcadas pelo episódio dos professores [onde Costa ameaçou demitir-se se caso a contagem integral do tempo de carreira fosse aprovada], têm agora aqui no episódio dos motoristas a explicação que à data era difícil de explicar”, disse o líder do PSD, insistindo que o que há em comum nos dois episódios é “uma encenação para condicionar” o eleitorado.

Rio versus Costa, uma questão de caráter

É assim que, por A mais B, Rui Rio procura explicar como António Costa não deve ganhar as próximas eleições. Mas há mais argumentos: é “oportunista”, o que é visível na forma como tratou bem os parceiros de governo na hora que lhe convinha, e agora os descarta, quando não lhe convém. “O PS passou a legislatura de braço dado com o BE e o PCP, o primeiro-ministro até disse que funcionava na perfeição e era para repetir, mas vem o calor, aproxima-se o 6 de outubro, e o BE agora é só defeitos e o PCP também já começa a ser”, disse, explicando que isso faz parte da estratégia de Costa de se demarcar da esquerda e de procurar captar “simpatias ao centro, que sabe que perdeu” por ter passado os últimos quatro anos “colado à esquerda”.

Com sondagens a apontar o PSD para a casa dos 20%, desmontar as “manhas” de Costa é um dos eixos da narrativa de Rio, que vai ser usada daqui para a frente no sprint final até à meta. O outro é explicar as propostas do PSD e mostrar como Rui Rio, pessoalmente e em termos de caráter, tem uma forma de estar na política muito diferente daquela que é praticada pelo atual governo socialista. Rio, asegura o próprio, tem “coragem”, “desapego” e quer transmitir “esperança”. Daí a tal guerra que este sábado, no Pontal, afirmou que queria comprar — a guerra da descentralização. Apesar de este domingo ter lembrado que, de facto, até assinou um acordo com o atual governo sobre o dossiê da descentralização, que “numas coisas correu bem e noutras não”, Rio quer decretar guerra aos interesses instalados. E quer mostrar que há uma diferença entre os que falam, falam, e não fazem, e os políticos que falam mas fazem. Porque “palavras, leva-as o vento”.

“Se for só andar aqui a gerir a conjuntura, se nos limitarmos só a isto, então isto é um custo de todo o tamanho para um benefício muito pequenino. Essa coragem e esse desapego é coisa que não me falta, talvez até terei em excesso às vezes”, disse perante uma plateia de alunos da universidade de verão, e de membros do seu núcleo duro como Maló de Abreu e José Silvano, que o acompanharam.

O ponto é: Rio será assim até ao fim, mesmo que não ganhe eleições. Esse cenário vai sendo, de resto, admitido pelo próprio líder do PSD, que ainda este domingo admitiu que já escolheu um daqueles que seria certamente ministro [das Finanças] num governo chefiado por si: Joaquim Miranda Sarmento, mandatário nacional e autor do cenário macroeconómico do PSD, que estava presente na sala. Acontece que até o próprio Rui Rio admite que esse seu trunfo pode vir a não ser usado já na próxima legislatura, se o PSD não ganhar as eleições. Mas se assim for, então que seja usado pelo próximo líder do PSD que vier a conseguir ser primeiro-ministro.

“Joaquim Sarmento não é dispensável de um governo PSD e se nestas eleições houver um engano do eleitorado, então o próximo presidente do PSD que vier ser primeiro-minstro, que não for eu, não poderá dispensar uma pessoa como ele”, disse.