A líder do CDS-PP quer ajudar “a construir uma maioria de centro direita” com o PSD, “combater” a abstenção e o voto útil, e confessa-se “vacinada” contra as sondagens que dão fracos resultados ao partido.

A cinco semanas das eleições legislativas de 6 de outubro, Assunção Cristas, em entrevista à Lusa, relativizou a ideia de uma crise à direita, face às sondagens, mostrando o trabalho que fez e está a fazer no partido, e afirma-se confiante nos resultados da campanha e das eleições legislativas.

“Nós sabemos como é que uma campanha começa, não sabemos como é que ela termina”, afirmou a presidente dos centristas, que promete divulgar, até ao início de outubro, as propostas do seu partido para que os portugueses possam escolher, em comparação com as dos outros partidos.

Cristas lembrou que, pela primeira vez desde 2015, os partidos – PSD e CDS – que ganharam as eleições não formaram governo, sendo o PS a fazê-lo com base numa maioria de esquerda, com PCP, BE e PEV. O que quer dizer que, desde então, o voto ficou “mais livre”, de modo a que os eleitores podem votar no CDS com a garantia de que podem estar a contribuir para “uma maioria de centro-direita”, acrescentou.

Os eleitores podem, assim, escolher, tendo em conta o programa eleitoral dos centristas, que “faz sentido votar no CDS para quem considera que, de facto, é prioritário baixar impostos para as pessoas”, reduzindo, em média, o IRS em 15 por cento ou o IRC, no prazo de seis anos, ao nível da Irlanda, onde o imposto é de 12,6%.

“A prioridade número um do CDS é baixar impostos para as pessoas, para as famílias, para as empresas. Essa é a nossa prioridade número um e depois temos uma prioridade muito grande, na saúde, para que não haja uma saúde diferente consoante o dinheiro que a pessoa tem para pagar”, exemplificou ainda.

Nesta entrevista, Assunção Cristas deu ainda vários exemplos constantes no programa eleitoral dos centristas, como o envolvimento do setor privado e social na saúde para acelerar as primeiras consultas de especialidade “em tempo útil em si” ou ainda o alargamento da licença de paternidade para um ano, extensível até aos avós, como forma de combater a fraca natalidade em Portugal.

“Sinto, do nosso lado, uma grande motivação para estas eleições. E se há coisa que nós aprendemos nesses quatro anos é que cada eleição é uma eleição”, afirmou, dando como exemplo as autárquicas em Lisboa, em que o CDS ficou à frente do PSD, e as europeias, em que teve 6% dos votos.

Depois de ter sido impossível uma coligação pré-eleitoral com o PSD, partido onde não detetou não “interesse em que isso pudesse acontecer”, Assunção Cristas afirmou que esse entendimento pode ser possível após as legislativas.

“Estamos disponíveis para construir uma maioria de centro direita para a governação, com o PSD. Naturalmente temos uma história, podemos ter um futuro em comum”, disse ainda Assunção Cristas, repetindo que os centristas não estão disponíveis a apoiar um governo de António Costa.

“Sob Escuta”. A entrevista completa a Assunção Cristas

Assunção Cristas põe ainda de parte a possibilidade de deixar de ser líder do seu partido. “Essa é uma questão que eu não me coloco, eu acho que nós vamos ter um bom resultado”, diz a líder do CDS, quando questionada diretamente sobre qual seria a percentagem mínima de votos no seu partido para se manter como dirigente máxima. “A nossa preocupação” – diz – é afirmar “as bandeiras eleitorais” do CDS e “contribuir o mais possível para um bom resultado do centro-direita”.

Declara que vai continuar o seu trabalho intensamente “para que as pessoas percebam quais são as prioridades e por que é que faz sentido votar no CDS (…) porque representa uma visão diferente, alternativa, uma visão de centro-direita para Portugal”.

A líder centrista não rejeita que há muito trabalho a fazer e que sabe de onde parte: “Temos 18 deputados, sabemos o difícil que é, mas também sabemos que cada eleição é uma eleição. Portanto, o que podemos dizer é que estamos aqui, sim, para o mais possível dar força às nossas bandeiras [mas] isso está nas mãos das pessoas”.

“Se as pessoas entenderem que faz sentido baixar impostos, baixar 15% o IRS e baixar os impostos para as empresas para que a economia cresça mais, melhorar as condições para as famílias e ter a natalidade como um grande tema, melhorar as condições para os mais idosos, olhar para o Estado numa visão complementar em que todos os setores são relevantes na saúde, na educação, na área social, por exemplo, tem bons motivos para votar no CDS”, destaca.

Segundo Assunção Cristas, as pessoas têm de ter a certeza de que o seu voto no CDS “para uma política alternativa de centro direita, não é para qualquer outro objetivo”, afirma ainda, sublinhando a “ambição” do CDS em “ir mais longe, libertar as pessoas, as empresas, para que possam construir a sua vida”.

Esta visão do CDS contrasta, segundo a dirigente do CDS, com as propostas à esquerda, onde não consegue “vislumbrar no mundo país onde elas tenham funcionado e onde as sociedades sejam mais prósperas e mais justas”.

A presidente do CDS cita o exemplo dos países nórdicos, nos quais coexiste um Estado social, “com um grande apoio, grande generosidade, mas [também] temos uma economia muito livre, muito aberta e sem gerar obstáculos às pessoas”.

“Quem se entendeu no passado também se entende no futuro”

A presidente do CDS-PP advertiu que, apesar das divergências públicas nas últimas semanas, BE e PCP podem voltar a entender-se com o PS numa “solução de continuidade”.

“O que nós sabemos é que quem se entendeu no passado também se entende no futuro. Portanto, esta solução pode ser uma solução de continuidade”, afirmou Assunção Cristas num comentário às mudanças de discurso do Bloco de Esquerda e da sua líder, Catarina Martins, que agora garante ter um programa eleitoral “essencialmente social-democrata”.

Com estas declarações, a presidente dos centristas afirmou-se pouco convencida de que um agravamento das relações entre o PS e os dois partidos que deram apoio parlamentar ao Governo minoritário do socialista António Costa resultem numa rutura após 6 de outubro.

Para Cristas, “este formato” de apoio parlamentar ao executivo minoritário do PS constitui “uma situação” de “quase dupla personalidade”, porque ao mesmo tempo o os partidos apoiam-no “nos momentos decisivos”, como o Orçamento de Estado e o programa de estabilidade” e depois fazem “oposição e guerra ao próprio governo”.

Por outras palavras, o Bloco de Esquerda e também PCP “sempre fizeram um jogo de apoiar”, mas também como se fossem “da oposição ao mesmo tempo”. “Agora distanciam-se dizendo que são quase oposição ao PS. Quando nós sabemos que eles estarão do lado do PS, apoiarão o PS, influenciarão o PS”, acrescentou.

A presidente dos centristas afirmou ainda que o PS está “preso” à esquerda, fazendo com que o executivo não faz “o que é preciso para se libertar e para chegar a outros patamares de bem-estar e de crescimento”.

“Temos um governo prisioneiro de uma ideologia mais à esquerda. A saúde é um exemplo claro disso”, afirmou, dando como exemplo o fim das parcerias público-privada, como Braga, o que só acontece, segundo afirmou, “por uma pura opção ideológica” de esquerda.

Sobre o atual Governo, diz que a principal “virtude” foi ter garantido a estabilidade e que o seu “falhanço” foi ter-se concentrado apenas na função pública, esquecendo o conjunto do país, a par da pouca transparência orçamental.

Entrevista a Assunção Cristas: “Se toda a gente acha que vem aí uma crise, o melhor é despachar já o governo do PS”

“A estabilidade por um lado é um aspeto positivo, porque um país que não tenha alguma estabilidade do governo de facto também prejudica o seu próprio crescimento e o seu bem estar”, diz a líder do CDS, destacando, porém, que, “depois, é preciso saber a que ponto e a que o preço” a estabilidade foi assegurada.

Assunção Cristas considera, todavia, que não se surpreendeu com esse facto porque – lembra – “quem chega ao poder desta forma, tendo perdido as eleições e, portanto, tendo sido rejeitado, se quisermos, numa primeira forma direta, como primeiro ministro, mas consegue juntar uma maioria a sua volta para poder governar, tudo faria para governar durante quatro anos”.

Assim sendo, afirma, era de esperar que António Costa “tudo faria para provar” que o seu Governo era “possível e viável”. Portanto, “o primeiro ministro adotou uma postura muito pragmática em que conseguiu ter essa preocupação com a estabilidade”, conclui a líder do CDS: “foram quatro anos de estabilidade governativa, mas com um preço muito alto”.

É neste contexto que a presidente do CDS lamenta que o primeiro-ministro “tenha sacrificado tudo aquilo que era preciso fazer no país (…) com a melhor conjuntura externa de sempre, porque tinha que manter essa estabilidade com os parceiros mais à esquerda (…) muitas coisas não foram feitas, que eu acho que poderiam e deveriam ter sido feitas”.

A título de exemplo, Cristas cita a necessidade de fazer alterações na formação profissional e no ensino superior, bem como várias questões relacionadas com a fiscalidade, como baixar a taxa do IRS e fazer reformas na área da Justiça.

Em contrapartida, a líder do CDS aponta como principal “falhanço” do governo não ter colocado Portugal como um país mais competitivo e produtivo, com mais capacidade de gerar e distribuir riqueza: “este governo esqueceu o conjunto do país, esteve concentrado apenas num setor, essencialmente na função pública”, acusa.

Outra “pecha” a seu ver grave, nas suas palavras, foi a falta de transparência orçamental, “um discurso que não bateu com a realidade”, nomeadamente no que diz respeito á austeridade, que se manteve, “embora feita de forma diferente, com a maior carga fiscal de sempre, com impostos indiretos e depois com cortes no investimento público, porque nunca foi executado em linha com aquilo que estava previsto”.