Depois de o Vaticano ter anunciado a nomeação do arcebispo italiano Ivo Scapolo para o cargo de núncio apostólico em Portugal, e depois de esta nomeação ter motivado o reacender da polémica contra o bispo Juan Barros, acusado de encobrir décadas de abusos sexuais praticados por um padre chileno, o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), D.Manuel Clemente, disse esta segunda-feira ter “toda a confiança” na decisão e que acredita que o Papa Francisco o fez “com toda a consciência”.

Em declarações ao jornal Público, D.Manuel Clemente sublinhou: “Tenho toda a confiança no critério do Papa Francisco. Se há assunto que o Papa acompanhou com pessoal envolvimento foi o que diz respeito ao Chile e se, depois disso, com o conhecimento direto que tem, decide nomear este núncio, só posso acreditar que o faz com muita consciência”. O cardeal-patriarca de Lisboa explicou ainda que esta nomeações são feitas num diálogo entre a Santa Sé e os diferentes Estados e que “o Estado português certamente deu o agrément”.

O diplomata italiano era embaixador da Santa Sé no Chile, país que no ano passado esteve no centro de um dos maiores escândalos de abusos sexuais na Igreja Católica. O próprio Scapolo não foi imune à polémica, tendo sido um dos principais responsáveis pela nomeação para a liderança da diocese de Osorno do bispo Juan Barros, acusado de encobrir décadas de abusos sexuais praticados por um padre chileno.

Papa nomeia arcebispo envolvido na polémica de abusos sexuais no Chile como embaixador do Vaticano em Portugal

Ivo Scapolo foi núncio no Chile entre 2011 e 2019 e era o embaixador do Vaticano naquele país na altura da nomeação de Juan Barros para bispo de Osorno, em 2015 — quatro anos depois da condenação e suspensão do padre Fernando Karadima, acusado de ter cometido abusos sexuais contra menores durante décadas, e considerado um mentor de Barros. A nomeação incomodou a comunidade católica chilena e motivou fortes protestos contra o Papa Francisco e a hierarquia católica — e esteve na origem da polémica gerada durante a visita de Bergoglio ao país, no ano passado, durante a qual o líder da Igreja Católica teve inclusivamente de pedir desculpa publicamente pela forma como falou das vítimas chilenas.

Para os chilenos, o ex-padre Fernando Karadima é a personificação do drama dos abusos sexuais na Igreja Católica. As primeiras denúncias contra Karadima surgiram em 2004, dentro da própria Igreja, mas só tiveram eco internacional em 2010, quando quatro homens da paróquia de El Bosque contaram as suas histórias ao jornal norte-americano The New York Times.