Um estudo do Instituto de Psicologia Médica da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra concluiu que 15% das portuguesas apresentam sintomas de perturbações obsessivo-compulsivas no período pós-parto.

74,1% das mulheres inquiridas apresenta pelo menos um pensamento obsessivo-compulsivo. O receio de deixar cair o bebé ou o medo que ele morra durante o sono são os pensamentos mais comuns, “que depois levam a compulsões como estar sempre a verificá-lo, estar sempre a lavar o ambiente do bebé, procurar excessivamente informação”, explica a investigadora Ana Telma Pereira, psicóloga clínica e responsável pela investigação. Quase metade das mulheres (41,5%) passa dos pensamentos para os comportamentos obsessivo-compulsivos.

O fenómeno acontece não só pelas alterações biológicas hormonais diretamente relacionadas com a gravidez, como também pelas mudanças psicosociais “vindas do grande acréscimo de responsabilidade, muito exacerbado quando a mulher engravida e principalmente quando nasce o bebé”, resume a investigadora.

“Apesar de mais de metade das mulheres poderem ter esses pensamentos, o que distingue não é o conteúdos dos mesmos mas sim a sua gravidade de interferência”, refere a psicóloga. A quantidade de tempo em que a mulher é incomodada com aquele pensamento, assim como quanto é que ele interfere com as tarefas diárias, o grau de perturbação que lhe causa e o grau de controlo que consegue ter sobre ele são os fatores que serviram à equipa de investigação para medir a gravidade e a interferência que os pensamentos e os comportamentos têm sobre as mulheres.

Ana Telma Pereira e António Ferreira de Macedo são os responsáveis pelo estudo do Instituto de Psicologia Médica da Universidade de Coimbra

O estudo envolveu 212 participantes, recrutadas maioritariamente na Maternidade Bissaya Barreto (Coimbra) e entrevistadas no 6.º mês de pós-parto. Durante o processo pôde verificar-se que “quase todas as mulheres iniciaram os sintomas logo após o nascimento do bebé ou logo ao terceiro mês de gravidez”, mas uma percentagem significativa (cerca de 15%) iniciou estes pensamentos logo no início da gestação.

Os resultados, agora em fase de publicação, não se mostraram surpreendentes para Ana Telma Pereira, uma vez que “são muito coincidentes com a literatura internacional”. A investigadora estuda há quase dez anos a depressão e a ansiedade pós-parto, acompanhada de uma equipa do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de Coimbra que é chefiada pelo professor António Ferreira de Macedo.

No entanto, Ana Telma Pereira nota que estes resultados “são preocupantes”.

“As perturbações psiquiátricas no período perinatal, nomeadamente a depressão, a ansiedade e a POC, têm consequências muito graves não apenas para a mulher, como também para a família como um todo, mas principalmente para o desenvolvimento do bebé. Sabe-se também que os filhos de mulheres com este tipo de perturbações, tanto na gravidez como no período pós-parto, tem maior probabilidade de vir a ter eles próprios psicopatologia” Ana Telma Pereira

A investigação ganhou o prémio do melhor póster no Congresso Mundial da Saúda da Mulher, em março deste ano. Apesar de não se central no papel do homem, a investigadora assinala que nos homens em início de parentalidade também há um acréscimo destes pensamentos e comportamentos obsessivo-compulsivos, embora “em percentagens inferiores às que afetam as mulheres”.