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Brexit

Boris derrotado e eleições ao virar da esquina. Ninguém estava a fazer bluff

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Com 21 deputados tories expulsos depois de darem primeira derrota parlamentar ao novo PM, o primeiro de três dias nos Comuns deixou o país à beira de ir às urnas. Mas Boris está satisfeito.

Boris Johnson discursa na Câmara dos Comuns, perante o olhar dos deputados da oposição

PA Images via Getty Images

Não estavam a fazer bluff.

Ao fim da manhã desta terça-feira, vários dos deputados conservadores apelidados pela imprensa britânica de “rebeldes” reuniram-se com o primeiro-ministro no número 10 de Downing Street e deixaram claro que, a manter-se tudo como estava, iriam votar contra o seu Governo nessa mesma tarde, no Parlamento. À noite, já tinham efetivado essa decisão e sido oficialmente expulsos do partido — incluindo ex-ministros (Philip Hammond ou David Gauke), o deputado mais antigo da Câmara (Kenneth Clark) e o neto de Winston Churchill (Nicholas Soames).

Um dos diálogos que terá ocorrido dentro daquela reunião da manhã, relatado por um jornalista do Daily Mail, demonstra exatamente quão intransponíveis eram as posições de parte a parte:

Boris Johnson: ‘Não irei tolerar uma proposta de lei que entrega o poder às mãos de Corbyn”.
Philip Hammond: ‘Estamos a entregar o poder ao Parlamento.’
Boris Johnson: ‘Estão a entregar o poder a uma junta que inclui Jeremy Corbyn.’

Nove horas mais tarde, cada um reforçava a sua posição. Os rebeldes apoiaram uma moção parlamentar — aprovada com 328 votos contra 301  — para que se discuta, esta quarta-feira, uma proposta de lei que trava um no deal e obriga o Governo a pedir um adiamento do Brexit caso não haja acordo. E o primeiro-ministro, por sua vez, garantiu que avançará para pedir eleições caso essa proposta seja aprovada.

Debate quente nos Comuns. Boris recusa “rendição” e Corbyn fala em “cobardia”, enquanto ministro dos Assuntos Parlamentares e presidente da Câmara trocam farpas

Os 21 graus que estiveram nas ruas de Londres esta terça-feira não foram nada quando comparados com o calor que se sentiu dentro da Câmara dos Comuns. A intervenção de Boris Johnson sobre a reunião do G7, que estava planeada, rapidamente evoluiu para um debate sobre o Brexit, com o primeiro-ministro a prometer que não mostrará a “bandeira branca” a Bruxelas: “Nunca me renderei e entregarei o controlo das negociações da forma que o líder da oposição está a pedir”, afirmou, perante gritos, vaias e todo o tipo de comoção na Câmara.

Querem minar-nos, querem forçar-nos a implorar por outro adiamento inútil. Se isso acontecer, todo o progresso que fizemos não vale nada”, acrescentou o primeiro-ministro.

A resposta do líder da oposição foi menos intensa, mas teve nota para a “linguagem” usada por Boris (“não é uma rendição, porque não estamos em guerra com a UE”) e espaço para acusações: “Este Governo está a esconder-se do escrutínio, do povo e está a esconder-nos as suas verdadeiras intenções. Este não é apenas um Governo do caos, é um Governo da cobardia.”

A prestação do líder dos trabalhistas, contudo, foi ofuscada por algo que tinha acontecido momentos antes, quando Boris ainda discursava: o momento em que o deputado conservador Philip Lee atravessou a Câmara e se sentou na bancada do lado oposto àquela que costuma ocupar, junto dos Liberais-Democratas. Consolidava-se assim a sua demissão do partido, em reação à forma como está a lidar com o Brexit. Foi uma das estratégias utilizadas pelos tories rebeldes, com muitos outros a anunciar que não se irão recandidatar — e assumindo assim que esta votação ditará o seu adeus à Câmara dos Comuns.

A travessia de Philip Lee pela Câmara funcionou, à semelhança da reunião da manhã, como outro prenúncio: a de que, pela noite, o Partido Conservador estaria efetivamente partido entre os que querem uma saída da UE a todo o custo e os que, sejam ou não a favor do Brexit, querem evitar o cenário de no deal.

A sessão na Câmara ainda ficou marcada pela prestação do novo ministro dos Assuntos parlamentares, Jacob Rees-Mogg, que deu nas vistas pela sua postura relaxada durante o debate, com o ministro a ser fotografado praticamente deitado sobre as bancadas do Governo. O gesto pode ser simbólico, com a oposição a falar em “desrespeito” pela Câmara dos Comuns, mas a sua troca de palavras com o presidente da Câmara, John Bercow, deixou mais clara a guerra aberta que se vive entre Governo e Parlamento.

Rees-Mogg destacou outros princípios processuais que Bercow respeitou no passado e que não estaria a fazer neste momento, acusando o presidente de estar a errar ao aceitar que esta moção fosse debatida: “Seria errado da minha parte questionar a sua imparcialidade, mas reconhecer a imparcialidade de alguém não significa reconhecer a sua infalibilidade”, decretou.

Bercow não tardou na resposta, apontando outros exemplos de precedente que justificariam a sua decisão: “Procurei exercer o meu julgamento em função de facilitar a Câmara dos Comuns, facilitar a legislatura. Fi-lo, continuo a fazê-lo e irei fazê-lo — citando alguém, aconteça o que acontecer, dê por onde der”. A alfinetada só tinha um destinatário: Boris Johnson, que havia usado exatamente essas expressões horas antes, naquela mesma Câmara.

Boris, animado pelas sondagens e atormentado por uma maioria curta, está pronto para convocar eleições

Do outro lado também não estavam a fazer bluff.

Ao longo do dia, um porta-voz de Boris Johnson já tinha dramatizado, numa última tentativa de convencer os tories rebeldes, ao definir a votação como “uma moção de confiança” ao Governo. Com a saída de Philip Lee para os Liberais-Democratas, o Governo sabia que tinha perdido a sua maioria efetiva na Câmara e, com a possível sangria prevista para a noite, arriscava-se a pô-la ainda mais a jogo, já que tinha prometido expulsar todos os que fugissem da linha partidária. Consolidava-se o cenário de eleições antecipadas, com fontes governamentais a soprarem aos jornalistas a data de 14 de outubro — entretanto alterada para dia 15, a fim de não coincidir com o feriado judaico do Sucot.

Pouco depois do bater das 22h, tudo se precipitou. Os rebeldes tories ajudaram a aprovar a moção por uma maioria ainda maior do que o esperado (328 votos ao todo, dos quais 21 de conservadores) e Boris respondeu de imediato com a ameaça de eleições, como tanto tinham anunciado as “fontes governamentais” aos jornais. “Vamos ter de fazer uma escolha. Não quero eleições, ninguém quer eleições, mas se a Câmara aprovar esta proposta de lei amanhã, o país terá de decidir quem vai a Bruxelas”. Ou seja, se os deputados mantiverem este sentido de voto esta quarta-feira, como é provável, o primeiro-ministro apresentará uma moção para convocar eleições.

Sobra, no entanto, a dúvida: irá o Partido Trabalhista aprovar esse cenário? De acordo com as regras parlamentares, para um Governo convocar eleições antecipadas [exceto em caso de moção de censura] é necessário o Parlamento aprovar a proposta por uma maioria de dois terços. O Labour tem repetido há meses que quer eleições legislativas. Seria bluff?

À primeira vista, Boris Johnson saiu derrotado desta noite, com a sua primeira votação parlamentar a derrubá-lo à custa de deputados revoltosos do seu próprio partido. Mas uma leitura mais aprofundada pode indicar que este sempre foi o desejo do primeiro-ministro, desagradado com uma maioria tão curta no Parlamento. À saída da Câmara dos Comuns, ocorreu uma cena que indica esse mesmo, contada pelo editor de política do The Times, Tim Shipman: Dominic Cummings, o chefe de gabinete de Boris e estratega da campanha pela saída no referendo, atirou um desafio a Jeremy Corbyn, gritando-lhe “Vá lá, Jeremy, vamos lá fazer esta eleição, não tenhas medo”.

É que as sondagens não deixam margem para dúvidas de que, a manterem-se as intenções de voto como estão, Boris Johnson será o vencedor — 35% de acordo com o YouGov, contra 25% para os trabalhistas. Com a estratégia de radicalização a favor de uma saída sem acordo, com o discurso do “custe o que custar” e com uma estratégia de alienar um Parlamento que tem colocado entraves à saída, o primeiro-ministro vai comendo eleitorado ao Partido do Brexit de Nigel Farage e consolidando a sua posição como líder político dos que querem o Brexit. O preço a pagar pode ser uma guerra entre Parlamento e Governo e um Partido Conservador em farrapos. Mas, num país à beira de voltar às urnas, Boris Johnson parte para eleições com mais vantagem do que nunca.

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