Em 1990, a Vogue britânica publicou na capa uma foto que juntava Naomi Campbell, Linda Evangelista, Tatjana Patitz, Christy Turlington e Cindy Crawford. Era o momento que marcava em definitivo a era das supermodelos, referência que haveria de tomar conta de boa parte da década de 90. A imagem era de Peter Lindbergh, que não era um fotógrafo novo mas que se afirmava então como o autor definitivo de uma iconografia que deixou um legado inevitável até hoje. Lindbergh, alemão nascido em 1944, terá para sempre o nome inevitavelmente associado à fotografia de moda, mas assinou um trabalho que procurou passar por dimensões diferentes e que será sempre celebrado. Morreu esta terça-feira, 3 de setembro, aos 74 anos.

A capa do número de Janeiro de 1990 da edição britânica da revista Vogue, com a fotografia de Peter Lindbergh

A forma como descobria na moda um objeto fotográfico único, como transportava para a fotografia uma visão muito particular das mulheres e da imagem feminina fez com que Lindbergh fosse famoso mesmo para quem o seu nome não significava nada. Assinou fotos transformadas em símbolos, criou um universo particular e abriu portas para uma nova era fotográfica, que criou culto e discípulos.

Procurou, desde a década de 70, transportar o que mais o inspirava no cinema, numa imagem dramática mas realista a preto e branco, uma construção cénica que o permitia retratar de forma muito especial e pessoal o mundo concreto — e sobretudo o mundo feminino — que observava com atenção e cuidado particulares.

Essa particularidade fez com que quebrasse com as normas instituídas pela indústria da moda, adaptando e modelando à sua vontade aquilo que acreditava ser a mais válida e rica representação feminina: uma que mostrava a a força das mulheres, a vontade e a determinação que, nas fotografias de Lindbergh, criavam um novo protótipo feminino, rapidamente apropriado pelos principais criadores. Numa entrevista em que recapitulava o seu trabalho, haveria de dizer que “esta deveria ser a responsabilidade os fotógrafos de hoje: libertar as mulheres, e eventualmente todas as pessoas, do terror da juventude e da perfeição”.

O fotógrafo na exposição que lhe foi dedicada na Semana da Moda de Paris Primavera/Verão 2015 (Foto: Michel Dufour/WireImage)

Perfeição essa que dizia não ser o propósito do seu trabalho, mostrando-se pouco adepto de ferramentas como o Photoshop. Ainda assim, entre o trabalho editorial e comercial que assinava, a exigência era sempre a mesma: Peter Lindbergh praticamente não estabelecia qualquer fronteira entre o que fazia para revistas ou para marcas de luxo como a Chanel, que frequentemente requisitava os serviços do alemão.

Peter Lindbergh nasceu na Polónia ocupada, em 1944. Com antepassados holandeses, passava férias nos países baixos, haveria de estudar em Berlim e, mais tarde, fixar-se em Dusseldorf, já depois de ter completado os estudos em Belas-Artes e de ter depois seguido o caminho da fotografia, marcado pelo cinema como pelo fotojornalismo.

Além da fotografia, realizou documentários como os populares “Models, The Film” (1991) ou o retrato da coreógrafa e bailarina Pina Bausch, baseado na peça “Der Fensterputzer” (de 2002). Assinou capas de discos, posters de filmes e fes telediscos. Lindbergh foi alvo de várias exposições e livros antológicos e homenagens. A sua conta oficial de Instagram continua a ser atualizada com imagens de arquivo e é uma das principais fontes para recuperar um trabalho único e influente.