Pensar o futuro olhando para o presente é a proposta de Olafur Eliasson que, pela primeira vez em Portugal, nos convida a fazer uma viagem pela nossa experiência sobre o mundo, explorando a relação entre a humanidade e o meio ambiente. Eliasson teve contacto com a arte na escola e considera “interessante” perceber que o que era considerado artístico nessa altura continua a sê-lo hoje. No entanto, defende que “precisamos de não repetir aquilo que foi arte no passado, temos de redescobrir, reinventar e redesenhar coisas novas.”

Conhecido pelas peças de grande escala que cruzam a ciência e a tecnologia, mas também a água, a luz, a humidade ou a temperatura do ar, o artista revela preocupações ambientais nas suas obras, numa monumentalidade poética e desconcertante cheia de vórtices, ciclos, espirais, correntes e trajetórias. Através de esculturas e instalações, visualmente interligadas e que dependem da interação individual de cada um, Olafur propõe uma reflexão sobre os nossos dias com uma perspetiva futurista.

“Imagine, daqui a 30 anos escrever uma carta para si próprio, que tipo de conselhos daria? Se tivesse oportunidade, corrigia algo que correu mal? Sabendo o que sabe hoje, porque continua a fazer as coisas da mesma maneira?”

Para o artista, “muitas vezes pensamos no passado como sendo aquilo que esperávamos que tivesse acontecido e não como aquilo que realmente vivemos” e partilha como se vê daqui a 20 anos. “Vou manter-me esperançoso, sou um prisioneiro da esperança, mas é mais um fardo do que uma libertação.” Contudo, Olafur é “um otimista” e gosta de ler boas noticias. “O David Byrne lançou uma revista online onde só são publicadas boas notícias. É uma das coisas mais difíceis de fazer, mas adoro a ideia.”

O urbanismo, o desenvolvimento sustentável, as alterações climáticas, as crises ambientais ou as novas formas de produzir energia são temas que Eliasson aborda no seu trabalho, que afirma só fazer sentido quando é humanizado, numa proposta que tem tanto de atual como de urgente. Preocupado com “a falta de coesão e eficácia das decisões políticas” em catástrofes como os incêndios na Amazónia, o artista lembra que normalmente quando há uma crise as pessoas juntam-se para se ajudarem, mas nesta situação internacional as decisões políticas parecem contribuir para o afastamento de todos. Olafur acredita que “tendemos a pensar e a viver o imediato”, por isso, temos de ter “políticos que nos ajudem a projetar a longo prazo”.

Numa altura em que o Museu de Serralves comemora 30 anos, o artista dinamarquês-islandês desafia os conceitos de interior e exterior, sendo autor da grande exposição anual no parque. O seu trabalho ocupa parte do museu e do parque, “espaços abertos ao mundo, como há poucos”, onde acredita que podemos ser “imprevisíveis”, “discordantes” e “parvos”.

Troncos flutuantes, um bosque amarelo, um pavilhão em aço e espirais matemáticas

São 11 as peças que pode ver dentro e fora de portas. No átrio central percorra o caminho definido por Yellow forest (2017) que o artista plantou. Trata-se de uma peça originalmente concebida em colaboração com o arquiteto paisagista Gunthe Vogt que representa uma floresta artificial formada por dois grupos de bétulas, redefinindo o espaço arquitetónico. No seu interior, a luz projetada altera a perceção cromática, fazendo deste “um lugar em permanente mutação”. Na galeria central do Museu está The listening dimension (2017), uma sequência de espelhos e grande anéis que aparecem flutuar no espaço, desafiando as leis da física e da ótica.

Já a céu aberto encontramos ao redor do edifício do museu troncos de madeira flutuante na peça Arctic tree horizon (2019). “A Islândia tem poucas árvores e nesta ilha não há florestas, mas troncos abundantes podem ser encontrados ao longo da sua costa, para onde foram trazidos, desde a Sibéria, pelas correntes marítimas e pela deriva de gelo polar”, lê-se no catálogo da exposição.  Eliasson recolhe esses troncos, salgados pelo oceano e branqueados pelo sol, e redistribui-os em locais que lhes são estranhos, mas que lhes dão um novo significado. Para esta mostra, o artista revestiu uma parte da madeira destes troncos com tinta preta sugerindo a ideia de alcatrão – um material usado anteriormente para vedar o casco de navios contra a infiltração da água do mar – evocando assim na paisagem pensamentos sobre migração, circulação e o imenso sistema ecológico que habitamos.

É na rotunda das Liquidâmbares que mora o The Curious Vortex (2019), um pavilhão que à distância parece simples e leve, mas depois de entrarmos nele torna-se imponente, caótico e pesado pelo efeito tornado no centro. Com cinco metros de altura e mais de oito metros de diâmetro, a forma simétrica desta peça feita em aço inoxidável é inspirada nos movimentos de um vórtice, um fenómeno natural criado por uma massa de vento em movimento giratório e água.

Também em aço inoxidável são as três esculturas Human time is movement (winter, spring and summer) (2019), dispostas na Clareira dos Teixos. Estas espirais a preto e branco foram criadas a partir de um modelo matemático onde uma fórmula de desenho e um processo robótico ditaram o aspeto final. As linhas circulares tridimensionais representam o movimento do vento, das ondulações do oceano ou da rotação do planeta, tendo como base a velocidade e as forças centrifugas e gravitacionais. As três formas comunicam a passagem do tempo, mas para o artista “o tempo é o agora”. “É tempo de olhar e andar à volta.”

A exposição “Y/our future is now” tem a curadoria do novo diretor artístico do Museu de Serralves, Philippe Vergne, Marta Moreira de Almeida e Filipa Loureiro, termina no Museu a 8 de março e no Parque a 14 de junho de 2020.