O Teatro Nacional São João (TNSJ) opera atualmente com o número de trabalhadores mais baixo do século XXI, disse o presidente do Conselho de Administração, Pedro Sobrado, esta sexta-feira. “Nos últimos meses, o TNSJ alcançou o número mais baixo de trabalhadores dos últimos anos. (…) Remonta ao final do século passado [um número tão baixo de trabalhadores], antes de ter responsabilidade de gestão do Teatro Carlos Alberto e do Mosteiro de São Bento da Vitória”, começou por dizer o administrador, num discurso de apresentação da nova programação para os próximos seis meses e de um protocolo com Cabo Verde.

Na opinião de Sobrado, “é hoje prioritário assegurar um reforço cirúrgico e qualificado da estrutura do TNSJ”, o que deve acontecer “para cumprir a lei, entenda-se, a missão instituída pelo decreto fundador do teatro” e o contrato-programa assinado com o Estado, em 2018.

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Mais tarde, o diretor artístico, Nuno Cardoso, disse, um a um, o nome de todos os funcionários desta entidade pública, porque “estes trabalhadores não se elogiam, nomeiam-se”. “Nós somos o Teatro Nacional São João. Bem-vindos”, concluiu, numa atitude a sublinhar que o teatro se faz com pessoas.

Ministra da Cultura garante contratações

A ministra da Cultura, Graça Fonseca, esteve presente na apresentação da programação, para assinar um protocolo com o TNSJ e o Governo de Cabo Verde com vista ao intercâmbio de peças e artistas, e disse à Lusa que tem acompanhado “há um ano” a pasta do “reforço dos recursos humanos” do teatro.

Estão prestes a ser concluídas quatro contratações, o TNSJ apresentou um mapa de necessidades, e é um trabalho conjunto do governo com o Conselho de Administração. Desde já, temos vindo a fazer esse trabalho e esperamos vir a concluir este processo”, acrescentou a ministra.

Por outro lado, alertou para “o caminho que o próprio setor público tem feito”, porque “depois de muitos anos sem reforçar os quadros” torna-se difícil “recuperar apenas num ano ou dois”, e destacou o reforço “gradual” do orçamento do TNSJ, de “cerca de quatro milhões em 2015 para 5,5 milhões este ano”.

A governante elogiou ainda o esforço “de reconfiguração de algumas funções do que compõe” o teatro e o trabalho “para identificar as necessidades”, reconhecendo que “nos próximos anos será necessário crescer mais em termos de recursos humanos”.

A ministra da Cultura, Graça Fonseca (@ José Sena Goulão / Agência Lusa)

Antes, Sobrado tinha ironizado com a existência de um financiamento elevado e com a existência de um elenco próprio, uma reivindicação de anos do teatro instalado no Porto, um “desígnio” que Nuno Cardoso, à Lusa, explicou que espera ver “concretizado em 2020”. “É um objetivo enquanto casa de criação e é importante”, acrescentou o diretor artístico.

Sobre a possibilidade de ter elenco próprio, a ministra reconheceu que é “um dossiê que está identificado”, talvez “um dos primeiros” desde que tomou posse, e um “assunto de há muitos anos”. “O que sempre disse é que temos de equacionar isso, mas não tenho uma resposta para amanhã, e acho que o próprio São João também não tem”, rematou.

“O nosso principal interlocutor é e sempre será o Porto”

O diretor artístico do Teatro Nacional São João (TNSJ), Nuno Cardoso, disse também que o Porto e as companhias teatrais da cidade vão continuar a ter espaço naquela instituição, que tem em curso um esforço de internacionalização. À margem da apresentação da programação para os próximos seis meses da instituição, que passou a dirigir este ano, sucedendo a Nuno Carinhas, Cardoso explicou à Lusa que o TNSJ vai “lá para fora mas volta sempre”.

“As nossas temporadas, as estreias, o centro educativo está nestas três salas [o TNSJ, o Teatro Carlos Alberto e o Mosteiro de São Bento da Vitória]. O nosso principal interlocutor é e será sempre o Porto. Quando nos deslocamos, levamos o Porto connosco”, assegurou.

Na opinião do diretor artístico, cuja primeira encenação de uma produção própria será com “A Morte de Danton”, de Georg Büchner, há um esforço do teatro nacional para “a nacionalização, com digressões, e a internacionalização”, mas isso não significa que deixem de ter “os pés na cidade”. A identidade do teatro “é uma identidade nacional e temos um parceiro próximo, o Teatro Municipal do Porto, e outras instituições. Somos colaborantes, cada qual com o seu ensejo, o seu objetivo, e acho que é em uníssono. Não há perigo para o Porto nem para as companhias do Porto”, referiu.

Depois de uma programação feita “a duas vozes” até ao final de 2019, em colaboração com o antecessor, Nuno Carinhas, Nuno Cardoso encontra em 2020, ano de centenário do edifício do São João, o seu primeiro desafio, algo que confessa não o assustar: “A minha programação começa já em janeiro de 2020, e deu-me extremo prazer. É uma programação que procura, de alguma forma, abarcar temas e linguagens que permitam uma organicidade entre o que se produz e apresenta e o público. É reforçar a identidade do São João, que me parece já bastante vincada”, comentou.

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Horváth, Ulisses e Parreira e João Garcia Miguel na programação de 2020

Um total de quatro produções próprias, uma a estrear em Cabo Verde, estão entre os 27 espetáculos programados para os próximos seis meses do TNSJ. Ao todo, são 27 os espetáculos, seis deles internacionais, à entrada para um ano de 2020 em que se comemora o centenário do edifício do São João, projetado pelo arquiteto Marques da Silva.

Em 2020, alguns dos destaques dos primeiros dois meses passam por “Um Plano do Labirinto”, de Francisco Luís Parreira e João Garcia Miguel, mas também “U”, a partir de Ulisses, de Maria Alberta Menéres, por Joana Magalhães, e ainda “O Dia do Juízo”, de Ödön von Horváth, encenado por Cristina Carvalhal.

O diretor artístico vincou ainda o “desígnio” de um elenco próprio para o Teatro São João, à semelhança do Teatro Nacional D. Maria II, algo que espera “ver concretizado em 2020”, por ser “um objetivo enquanto casa de criação”.

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Por outro lado, e questionado sobre a existência de temporadas mais curtas (tempo em cena de cada uma das peças), em relação ao habitual naquele teatro, retorquiu com a necessidade de “ler o público”, e deu como exemplo a adaptação de “A Morte de Danton”, por exemplo, para abarcar “Júlio César”, de Shakespeare, pela Ao Cabo Teatro. “Nenhuma temporada terá menos de quatro dias, e terá o tempo digno de montagem”, afirmou, sobre a programação do TNSJ, excetuando as peças acolhidas inseridas em festivais de curta duração como o MEXE.

Na opinião do ator e encenador, há uma relação que se deve “ir prolongando depois de primeiro dizer ‘olá’” até que depois “ganhe substância e possa dar temporadas maiores”. Antes, durante a apresentação da programação, Nuno Cardoso destacou num discurso a forma como o TNSJ se afirma “desde a sua génese”, ou seja, como “desejo de um Teatro premiado à cidade, com letra grande, plural e democrático, com um discurso sobre os valores” que unem a instituição ao que a rodeia.

“Este foi, é, e será o rosto desta instituição na cidade, na região, no país e na Europa”, mencionou, destacando também no esforço de internacionalização, mas também “descentralização e diáspora cultural”, a estreia das companhias Mala Voadora e Cão Solteiro no espaço e a circulação pelo país e pelo estrangeiro.

7.000 espectadores em 11 meses

Durante a apresentação, o TNSJ revelou que, entre setembro de 2018 e julho de 2019 recebeu, nos seus espaços e digressões, 88 espetáculos, com um total de 7.328 espectadores, para uma taxa de ocupação de sala de 76%, com Sobrado a destacar outros números.

A execução “acima dos 100%” do indicador anual de iniciativas promotoras de acessibilidade, com 14 peças com Língua Gestual Portuguesa, entre outras atividades, juntam-se ao aumento dos espetáculo para infância e juventude, de cinco, em 2016, para 12, em 2019, e de projetos educativos, de 27, em 2016, para 59, em 2019.

Por seu lado, as edições de livros em parceira com a Húmus “duplicaram durante o ano de 2018/2019”, naquele que foi “o melhor ano da coleção” de teatro.

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