Thomas K e a sua mulher seguramente não se esquecerão desta viagem — e não será pelos melhores motivos. O desejo inicial deste casal alemão, sobre o qual ainda se sabe pouco, era conhecer melhor a região montanhosa e alpina do Tirol, em especial a cidade de Gerlos. A vontade desapareceu “imediatamente”, assim que entraram na receção do hotel austríaco de quatro estrelas em que se instalaram — e cujo nome não é conhecido. Mal entraram, viram duas fotografias que não esperavam ver. Quando voltaram a casa, relataram o desgosto numa crítica online, publicada em sites de pesquisa e avaliação de alojamento e hotéis. Por causa do que escreveram, acabaram processados.

A história é caricata e foi contada pelo jornal inglês The Guardian. No lobby do hotel austríaco em que se instalaram, Thomas K e a sua mulher viram uma fotografia antiga de um jovem com um uniforme de má memória, com uma águia e um crachá com uma cruz suástica que foi símbolo do nazismo. Na outra fotografia, estava um homem mais velho — e também dessa não ficaram fãs.

Quando se sentou ao computador para dar a sua opinião sobre o hotel, recorrendo a um pseudónimo — garante o The Guardian — Thomas K não foi meigo: logo no título da crítica denunciou a existência de “uma fotografia de um avôzinho Nazi” à entrada e acrescentou:”isto fez-nos pensar o que o dono do hotel está a tentar dizer-nos com esta imagem. Este incidente é muito claro sobre qual é o atual estado de coisas nesta região da Áustria”.

Mais uma fotografia de Gerlos, na região tirolesa da Áustria (@ Stanzel/ullstein bild via Getty Images)

Quem não gostou do comentário, claro, foi o dono do hotel. Terão recorrido a diferentes estratégias para que o bom nome do espaço não ficasse afetado. É certo que pediram aos proprietários do Booking.com e ao TripAdvisor, sites nos quais as críticas foram publicadas, para removerem a crítica de Thomas K. (o Booking fê-lo, o TripAdvisor recusou-se inicialmente a fazê-lo), mas o turista alemão acusa ainda um membro da família do dono de o ter ameaçado, exigindo-lhe a eliminação do texto corrosivo.

Também para se defender das acusações dos turistas, o dono do hotel austríaco mostrou-se ofendido com a relação que o casal estabeleceu entre os uniformes dos fotografados e as suas convicções políticas. Tudo porque, garante o hoteleiro austríaco, os seus familiares serviram realmente a Wehrmacht, o nome das forças armadas alemãs durante a II Guerra Mundial, mas não eram, contudo, seguidores da causa nazi.

Por causa disso, o dono do hotel processou Thomas K. O Tribunal de Innsbruck, cidade do Tirol austríaco, aceitou discutir a causa para concluir que o cliente tinha sugerido sem provas que o dono do hotel era também ele simpatizante das políticas do partido de Adolf  Hitler. Logo, a preservação da sua reputação e do seu bom nome prevalecia sobre o direito à liberdade de expressão do sr. K., entendeu o tribunal.

Os processos judiciais, contudo, ainda não terminaram. Na Alemanha, o cliente processou um familiar do dono do hotel, devido às ameaças de que garante ter sido alvo. Por outro lado, o sr. K tem um trunfo importante: ao contrário do que o dono do hotel afirmou, os seus familiares que estão na fotografia serviram as Forças Armadas do regime criado por Hitler e foram igualmente militantes do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, o partido nazi.

O proprietário garante que não sabia e já retirou as imagens, mas insiste que o seu bom nome foi afetado e que tem as fotografias no hotel não por simpatizar com o nazismo, mas sim por ser comum pendurar-se fotografias de familiares na entrada dos hotéis situados nesta área rural austríaca.