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Seleção Nacional

“Entretém-nos”, pediam os portugueses a Fernando Santos. Quatro golos chegam?

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Foi uma segunda parte à antiga da Seleção das quinas: uma defesa com alguns tremeliques, magia e bom futebol ofensivo e um trio de ataque endiabrado. Eis a crónica do Sérvia 2-4 Portugal.

Cristiano Ronaldo marcou o terceiro golo da Seleção Nacional na vitória contra a Sérvia por 2-4. Os 3 elementos ofensivos da Seleção que começaram a partida (Ronaldo, Guedes e Bernardo Silva) marcaram todos

AFP/Getty Images

A ideia lá aparecia a cada mau resultado, como os dois que Portugal já tinha tido (em dois jogos) nesta fase de apuramento para o Europeu 2020, traduzidos em empates caseiros frente às seleções da Ucrânia e da Sérvia. Sim, Portugal venceu o Europeu 2016, um feito inédito na história do futebol nacional. Sim, venceu há poucos meses a nova competição Liga das Nações, que muitos desvalorizaram mas que verdadeiramente ninguém queria perder. Mas e o bom futebol que tradicionalmente se via? E os empates calculistas arrancados a ferros, como se uma Seleção que foi sempre romântica se tivesse entretanto tornado matreira e aborrecidamente italiana?

O percurso de Fernando Santos ao leme da Seleção Nacional, durante os 90 minutos que cada jogo dura, tem sido mais eficaz do que apaixonante: a paixão costuma vir depois dos jogos, nos festejos das conquistas que antigamente escasseavam. Este sábado, em Belgrado, a Seleção Nacional deu aos portugueses uma noite à antiga, com golos com fartura, sangue a ferver e tremeliques da defesa de que o próprio Selecionador assumiu não gostar, na flash interview final. Porém, saiu com uma vitória importante, por 2-4, depois de a Seleção ter recolhido aos balneários no final dos primeiros 45 minutos com um resultado magro (0-1) e apenas um remate enquadrado com a baliza, precisamente o que deu golo. Eficácia máxima.

A Seleção Nacional entrou em campo com um onze inicial que surpreendeu alguns portugueses, que esperavam ver João Félix — o jovem avançado que se transferiu este verão do Benfica para o Atlético Madrid a troco de 120 milhões de euros, e que tem estado em destaque neste início de época em Espanha — no lugar do também ex-Benfica (e atual jogador do Valência) Gonçalo Guedes. O onze, no entanto, foi o mesmo em que Fernando Santos apostou há três meses para a final da Liga das Nações, conquistada por Portugal.

Apesar de ter revelado esperar uma Seleção da Sérvia “com as linhas mais subidas, à procura de pressionar Portugal mais à frente no terreno”, Fernando Santos encontrou um adversário que o “surpreendeu”, como admitiu no final do jogo. Mesmo já tendo perdido cinco pontos em jogos anteriores desta fase de qualificação — Portugal tinha perdido menos um ponto, ainda que tivesse feito menos um jogo —, a equipa liderada pelo treinador Ljubiša Tumbaković apresentou-se cautelosa, permitindo que o conjunto de Fernando Santos tivesse a bola e a gerisse a seu belo prazer. A estratégia da equipa que tem Nemanja Matic no meio-campo defensivo parecia passar por surpreender Portugal aplicando a mesma receita de há uns meses, quando conseguiu um empate no Estádio da Luz: dar à Seleção Nacional a ilusão de que estava no controlo do jogo, convidá-la a subir e, defendendo bem, dar a estocada final em Portugal em contra-ataque.

Apesar das duas equipas terem recolhido aos balneários com uma vantagem por margem mínima para Portugal — 0-1, graças a um golo em que, após um cruzamento, William Carvalho aproveitou uma atrapalhação entre o guarda-redes da Sérvia e o defesa Nikola Milenkovic para anotar—, o resultado era enganador. Portugal tinha tido muito mais posse de bola e circulava-a bem numa primeira fase, mas não conseguia encontrar maneira de furar o setor defensivo da Sérvia. Só pelo flanco direito, em combinações entre Bernardo Silva (o que decidiu sempre melhor, vendo demarcações que mais ninguém via, parando e acelerando o ataque nos momentos certos) e o lateral Nélson Semedo, Portugal causava calafrios ao adversário. Num desses lances, aos 11 minutos, o defesa-direito do Barcelona subiu pelo flanco e cruzou para o interior da área, onde encontrou Ronaldo, que no entanto não conseguiu fazer o que melhor sabe: marcar.

Bernardo Silva (na fotografia abraçado ao central Rúben Dias) foi um dos grandes destaques da partida em Belgrado (@ UEFA via Getty Images)

O avançado da Juventus, que esteve muito ativo ao longo da partida, viria a ter nova oportunidade aos 29 minutos. Depois de um lance coletivo de combinações e tabelas rápidas entre os jogadores mais adiantados (e virtuosos) da Seleção Nacional, um tipo de jogada que na segunda parte se repetiria várias vezes e resultaria em golos, Bernardo Silva recebeu a bola descaído para a direita no interior da área e, no momento certo, fez um passe de calcanhar para entrada (atrás de si) de Gonçalo Guedes. O avançado do Valência recebeu em corrida, fez um cruzamento curto para o interior da área e encontrou Ronaldo em zona de penálti. O melhor marcador da história da Seleção Nacional tentou desviar para a baliza, mas o defesa Nikola Maksimovic colocou-se entre o craque da Juventus e as redes e serviu de barreira.

Fora um outro remate de Gonçalo Guedes, que encontrou uma bola perdida à entrada da área após livre indireto e tentou fuzilar de pé esquerdo (saiu pouco ao lado), a equipa portuguesa ia trocando bem a bola, sobretudo entre os elementos do ataque Ronaldo, Guedes e Bernardo Silva, a que se juntavam Nélson Semedo (vindo de trás) e mais ocasionalmente Bruno Fernandes e William Carvalho. Perigo é que se via pouco. Montada em 4x3x3, com Guedes maioritariamente sobre a esquerda e Ronaldo com ponta-de-lança — mas com os dois a trocarem de posição regularmente — e com Bernardo Silva do lado direito, a Seleção não desmontava o duplo pivot defensivo que, colocado à frente da defesa da Sérvia, tapava os espaços à criatividade portuguesa.

A Seleção Sérvia, pelo contrário, ia criando algum perigo, embora não muito. Primeiro logo aos 3 minutos, no primeiro remate enquadrado do jogo, feito por um Dušan Tadić que é nitidamente o jogador com mais “nota artística”, como lhe chamava Jorge Jesus, do futebol ofensivo sérvio — pese embora os esforços e bom desempenho do médio-ofensivo Filip Kostic. Depois de um contra-ataque, Tadić acabou a receber uma bola no interior da área, dominou de peito e rematou para Rui Patrício agarrar. Foi o primeiro sinal de perigo: seguir-se-iam contra-ataques venenosos, com um cruzamento-remate do lateral Kolarov aos 27’ que não passou longe da baliza portuguesa e um remate perigosíssimo de Kostic aos 37’ no interior da área, após uma grande jogada pela direita em que Darko Lazovic desmarcou-se em velocidade e cruzou com conta, peso e medida.

Com esta vitória, a Seleção portuguesa ficou mais perto do apuramento para o Europeu 2020 (@ Pedja Milosavljevic/AFP/Getty Images)

Uma segunda parte frenética, à antiga

Ao intervalo, Fernando Santos não estava satisfeito. Como relatou na flash interview após o final do jogo, o selecionador português via a sua equipa a travar muito o jogo: talvez pelas características de jogadores como William Carvalho, Bruno Fernandes e Bernardo Silva, a equipa não aproveitara os espaços abertos na defesa da Sérvia depois de contra-ataques adversários, para acelerar direito à baliza. Em vez disso, os portugueses pausavam o jogo, faziam passes curtos e punham “a bola a correr” com calma, sem grandes pressas. Deixavam o adversário reorganizar-se e só depois, calmamente e sem sucesso, tentavam encontrar brechas.

Era preciso acelerar e quem regressou dos balneários com vontade de mexer com o jogo foi Cristiano Ronaldo. Primeiro, aos 47 minutos, num dos seus movimentos típicos, recebeu a bola no lado esquerdo, encarou o adversário nos olhos, fletiu para zonas mais centrais e, puxando o pé esquerdo atrás, enquadrado com a baliza, disparou a rasar o poste. Três minutos depois, aos 50’, assumiu um livre frontal e marcou-o direto, rematando para bem perto do poste esquerdo do guarda-redes Marko Dmitrovic.

William Carvalho, marcador do primeiro golo da Seleção em Belgrado, numa disputa de bola com Matic (@ Anadolu Agency via Getty Images)

O golo de Portugal parecia mais próximo e chegou mesmo antes da hora de jogo, aos 58 minutos. Depois de mais uma jogada em que os elementos do ataque de Portugal revelaram a sua habilidade técnica e capacidade de receber e devolver rapidamente ao primeiro toque, Gonçalo Guedes viu a bola chegar-lhe à entrada da área, livrou-se de um adversário com uma finta (fugindo-lhe pela esquerda) e rematou, qual canhoto, para o fundo da baliza. Foi uma boa resposta a quem questionou a sua titularidade antes do jogo, um lance individual e um remate que serviram de festejo estilo “eu estou aqui” para mostrar que não cederá sem luta o seu lugar no onze inicial a João Félix.

O 0-2 poderia tornar a última meia hora de jogo desinteressante, mas aos 68’ um golo sérvio veio mudar tudo. Já com João Cancelo no lugar de Nélson Semedo (que saiu lesionado), Portugal defendeu deficientemente um canto e Milenkovic reduziu para 1-2, sem que a Sérvia tivesse ainda sufocado Portugal à procura da golo. Daí em diante, foi um festival para quem aprecia mais o virtuosismo e sucesso dos ataques do que o rigor das defesas: o suplente utilizado Ljajic quase fez o 2-2 aos 69’ com um remate de fora da área (Patrício defendeu com uma sapatada) e Ronaldo respondendo fazendo o 1-3 após assistência de Bernardo Silva, que correu vários metros em contra-ataque, viu no momento certo o avançado a preparar-se para se desmarcar para as costas dos defesas sérvios, colocou-lhe a bola e viu Ronaldo, isolado, picá-la com classe sobre o guarda-redes.

Ronaldo fez o 1-3 com uma finalização de classe após assistência de Bernardo Silva (@ AFP/Getty Images)

A dez minutos do fim, estava feito o 1-3. Agora isso, o resultado estava fechado? Nada disso: cinco minutos depois, Mitrovic reduziu novamente para 2-3, mas desta vez a Seleção Portuguesa precisou apenas de um minuto para voltar a ampliar a vantagem e firmar em definitivo o marcador em 2-4. O último golo veio de mais um dos elementos do trio ofensivo B-R-G (Bernardo-Guedes-Ronaldo), que esteve endiabrado na segunda parte (e Félix também entrou bem para o lugar de Guedes, segurando bem a bola e entregando-a bem): o “baixinho” do Manchester City recebeu a bola no interior da área, depois de cruzamento curto e rasteiro de Raphael Guerreiro no lado contrário, e rematou também rasteiro, junto ao poste esquerdo do guarda-redes sérvio. Mais colocado não podia ser.

A Seleção orientada por Fernando Santos saiu assim de Belgrado com uma vitória por 2-4 que a coloca no bom caminho do apuramento para o Europeu de futebol de 2020. Uma vitória no próximo jogo de terça-feira contra a Lituânia deixaria mesmo Portugal à beira do apuramento.

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