O PCP diz que não há festa como esta. Trata-se, claro, de um slogan que fica no ouvido e que ajuda a vender bilhetes, mesmo que seja difícil de provar. Mais fácil, para quem acompanha com frequência a atividade política nacional, é garantir que não há comício como este. É o único, entre os dos vários partidos portugueses, em que o maior número de pessoas sabe trautear a mesma música e consegue coordenar-se e dançar do início ao fim, aparentando não ter falhas: a carvalhesa.

É uma imagem de marca da festa do Avante!, que termina sempre como abriu: com um discurso do secretário-geral do PCP. Se no discurso de abertura da festa, Jerónimo de Sousa foi claro ao dizer que a CDU era uma hipótese “mais que viável para impedir a maioria absoluta do PS”, voltou a repeti-lo e não se inibiu de criticar as vezes em que, ao longo da legislatura, os socialistas “deram aos mãos” à direita. O PCP tenta conquistar votos ao Bloco de Esquerda, parceiro da “geringonça”, que desde agosto tem usado o argumento de ser o único partido que pode impedir a maioria absoluta de Costa. Desde sexta-feira, Jerónimo afirma que a CDU também é capaz de o fazer e que isso é muito necessário já que “o PS não mudou de natureza, nem abandonou as suas opções de fundo, inscritas nos PEC de má memória”.

Quem ficou de fora do discurso de 45 minutos de Jerónimo de Sousa foram os professores. Apesar de a recuperação do tempo integral na carreira ser considerada uma das “medidas urgentes” apresentadas pela CDU, ao contrário do que aconteceu no discurso da última edição do Avante!, quando Jerónimo insistiu nesta batalha, este ano nem uma palavra sobre o assunto. No que diz respeito à educação, o secretário-geral falou apenas na necessidade de “reforçar a ação social escolar pondo fim às propinas no ensino superior”.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O que não faltou, como também é habitual, são as críticas a PSD e CDS, com um ataque aos partidos de direita que o PCP diz que “não desistiram da política de desastre, extorsão e retrocesso” que caracterizou os governos que formaram. Jerónimo de Sousa deixou um desafio aos que o escutavam na plateia: “É ver os programas de uns e outros e a profissão de fé e devoção que fazem às regras e imposições da União Europeia e do Euro”.

Sobre as conquistas da legislatura, se o BE diz que foram por mérito próprio, o PCP puxa-as para si: Jerónimo diz que, entre outras, conseguiram “um aumento extraordinário das reformas e pensões em três anos consecutivos”, reduzir “as taxas moderadoras e os custos dos medicamentos”, avanços como a “importante medida dos passes escolares gratuitos”, o “alargamento do passe social intermodal”, a “redução do preço dos transportes”, a “eliminação do pagamento especial por conta” para os pequenos e médios empresários e a “redução dos custos dos combustíveis para os agricultores e pescadores”.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Conquistar espaço onde o partido não tem deputados

Jerónimo de Sousa não se ficou apenas pelo balanço da legislatura porque o que importa agora é aquilo que o partido propõe no programa eleitoral para os próximos quatro anos. E aí cabe o aumento do salário mínimo nacional para os 850 euros, lançando Jerónimo a questão: “Quem consegue viver com 600 euros?”, uma das frases do secretário-geral que mais aplausos recebeu ao longo do discurso.

O combate à precariedade, o “aumento do valor real das pensões”, o “direito à reforma por inteiro e sem penalizações dos trabalhadores com 40 anos de desconto” e a reposição da reforma aos 65 anos também são propostas da CDU e Jerónimo enunciou-as. Foram quase 10 minutos do discurso que ficaram reservados à apresentação das propostas, afinal é o próprio secretário-geral quem diz que “o tempo até às eleições é curto e o trabalho muito”.

E algum do tempo vai ser dedicado a explicar às pessoas que as eleições são “uma batalha para eleição de deputados e não para a eleição de primeiros-ministros”, ainda que Jerónimo considere que exemplo da “geringonça” veio derrotar a ideia que as eleições legislativas são “decisivas para saber qual é o partido mais votado para governar”, que, diz, serviu para “alimentar anos e anos de política de direita”. Jerónimo de Sousa apelou aos comunistas na festa para que avancem com “a ativa presença, com a palavra em cada empresa, em cada local de trabalho, em cada concelho ou círculo eleitoral” desafiando-os a “dar corpo a uma campanha capaz de assegurar o êxito da CDU”.

Da plateia, bem composta e muito reativa às críticas do secretário-geral aos grandes grupos económicos que “querem tirar força à CDU e a maioria absoluta do PS”, agitavam-se bandeiras coloridas, enquanto as crianças aos ombros dos mais velhos iam acenando e imitando as palmas.

Se estes ainda não votam, Jerónimo fez questão de apelar ainda aos que “um dia já votaram” no partido, recordando que o voto na CDU “nunca foi traído, sempre respeitado, sempre honrado”. E assume que parte para a maratona de pré-campanha e campanha eleitoral tendo como “palavra de ordem a confiança“.

Para quê? Para entrar onde nos últimos anos a CDU não tem entrado. É por isso que a aposta agora passa por apresentar nomes fortes em círculos onde a coligação PCP-Verdes tem apresentado resultados fracos. Miguel Tiago, que abandonou o Parlamento na última legislatura, regressa agora na lista por Viseu, onde há quatro anos a CDU não conseguiu eleger nenhum deputado.

Já a deputada e dirigente de “Os Verdes”, Heloísa Apolónia, vai concorrer às eleições legislativas de outubro como cabeça de lista por Leiria, onde a CDU não elegeu ninguém em 2015, em vez do seu habitual circulo eleitoral de Setúbal

“Partimos para este novo combate determinados a confirmar e alargar a nossa influência nos círculos onde elegemos e temos deputados, e não deixaremos de travar com determinação a batalha pela eleição de deputados da CDU naqueles onde não os temos”, explicou Jerónimo no palco do Avante!, este domingo.

Um discurso sem grandes surpresas, mas com o reforço da mensagem habitual. É a receita de sempre do PCP, que acredita que não é necessariamente com novidades que se atingem os objetivos eleitorais. E por falar em tradição, no final do discurso lá veio a carvalhesa, de muito pó no ar e alguns olhos vidrados de lágrimas ao som da música.