A segunda sessão do julgamento de Ana Julia Quezada, que matou Gabriel, o filho de oito anos do namorado, ficou marcada por uma nova confissão e pela revelação de novos pormenores sobre o crime que no ano passado chocou Espanha. A acusação também colocou em cima da mesa novos dados, onde a mulher é acusada de tentar envenenar a criança com plantas.

De acordo com o El Español, o advogado de acusação revelou esta terça-feira que Ana Julia tentou envenenar duas vezes Gabriel. Antes do crime, a criança e a avó tiveram vários episódios de mal-estar. Este mal-estar, diz a acusação, pode ter estado relacionado com o uso de plantas venenosas: em tribunal foi mostrada uma pesquisa que Ana Julia fez no seu computador onde procurou “as 10 plantas venenosas mais mortais do mundo”. A dominicana defendeu que a sua família utilizava plantas deste género para produzir cremes e loções. Segundo o jornal espanhol, a sua filha não confirmou tal afirmação.

Ana Julia revelou ainda que no dia em que foi detida ia suicidar-se. A mulher explicou que ia deixar o corpo da criança numa garagem e depois escrever duas cartas: uma a Ángel, o pai de Gabriel, e outra para a sua filha, onde explicaria o que se passou e pediria perdão.

A mulher já tinha confessado o crime em 2018. Na altura, explicou que asfixiou Gabriel depois de uma discussão, quando o rapaz brincava com um machado. Contudo, esta terça-feira, partilhou novos detalhes sobre aquele dia: relatou que a criança lhe chamou “negra” e que disse para voltar para o país de origem.

Vi o Gabriel com um machado. Disse-lhe: ‘Larga isso, que ainda te magoas’. Começou a gritar: ‘Não mandas em mim, não és a minha mãe. És negra, feia e tens um nariz feio, não te quero com o meu pai. Quero que o meu pai se case com a minha mãe. Quero que voltes para o teu país’. Eu simplesmente tapei-lhe a boca, não o queria magoar. Só queria que se calasse. Não queria matar o rapaz”, declarou a mulher no tribunal de Almería, citada pelo El País.

Ana Julia explica ainda que não se lembra de certos pormenores e que tudo aconteceu muito rápido. “Só sei que pus uma mão na boca e no nariz (de Gabriel) para que parasse de dizer essas coisas. Não sei onde pus a outra, na nuca, na frente, na cara… Foram momentos muito rápidos, estava muito nervosa”, relatou.

E o testemunho continuou. A dominicana de 45 anos disse que ficou bastante nervosa quando viu que o rapaz de oito anos não respirava: “Quando o soltei, pus-lhe a mão no peito e vi que não respirava. E fiquei de pé, bloqueada”. Seguiram-se vários cigarros. Depois, Ana Julia cavou um buraco no jardim, onde escondeu o corpo. 

A acusação pede a pena máxima que é permitida pela lei espanhola: prisão perpétua com revisão pelo crime de homicídio. O Ministério Público reclama mais dez anos de pena acessória devido aos danos psicológicos provocados aos pais da criança. Já a defesa da dominicana fala em homicídio involuntário. Na sessão desta terça-feira, a segunda de um total de nove, vão ainda prestar declarações mais dez pessoas, incluindo familiares diretos de Gabriel.

Ana Julia está a ser julgada por um tribunal de júri composto por nove pessoas retiradas a partir de um grupo de 30. O julgamento vai decorrer até 18 de setembro.

O que se passou no dia 27 de fevereiro de 2018

Ana Julia Quezada era a companheira de Ángel Cruz, o pai de Gabriel. A criança desapareceu a 27 de fevereiro de 2018, pouco depois de ter saído da casa da sua avó paterna, Carmen, em Las Hortichuelas, uma localidade no município de Níjar, no sul de Espanha. O corpo do rapaz foi encontrado cerca de duas semanas depois no porta-bagagens do carro de Ana Julia. Estava coberto de lama, despido e enrolado num cobertor.

A mulher confessou o crime pouco depois e explicou que, naquele dia, Gabriel entrou no seu carro de forma voluntária. Depois, e noutro local, Ana Julia reparou que Gabriel estava a brincar com um machado. A versão que relatou na altura não continha os pormenores que referiu esta terça-feira em tribunal. Segundo as suas declarações, quando foi detida, tentou tirar-lhe o objeto, mas o menino disse: “Não és a minha mãe, não mandas em mim e não te quero voltar a ver nunca mais”. “Então, lutámos com o machado, tirei-o e, no final, com a raiva, acabei por asfixiá-lo, tapando-lhe o nariz e a boca”, explicou Ana Julia. Contudo, nesta versão, não há referência ao facto de o rapaz ter chamado “negra” a Ana Julia e ter dito à madrasta para voltar para o seu país.

A dominicana disse também que transportava o cadáver no carro com medo que alguém o encontrasse no poço onde primeiro o teria escondido. Ou no sítio onde o enterrou, segundo a confissão desta terça-feira.

A autópsia permitiu concluir que a pessoa que assassinou Gabriel lhe tapou o nariz e a boca e que, antes de morrer, o menino foi atingido na cabeça o que lhe provocou um traumatismo cranioencefálico.

Ainda em 2018, e devido ao mediatismo do caso, as autoridades descobriram que Ana Julia Quezadas estava ligada à morte de uma outra criança. Em 1994, uma criança de quem cuidava morreu depois de cair de uma varanda. Foi depois revelado que a criança em causa era filha de Ana Julia. Na altura, o caso foi tratado como morte acidental, mas a queda voltou a ser investigada de forma a encontrar pistas que possam esclarecer ou estabelecer uma relação com o homicídio de Gabriel.

Ama Julia tem uma outra filha com cerca de 20 anos que diz agora que nunca viu em Ana Julia uma figura maternal.

Artigo atualizado às 16h02 desta terça-feira com os novos pormenores do caso revelados na segunda sessão do julgamento