A publicação na China do livro “O despertar da Eurásia”, do antigo secretário de Estado dos Assuntos Europeus português Bruno Maçães, foi adiada devido à “censura” do regime chinês, revelou esta segunda-feira o autor. Em declarações à Rádio Observador, Bruno Maçães confessa que está “perplexo” e adianta que vai tentar perceber a razão que levou à censura da obra, apesar de admitir que “não será fácil”. “Talvez tenha sido o conteúdo (do livro), ou o meu perfil, ou a minha filiação com um “think thank” americano. Ou talvez tenha sido uma espécie de congelamento geral de novas publicações. Enfim, não sei”, admite o antigo secretário de Estado.

O anúncio da censura foi feito através do Twitter, rede social na qual Bruno Maçães reproduziu a mensagem que recebeu do editor chinês, que tinha previsto publicar a obra na semana passada. “Senhor Maçães, peço desculpa, mas a publicação teve de ser adiada devido à censura”, lê-se na mensagem. “Espero que compreenda”, acrescenta.

O Despertar da Eurásia — Em busca da Nova Ordem Mundial foi publicado em Portugal, em 2018, pelo Círculo de Leitores. Na obra, Maçães recorre a relatos de uma viagem de seis meses, sempre por terra, de Bacu a Samarcanda, e de Pequim a Vladivostoque, e defende que a mais significativa tendência geopolítica da atualidade é a crescente integração da Europa e da Ásia — uma realidade para a qual China e Rússia já despertaram, salienta. “É um livro em que apenas talvez 10% do conteúdo é sobre a China. É um livro muito filosófico e histórico. Tradicionalmente, nos últimos 20 anos, este tipo de livro sempre foi publicado sem qualquer problema na China”, explica o autor ao Observador.

Bruno Maçães diz que o livro já tinha sido traduzido e impresso e que deveria ter começado a ser distribuído na primeira semana de setembro. “Terá havido uma intervenção política de última hora. Certamente não é na véspera, um dia antes, que se pára a distribuição”, critica. E, para o autor, a censura de livros é um problema que pode levar a uma crise política.

São más notícias. É um círculo vicioso: o fechamento político leva a um fechamento intelectual, e o fechamento intelectual leva a mais fechamento político no futuro, e assim por diante. Tenho a certeza que há muitos autores que estão na mesma situação que eu”, refere.

Na China, os académicos e intelectuais são pressionados a aderir às interpretações oficiais do regime, enquanto a imprensa ou publicações são controladas pela censura do Partido Comunista Chinês. Neste sentido, Bruno Maçães aponta a falta de escolha nas prateleiras das livrarias naquele país: “As livrarias chinesas estão cada vez mais cheias de livros propagandísticos ou de manuais… Cada vez se pode falar menos de livrarias que tenham verdadeiramente livros”.

A materializar a nova visão do livro está o gigantesco projeto de infraestruturas lançado pela China ‘Uma Faixa, Uma Rota’. Bancos e outras instituições da China estão a conceder enormes empréstimos para projetos lançados no âmbito daquele gigantesco plano de infraestruturas, que inclui a construção de portos, aeroportos, autoestradas e linhas ferroviárias ao longo do sudeste asiático, Ásia Central, África e Europa.

Maçães considera o projeto chinês um desafio à ordem mundial definida pelo Ocidente, visando “redesenhar o mapa da economia mundial” de forma a “colocar a China no centro”.

O ex-secretário de Estado é atualmente consultor na Flint Global, em Londres, e pesquisador na Universidade Renmin, em Pequim, e no Hudson Institute, uma unidade de investigação conservadora com sede em Washington.

Artigo atualizado às 11h50 com as declarações de Bruno Maçães