Vivia na Colômbia desde 2018, mas em Portugal já tinha um longo cadastro por crimes contra o património, tráfico de droga e extorsão sexual. O português que foi detido pela PJ é suspeito de ser um perito a lidar com computadores e era através da América Latina que liderava uma rede internacional de contrafação de moeda. Esta segunda-feira a PJ anunciou o seu desmantelamento, desde a raiz, com a detenção do seu líder já em território português e de quatro outros suspeitos que fabricariam as notas. O dinheiro era vendido numa espécie de submundo da internet, a darknet,  uma rede online fora dos habituais motores de busca e apenas acessível para certos grupos de pessoas — cada vez mais utilizada por criminosos para tráfico humano, de droga ou venda de armas.

O comunicado da Polícia Judiciária (PJ) refere que esta é mesmo uma das maiores redes de contrafação de moeda da Europa. Na operação, que ganhou o nome de “Deep Money”, foram realizadas oito buscas na zona norte e centro do País, onde a PJ deteve os quatro suspeitos e apreendeu 1833 notas falsas, num total de quase 70 mil euros. O presumível líder da rede foi detido mal regressou a Portugal, depois de ter sido expulso pelas autoridades, que também colaboraram com a PJ. Esta operação contou com a participação da Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime e à Criminalidade Tecnológica e do Laboratório de Policia Cientifica da PJ.

Uma fonte policial que participou na operação explicou ao Observador que “os criminosos que atuam na darknet não precisam de estar no local onde os crimes são praticados”. Ou seja, normalmente “contratam os serviços de outros criminosos, muitas das vezes sem sequer se conhecerem, e estabelecem impérios criminais sem fronteiras, vendendo drogas, armas e contrafações pela internet que são entregues por via postal e recebem via cripto moedas”. Os líderes destas redes normalmente “dominam as tecnologias da darknet para aceder aos potenciais clientes e publicitar os seus produtos” e “preferem viver fora da União Europeia, em países sem acordos de extradição e com pouca vigilância policial”, acrescenta.

Já o Diretor Nacional Adjunto da PJ, Carlos Farinha, explicou ao Observador que a primeira nota falsificada foi identificada em 2017 por uma entidade bancária, como aliás costuma acontecer com outras notas falsas que dão origem a investigações semelhantes. As características deste dinheiro, que podem passar por um número, por um erro ortográfico ou mesmo pela cor, foram divulgadas a nível internacional. E começaram depois a ser encontradas notas semelhantes noutros países das Europa, como França.

A investigação, que contou também com a Europol que se tem dedicado à investigação destes crimes transnacionais, levou a PJ à darknet, onde foram encontradas estas notas à venda. “Durante a operação encontrámos encomendas prontas a partir para o seu destino. As pessoas compravam por exemplo um maço de 100 mil euros em notas de 50 por 3 mil”, explicou a mesma fonte. Os clientes eram maioritariamente criminosos e o dinheiro pode ser usado em crimes de tráfico de droga ou mesmo de armas. “Este é um mundo que tem despertado a atenção das autoridades”, declarou.

“A elevada qualidade das notas produzidas por esta rede criminosa era reconhecida por todos os compradores, assente na utilização de papel de segurança com incorporação de filamento de segurança, hologramas e bandas holográficas autoadesivas, tintas ultravioleta, marca de água e talhe doce”, lê-se no comunicado.

No comunicado enviado às redações a PJ explica que este dinheiro contrafeito estava a ser produzido em Portugal. E nos locais onde a PJ fez buscas foram também encontrados computadores, impressoras, papel, hologramas, tintas e tinteiros. No entanto, alertou a PJ, estão a circular várias centenas de notas falsas, mesmo após o desmantelamento da rede. Em conferência de imprensa, que decorreu nas instalações da PJ em Lisboa, o coordenador Luís Ribeiro, da Unidade Nacional de Combate, disse que “apesar da apreensão de milhares de notas contrafeitas, é muito comum que nos próximos meses ainda haja a circular algumas notas que vão sendo apreendidas”.

A elevada qualidade do dinheiro produzido por esta rede criminosa “era reconhecida por todos os compradores”, destacou Luís Ribeiro, e em toda a Europa as autoridades apreenderam notas cujo valor ultrapassava os 1,3 milhões de euros.

Os cinco arguidos —  três homens e duas mulheres, franceses e portugueses e com idades compreendidas entre os 26 e os 63 anos — foram detidos “pelos crimes de contrafação de moeda e associação criminosa”.  Os arguidos já foram ouvidos em tribunal e “ficaram sujeitos em prisão preventiva”, revela o comunicado.

Artigo atualizado às 23h45.