Chama-se hipotensão pós-exercício e é amplamente reconhecida como uma das vantagens do esforço físico, podendo manter-se durante minutos ou até horas: depois de uma corrida, de uma aula de zumba ou de uma sessão de lunges, squats e planks, o corpo não queima apenas calorias extra, também fica com a pressão arterial mais baixa.

Foi na tentativa de perceber por que motivos isso acontece que uma equipa de investigadores da Universidade de Plymouth, no Reino Unido, em colaboração com o Centro de Regulação Genómica de Barcelona, descobriu que basta bochechar com elixir bucal a seguir ao exercício para esta vantagem ir diretamente pelo ralo.

Tudo por causa da influência que as bactérias presentes na boca têm no complexo mecanismo molecular que possibilita essa baixa tensão arterial. Confuso? Os responsáveis pelo estudo, publicado na edição de novembro do jornal Free Radical Biology and Medicine, explicam.

“Os cientistas já sabiam que os vasos sanguíneos dilatam durante o exercício, à medida que a produção de óxido nítrico aumenta o diâmetro dos vasos (a que chamamos vasodilatação), aumentando o fluxo de sangue em circulação para ativar os músculos. O que permanecia um mistério era o motivo por que a circulação de sangue se mantinha elevada após o exercício, dando origem a um processo de baixa de pressão conhecido como hipotensão pós-exercício”, contextualizou Raúl Bescós, especialista em fisiologia e dietética e o principal autor do estudo, no comunicado enviado à imprensa.

“Está tudo relacionado com o processo de degradação do óxido nítrico num composto chamado nitrato, que durante anos se acreditou que não exercia qualquer tipo de função no corpo. A investigação desenvolvida durante a última década demonstrou contudo que o nitrato pode ser absorvido pelas glândulas salivares e excretado juntamente com a saliva através da boca. Algumas espécies de bactérias orais conseguem converter o nitrato em nitrito — uma molécula muito importante capaz de aumentar a produção de óxido nítrico no corpo.

Quando o nitrito existente na saliva é engolido, parte desta molécula é rapidamente reabsorvida pela circulação e transformada novamente em óxido nítrico. Isto ajuda a manter o alargamento dos vasos sanguíneos o que, por sua vez, mantém a pressão sanguínea baixa após o exercício”, continuou a explicar o investigador.

“Queríamos perceber se o bloqueio da capacidade do nitrato se converter em nitrito através da inibição das bactérias orais teria algum efeito sobre a hipotensão pós-exercício”, nota.

E é aqui que entra o elixir bucal: para testar a teoria, os investigadores pediram a 23 adultos saudáveis que corressem durante meia hora na passadeira, depois, dividiram o grupo em dois e distribuíram copos — uns com líquido colutório (o elixil bucal), outros com um placebo de sabor a mentol. Os participantes bochecharam com os líquidos um minuto depois de acabarem de correr e repetiram 30, 60 e 90 minutos mais tarde.

A medição das respetivas tensões arteriais, aliada à análise das amostras de sangue e de saliva recolhidas, revelou entre o grupo que bochechou com o líquido anti-bacteriano uma perda de 60% das vantagens da hipotensão pós-exercício logo na primeira hora — e de 100% ao fim de duas horas. O que levou a equipa a concluir que exercício e elixir bucal não devem, de todo, combinar. “De facto, é como se as bactérias orais fossem a «chave» para abrir os vasos sanguíneos. Se forem removidos, o nitrito não poderá ser produzido e os vasos permanecerão no seu estado atual”, simplificou Craig Cutler, outro dos investigadores, no texto enviado às redações.