Era um almoço-debate da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa, em Lisboa, mas de debate teve pouco. Ao contrário do que tinha acontecido com o primeiro-ministro, António Costa, na semana passada, os empresários presentes na rua das Portas de Santo Antão poucas perguntas quiseram fazer ao líder do PSD, que tinha arrumado o assunto com uma intervenção inicial em jeito de resumo rápido (20 minutos) do programa eleitoral com que se apresenta a eleições.

Com Miguel Horta e Costa, vice-presidente da Câmara de Comércio, a moderar o suposto debate pré-almoço, coube-lhe a ele fazer as três primeiras perguntas ao líder do PSD, tendo depois aberto o debate à plateia (distribuída por cinco mesas redondas de almoço). Da plateia, contudo, só houve uma questão, sobre o facto de o PSD propor um aumento da despesa corrente quando, no entender do seu interlocutor, o problema é haver despesa a mais e despesa desnecessária.

Rui Rio explicou que o que o PSD propõe, ao abrigo do quadro macroeconómico que traçou, é que haja um crescimento da despesa corrente de 2% porque “ainda não foram feitas as reformas que entendemos que deviam estar a ser feitas” e, nesse sentido, não se pode querer tudo de uma vez. Ou seja, “seria imprudente apresentarmos agora para os próximos quatro anos o que queremos para os quatro anos a seguir a estes”, disse, defendendo o princípio da “prudência com ambição”.

Antes, Miguel Horta e Costa tinha questionado Rui Rio sobre se, caso seja eleito, estava disposto a fazer uma “geringonça” à direita. E Rui Rio foi perentório: “Não”. Mas não porquê? É simples, porque pressupõe-se que uma “geringonça” seja algo “mal amanhado”, que não foi pensado com “sentido estratégico”, mas apenas com o intuito de chegar ao poder. Por isso, Rui Rio afirma que uma maioria de direita não se pode resumir a “somar 116 deputados de qualquer maneira”. Tem de ter “sentido estratégico”. Se assim for, então sim, pode-se contar com Rui Rio para isso.

O líder do PSD foi mais crítico, contudo, quando o anfitrião da Câmara de Comércio, que estava sentado ao lado do convidado, de frente para a plateia que esperava pelo almoço, o questionou sobre a atuação do Banco de Portugal nos últimos anos e sobre se achava que o sistema financeiro estava, finalmente, estabilizado. Admitindo dar uma resposta à “La Palice”, que resume aquilo que “99% dos portugueses pensa”, Rui Rio afirmou que “nenhum de nós pode ver a atuação do Banco de Portugal com bons olhos” depois do que aconteceu aos bancos que, como o BES, colapsaram.

Foi aí que Rio pôs uma boa dose de culpa nas mãos do regulador dos bancos, devido às “afirmações” que o governador do Banco de Portugal fez na altura sobre o GES, que estava “mal”, contrapondo com o BES, que estava “bem”. E depois foi o que foi. Essas afirmações, de resto, levaram inclusive “o Presidente da República a dizer o mesmo”, lembrou Rio. Por isso, se o Banco de Portugal “tivesse estado atento” ou se “tivesse sido mais independente do sistema”, então “não tínhamos chegado onde chegamos” no que à banca diz respeito. O único “desconto” que Rui Rio dá ao Banco de Portugal é a “conjuntura internacional”, que ajudou a agravar a crise financeira.

Antes, Rui Rio tinha apresentado uma versão resumida do programa eleitoral do PSD, defendendo um modelo de crescimento económico assente nas exportações e na produção de bens transacionáveis. Falando na importância das cinco reformas inadiáveis (da Saúde à Segurança Social, passando pelo Sistema Político e a Descentralização), Rio deu especial destaque à Saúde, que foi degradada nos últimos quatro anos de governação à esquerda.

Para Rio, “gerir um hospital é como gerir uma empresa”, onde é preciso produzir em quantidade e qualidade, e onde, para isso, é preciso que a administração tenha autonomia na gestão e não esteja dependente de autorizações do Ministério da Saúde, que, por sua vez, está dependente de autorizações das Finanças. “As PPP não podem ser rejeitadas apenas porque sim ou porque não, porque isto não tem nada a ver com ideologia. Quando estou doente, quero ser bem tratado, e ao menos custo”, resumiu Rui Rio.

Para fazer as tais reformas inadiáveis, contudo, é preciso consensos. Porque nenhum partido, “nem que tenha maioria absoluta”, o consegue fazer sozinho. É esta a mensagem de Rui Rio, independentemente do público que o ouve. Assim sendo, é hora de almoço.

A sopa já começou a ser servida. E Paulo Portas, um dos empresários presentes na sala, na qualidade de vice-presidente da Câmara de Comércio, tinha à sua espera uma vichyssoise, a sopa que ficou célebre na política portuguesa devido a Portas, ainda jovem jornalista, e a Marcelo Rebelo de Sousa, um já experiente político que terá “inventado” uma história.