O balde utilizado para transportar água do helicóptero que se despenhou durante o combate a um incêndio na localidade do Sobrado, concelho de Valongo, no dia 5 de setembro, causando a morte ao piloto, colidiu com linhas elétricas, concluiu a investigação. O facto consta de uma nota informativa do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF).

O relatório preliminar da investigação detalha que o balde suspenso transpôs uma primeira linha, “devidamente sinalizada”. Contudo, o balde chocou depois com uma segunda linha, que não estava sinalizada.

Após transpor uma primeira linha de muito alta tensão (400 kV), devidamente sinalizada e composta por 14 condutores, o balde suspenso da aeronave colidiu nos cabos da segunda linha (tensão de 220 kV), esta posicionada a uma cota inferior e a cerca de 45 metros de distância horizontal da primeira, motivo pelo qual dispensa sinalização”, lê-se no relatório.

Esta segunda linha era “constituída por seis condutores (duas linhas de três fases) de alumínio/aço e dois cabos de guarda superiores em alumínio com dois tubos internos para serviço de fibra ótica”. Os cabos de aço e o sling de suporte do balde à aeronave fundiram pela descarga elétrica. O rotor de cauda também tocou no cabo de guarda, o que produziu “um arco elétrico intenso”.

Morreu o piloto do helicóptero de combate aos incêndios que caiu em Valongo

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“Já sem rotor de cauda e sem estabilizador vertical, a aeronave inicia uma rotação no sentido anti-horário por efeito do torque do rotor principal. A perda de controlo da aeronave foi inevitável”, conclui-se. A queda “violenta” do aparelho provocou depois um incêndio “intenso”.

Figura que consta do relatório e reconstitui a colisão do balde com os cabos de muita alta tensão

No momento em que o balde suspenso por um sistema de cabos de aço está em contacto com o condutor mais afastado da linha (representado a vermelho na figura), o rotor de cauda atinge o cabo de guarda (a verde na figura) que, por possuir potencial zero, resulta numa descarga elétrica utilizando o helicóptero e seus assessórios como condutor entre os dois cabos”, explica a investigação.

Ilustração que mostra como sucedeu o impacto

O Eurocopter descolou às 15h10 de uma base privada de Valongo com uma equipa de cinco bombeiros e o equipamento de combate a incêndios composto por cesto e balde. Após largar a equipa de intervenção no solo, e de ter sido posicionado o balde, o piloto voou para um ponto de água próximo para o primeiro abastecimento e descarga no incêndio. A nota informativa refere que, “repetido o ciclo, na segunda aproximação ao local do incêndio e em coordenação com um outro meio aéreo” que operava no local, “o piloto, conhecedor da existência e localização das linhas aéreas de transporte de energia existentes no local, define a trajetória para a segunda largada”.

O GPIAAF irá divulgar o relatório final “após conclusão da investigação e do procedimento de audiência prévia às partes relevantes”.

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