Enquanto os outros líderes dos partidos têm tido presenças mais frequentes nas televisões nesta série de debates, esta foi apenas a segunda vez em que Jerónimo de Sousa se sentou à mesa frente a um dos adversários para as legislativas. Depois de ter enfrentado António Costa, esta quinta-feira o encontro foi com Rui Rio e ainda que ambos tenham feito questão de afirmar algumas vezes as “divergências de fundo” entre o Partido Comunista e o Partido Social-democrata, quase só no Serviço Nacional de Saúde é que discordaram em absoluto, tendo o debate sido mais um espaço de perguntas e repostas que propriamente de confronto entre os líderes.

Senão, vejamos: ambos concordam com a necessidade de aumento dos salários. O PCP quer o salário mínimo nacional em 850 euros até ao final da legislatura, o PSD é menos ambicioso e pretende chegar apenas aos 700 euros. O PSD propõe que as empresas com maiores assimetrias salariais sejam alvo de “penalização fiscal” para que “quando a empresa cresce usufruam todos e não apenas aqueles que têm capacidade de decisão”, mas Jerónimo de Sousa diz que se ultrapassa esse fosso salarial quando o salário mínimo for aumentado para os 850 euros. Rui Rio, sorridente, diz que o “objetivo dos dois é o mesmo: pagar mais”, mas que as empresas ainda não estão preparadas para os 850 euros de salário aos trabalhadores, que aumentar para 700 euros já é “forçar um bocadinho” a capacidade das empresas.

Ainda no campo do trabalho, Rui Rio diz que é necessário “lutar para que o crescimento do setor económico permita a redução também no privado”, mas afirmou que “neste momento é impossível”, mantendo-se os trabalhadores do privado com uma carga horária de 40 horas semanais e os do público com as 35. Já Jerónimo de Sousa puxou a fita do tempo atrás para lembrar as lutas dos operários por horários dignos e afirmou que é “necessário dar um passo adiante para a redução para as 35 horas”.

Abono de família e criação de uma rede de creches

O PCP quer que o abono de família seja um direito de todas as crianças, independentemente das condições dos pais, e vai mais longe, um direito universal. O programa da CDU não é explícito relativamente aos aumentos que pretende atingir nas prestações de abono de família e o líder do PCP justificou isso com a necessidade de se alcançar, em primeiro lugar, na Assembleia da República o reconhecimento do princípio universal de acesso ao abono de família. Só depois serão estudados os aumentos em cada caso. Já o PSD defende que o abono de família seja atribuído apenas “a famílias mais carenciadas” e que tenha uma majoração de 50% no segundo e terceiro filhos, mas com um subsídio pré-natal que aumente 50% no segundo filho e 100% no terceiro. Rui Rio disse ainda que as empresas teriam de se habituar a ouvir dos funcionários que a mulher estava grávida e que isso significava que também “ia passar algumas semanas em casa”, já que os sociais-democratas propõem a partilha de licença parental entre os pais.

Na questão da criação de uma rede de creches, proposta por ambos os partidos, foi o próprio Rui Rio a dizer — novamente— que “a forma de fazer é que é diferente”, já que os fundos comunitários deviam apoiar a construção, caso seja necessário, das infraestruturas e o dinheiro para assegurar o funcionamento das mesmas devia derivar do Orçamento do Estado, com Jerónimo de Sousa a garantir que caso os pais tenham uma “rede de creches totalmente pública” existirá uma maior tranquilidade e esta poderá ser um fator chave para inverter a tendência da baixa natalidade, mas defendendo a gratuitidade na rede de creches para todos dos 0 aos 3 anos.

O Serviço Nacional de Saúde, ainda a Lei de Bases da Saúde e, claro, as PPP

Um dos dossiers que mais agitou o final da legislatura — e que se arrastou durante quase toda a sessão — foi o da redação de uma nova Lei de Bases da Saúde e, em especial, a existência ou não de parcerias-público-privadas no setor. Jerónimo de Sousa continua a debater-se por um Serviço Nacional de Saúde totalmente público, já que “a saúde é um direito que a Constituição consagra” e atacou diretamente o PSD — afinal estavam num “debate” — , a dizer que aquilo que os sociais-democratas propõem “é que a saúde seja um negócio” e que a proposta de criar um “sistema nacional de saúde mereceria um chumbo do Tribunal Constitucional”.

Rui Rio não teve oportunidade de responder diretamente à crítica de Jerónimo, por já ter esgotado o tempo disponível no debate — ou meio debate —, mas tinha esclarecido que a proposta do PSD de um sistema nacional de saúde pretendia fazer convergir os papéis do “privado e social”, mantendo o SNS que existe, podendo ter o “contributo de privados na gestão”. Para o líder do PSD é essencial que as unidades tenham autonomia, mas que o poder fiscalizador do Estado seja reforçado e que o “contrato e a fiscalização” sejam muito bons.

Rio não quer ser deputado e Jerónimo diz que apoios do PCP ao PS “não são repetíveis”

Rui Rio tem repetido a ideia de que ser deputado não o entusiasma e, esta quinta-feira na RTP, acrescentou que o que o entusiasma é “liderar o partido”, mas não de ser deputado: “Não quero ser deputado, quero ser primeiro-ministro”, disse Rio afirmando que caso o PSD não vença as eleições estar no Parlamento irá depender do futuro do partido.

Por sorteio, a última questão calhou a Jerónimo de Sousa e, questionado sobre a hipótese de voltar a viabilizar um governo do PS, o secretário-geral do PCP afirmou que o partido “continua a considerar que há coisas que não são repetíveis” e que deixa para os portugueses a decisão sobre a próxima distribuição de mandatos pelos 230 deputados no hemiciclo.