Carel Pietersz Fabritius, foi um pintor holandês do século XVII, aluno de Rembrandt e sobre o qual os especialistas dizem que poderia ter sido tão brilhante como o seu mestre, se não tivesse morrido aos 32 anos, em 1654, na explosão do paiol da cidade de Delft, que arrasou também o seu estúdio e destruiu a maior parte dos seus quadros. Uma das obras que não foram destruídas é uma pequena pintura, “O Pintassilgo”, que representa uma destas aves, pousada no comedouro a que está presa por uma fina corrente. O quadro faz hoje parte da coleção permanente do Museu Mauritshuis, na Haia.

[Veja um filmezinho sobre o pintor e o quadro:]

Mas para as necessidades de “O Pintassilgo”, o filme de John Crowley (“Brooklyn”), baseado no romance homónimo de Donna Tartt (The Goldfinch, no original), vencedor do Prémio Pulitzer de Ficção, o quadro encontra-se no Met de Nova Iorque, e é fundamental à história, e para a vida da personagem principal, o jovem Theodore Decker ((Oakes Fegley na adolescência, Ansel Elgort quando adulto). Este, quando era criança, estava naquele museu com a mãe, quando se deu um atentado terrorista que a matou. No caos que se seguiu à tragédia, e sem perceber bem porquê,  o atordoado Theodore agarrou no pequeno e valiosíssimo quadro de Fabritius, meteu-o numa mochila e levou-o consigo, passando a ser o seu segredo Após o atentado, e como o seu pai, um ex-ator alcoólico, saiu de casa, o rapaz é acolhido pela família rica de um colega de escola.

[Veja o “trailer” de “O Pintassilgo”:]

A obra, publicada em 2013, tem quase 800 páginas e foi um “best-seller”, recebendo críticas muito boas, ganhando prémios importantes e sendo eleito pelo “The New York Times” como um dos melhores livros do ano. É um romance de grande fôlego narrativo e leitura exigente, complexo na estrutura e na efabulação romanesca, e cerradamente urdido, o que o torna problemático para levar ao cinema. E por isso “O Pintassilgo” é um filme que fica isolado nessa cada vez maior “terra de ninguém” do cinema americano que é o espaço entre as produções elefantinas de super-heróis e as modestas fitas independentes. O território do filme comercial de qualidade e prestígio, a que outrora os estúdios de Hollywood prestavam atenção e hoje quase abandonaram.

[Veja uma entrevista com Oakes Fegley e Ansel Elgort:]

O enredo de “O Pintassilgo” é de tal forma elaborado, e a história de Theodore tão movimentada, atarefada e rica de peripécias, acasos, coincidências e pormenores, e tão variada de personagens (não é por acaso que Donna Tartt é considerada por alguma crítica como a herdeira de Charles Dickens, qualificação que a escritora não desdenha), que tentar descrevê-la minimamente implica fazer “spoilers” e estragar o filme ao possível espectador da fita. Digamos que “O Pintassilgo” é, em traços largos, sobre a forma como Theodore, com as suas qualidades e fraquezas, tenta saber quem é, onde pertence e se encaixa, e sobre a difusa mas profunda importância que o quadro de Fabritius tem para ele e como, mesmo sem o rapaz dar por isso, influencia a sua existência, a sua vida interior e a relação com o passado e com os outros.

[Veja o realizador e o elenco no Festival de Toronto:]

“O Pintassilgo” revela-se assim, coisa cada vez mais rara, um filme “de argumento” (foi escrito por Peter Straughan, autor, entre outros, de “A Toupeira”), cuja poder narrativo, dramático e emocional, e a capacidade de nos envolvermos na saga de Theodore sem nos cansarmos dele e nos desinteressarmos dela, assenta na história, e depois nos actores (e aqui, estão todos à altura do que se lhes pede, incluindo Nicole Kidman na reservada mas bondosa Sra. Barbour). A realização de John Crowley é cuidadosa, muito arrumada, discreta e elegante, sabe para onde está a ir e como e para onde leva Theodore, embora no seu último e fundamental ato, aquele em que tudo se explica e resolve, a fita se precipite e perca a coerência, a consistência e a verosimilhança que apresentava até aí.

[Veja uma entrevista com a autora do livro, Donna Tartt:]

No final de duas horas e meia de filme (o livro, pela sua extensão, complexidade e densidade, estava mesmo a pedir ser transformado numa série de televisão), “O Pintassilgo” deixa a impressão de não ser nem um sucesso total, nem um fracasso chapado. É como um ciclista que foi sempre à frente na corrida e furou nos derradeiros metros do percurso. Ou como um quadro bonito, ambicioso na escala, delicado e trabalhoso, que ficou mal acabado nas últimas pinceladas. Mas que nem por isso deixa de ter o seu fascínio.