Durante oito dias, Nova Iorque deu o pontapé de saída para mais um périplo pelas principais capitais da moda. Em antevisão da próxima estação quente, o calendário dividiu-se entre nomes já consagrados, como é o caso de Tom Ford, Carolina Herrera, Tommy Hilfiger, Anna Sui, Proenza Schouler, Michael Kors e Jeremy Scott, e figuras emergentes, lista onde ressaltam Tomo Koizumi, Chromat, Area. Rihanna pôs em marcha a sua estratégia para transformar o desfile de Savage x Fenty no próximo grande espetáculo a la Victoria’s Secret. Marc Jacobs encerrou mais uma semana da moda assinalando os 18 anos do 11 de setembro.

Foi precisamente no dia em que se assinalou mais um aniversário da tragédia que o criador norte-americano ocupou um dos mais amplos e colossais espaços da cidade, o Wade Thompson Drill Hall. Na noite de 10 de setembro de 2001, o desfile de Marc Jacobs culminaria numa festa para manequins e convidados, nas margens do rio Hudson. A vista sobre Manhattan mudaria em poucas horas. “São 18 anos e um dia que não vamos esquecer”, anunciava a folha de sala do desfile que, na noite da passada quarta-feira, fechou o programa.

Marc Jacobs © Victor VIRGILE/Gamma-Rapho via Getty Images

Contudo, Jacobs encarregou-se de sacudir a aura trágica que paira sobre a data, fazendo do desfile uma “celebração da vida” e apontando referências tão díspares como o génio Lagerfeld  e a socialite Lee Radziwill. Sem contenções, o criador continuou a escrever a sua história com grandes e sólidas manchas de cores eletrizantes, fatos impactantes e, claro, volumetrias exagerados. Botas de plataforma, padrões florais ostensivos e chapéus de aba larga —  o índice temporal percorreu as décadas de 60, 70 e 80 do séculos passado sem que o desfile perdesse o rumo.

Wes Gordon, o homem que assumiu a direção criativa da Carolina Herrera no ano passado, continua a somar pontos. As suas propostas para a próxima estação quente voltaram a primar pela leveza, nas cores e estampas, mas também nos materiais. É como se a marca, fundada pela designer venezuelana, tivesse feito um lifting e dos bons. Entre flores, polka dots, sedas, tules e aplicações, os coordenados flutuantes deixaram bem claro que o designer consegue afirmar o seu próprio estilo sem comprometer a herança de Herrera.

Carolina Herrera © Peter White/WireImage

Tommy Hilfiger deu outro tipo de espetáculo, repleto de brilhos, gargalhadas, celebridades e uma febre disco encomendada à década de 70. O criador de 68 anos só se deixou ofuscar por uma outra estrela, Zendaya. Em pleno Harlem, apresentou a segunda colaboração com a atriz, sendo que o resultado final também teve o dedo de Law Roach, o responsável pela revolução no guarda-roupa de Céline Dion. Também na passerelle, as convidadas foram de luxo, da inconfundível Winnie Harlow a uma Ashley Graham grávida e luminosa. Numa visão geral sobre a coleção, sobressaem as bocas de sino, as blusas e vestidos cheios de movimentos e uma escala de cor que vai do preto ao prateado, sem grandes divagações.

Tom Ford, outro peso pesado, começou por se destacar pelo local escolhido para o desfile: uma estação de metro abandonada. Esta foi a primeira apresentação depois de o designer ter assumido a presidência do Council of Fashion Designers of America, em junho. “Acho que é altura de simplificar e de, assim, regressar ao sportswear luxuoso pelo qual a América é conhecida em todo o mundo”, afirmou o criador num comunicado à imprensa sobre a coleção. Os blazers de cetim e os calções de basquetebolista formaram a silhueta da noite. O print leopardo e a cromoterapia de choque espreitaram em alguns coordenados.

BSavage x Fenty © Ben Gabbe/Getty Images for Savage X Fenty Show Presented by Amazon Prime Video

Para Rihanna, a segunda passagem pelo calendário da Semana da Moda de Nova Iorque foi o consolidar de uma estratégia. Dúvidas houvesse, a cantora e empresária deixou bem claro que quer fazer das apresentações de Savage x Fenty um espetáculo ao estilo Victoria’s Secret. O desfile teve lugar em Brooklyn, na passada terça-feira, e foi gravado do um intuito específico. Chega à Amazon Prime a 20 de setembro, ficando disponível e cerca de 200 países. As imagens são escassas. Rihanna exigiu que todos os convidados deixassem os telemóveis na entrada do recinto, tudo para evitar spoilers. Sabe-se que surgiu logo no início do desfile e que houve atuações de Halsey, de A$AP Ferg e de DJ Khaled. No line-up, contaram-se nomes como Alek Wek, Cara Delevingne, Joan Smalls, Laverne Cox e as irmãs Hadid.

Mas a passerelle nova-iorquina também foi palco de mensagens políticas e manifestos ambientalistas. Prabal Gurung assinalou o 10º aniversário da própria marca com um desfile intitulado “Quem é que chega a ser americano?”. Natural de Singapura, o designer cresceu no Nepal. Agora, apropriou-se do estilo americano — a começar pela escolha das cores da bandeira — tendo ensaiado a apresentação em resposta a uma reunião de negócios. “Como é que podes definir o estilo americano, tu não pareces americano” — terá ouvido o criador. “Sou americano, tornei-me um cidadão americano, vivo aqui há 20 anos, pago os meus impostos. Não todas, mas a maioria das roupas que faço é feita em Nova Iorque e na América. Já abordei questões sociais, tenho contribuído e sido um membro ativo deste país. Quando é que vai ser o suficiente?”, afirmou Gurung à revista Time. No final, as manequins surgiram com faixas, nelas o título do desfile multiplicado por todo o casting.

Prabal Gurung Aurora Rose/Patrick McMullan via Getty Images

Enquanto isso, a uruguaia Gabriela Hearst colocou a tónica na relação entre a moda e a sustentabilidade do planeta. Quem esteve no desfile relata um ambiente de bastidores absolutamente silencioso. A criadora baniu o uso de secadores e de aparelhos que produzem calor, tudo para montar o primeiro desfile neutro em carbono da Semana da Moda de Nova Iorque. A sustentabilidade sempre esteve no centro do trabalho de Hearst, mas desta vez foi dado um passo em frente. A criadora contou com a ajuda do Bureau Betak e da EcoAct para reduzir ao máximo a pegada ambiental do seu desfile. A própria paleta da coleção parece ter sido recolhida na natureza, dos brancos e crus aos laranjas e amarelos tropicais. Do lado dos materiais, uma clara aposta nas texturas mais artesanais, como é o caso do crochet e do macramé.

A Semana da Moda de Nova Iorque terminou na última quarta-feira. Veja as imagens de alguns dos desfiles na fotogaleria. O roteiro mundial segue para Londres, onde os desfiles já arrancaram. Estendem-se até terça-feira.