Os esqueletos enterrados de mãos dadas há 1.600 anos na cidade italiana de Modena são, afinal, de dois homens, descobriu um estudo da Universidade de Bolonha publicado esta quinta-feira na revista científica Science.

Em 2009, quando as ossadas foram encontrados, os cientistas assumiram que estavam perante um casal heterossexual, a que chamaram “amantes de Modena”, por terem encontrado sinais dos rituais praticados no momento da morte para simbolizar o amor eterno entre homens e mulheres. Agora, 10 anos mais tarde e graças aos avanços científicos, sabe-se que, afinal, os “amantes de Modena” são dois homens.

Como as ossadas estavam mal preservados, os cientistas tiveram de usar uma nova técnica, a espectrometria de massas, para saber a composição química dos ossos e identificar moléculas de acordo com a estrutura química delas. Quando os investigadores olharam para os genes que dão origem à amelogenina, uma proteína envolvida no desenvolvimento do esmalte dentário, perceberam que estavam perante um ritual de enterramento nunca antes observado.

É que os genes que dão origem a essa proteína são diferentes para homens e para mulheres. Os dois sexos têm genes chamados “amelogenina-X”, mas apenas os homens têm outro tipo de genes, os “amelogenina-Y”. Acontece que, neste caso, ambos os esqueletos tinham os genes exclusivamente masculinos. Ou seja, os “amantes de Modena”, que durante 10 anos foram identificados como um homem e de uma mulher para a comunidade científica, afinal são um casal de homens.

Já foram identificados muitos esqueletos sepultados juntos, de mãos dadas, abraçados e até a trocar um beijo. No entanto, as análises tinham sempre demonstrado que se tratavam de casais heterossexuais. Os “amantes de Modena” são um caso único que nem sequer está previsto na literatura antiga até agora, explica Frederico Luigi, autor principal do estudo: “Certamente que não era uma prática comum. Acreditamos que essa escolha simboliza um relacionamento particular entre os indivíduos, mas não sabemos de que tipo”.

Para os investigadores, é pouco provável que os dois homens fossem um casal homossexual, pelo menos não assumidamente, já que a sociedade à época não aceitaria estas expressões de afeto entre pessoas do mesmo sexo. No entanto, admitem que o facto dos dois homens estarem de mãos dadas constitui uma “expressão voluntária de compromisso entre dois indivíduos”. Podiam ser primos, irmãos ou companheiros de guerra, aposta Frederico Luigi.