Taarabt e a arte de ser solução para o que não era problema (a crónica do Benfica-Gil Vicente)

Taarabt voltou a ser o melhor em campo e é a solução ideal para um setor do Benfica que não era um problema mas que já é difícil de imaginar sem ele. A crónica da vitória dos encarnados frente ao Gil.

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O médio marroquino voltou a ser titular

AFP/Getty Images

O médio marroquino voltou a ser titular

AFP/Getty Images

O período que o Benfica está a viver no pós-derrota na Luz com o FC Porto poderia perfeitamente ter sido escrito pelo realizador dos sonhos dos adeptos encarnados. Na semana seguinte, a equipa de Bruno Lage visitou o Sp. Braga, naquela que é uma das deslocações mais difíceis da Primeira Liga, e goleou por 4-0; depois disso, seguiu-se uma interrupção para os compromissos internacionais que ajudou a deixar no passado, de vez, o desaire com os dragões; e agora, para regressar ao ritmo antes do início da Liga dos Campeões, jogava na Luz a um sábado à tarde perante um estádio bem composto.

Pelo meio, e porque nem tudo são boas notícias, Florentino foi dispensado da concentração dos Sub-21 devido a uma lesão no joelho e era baixa para a receção ao Gil Vicente. Saltava Fejsa para o onze, naquela que era a única alteração que Bruno Lage fazia face à equipa que goleou o Sp. Braga — com Taarabt a manter então a titularidade. A entrada em campo dos habituais titulares, sem espaço para poupanças dos mais utilizados Pizzi, Rafa ou Rúben Dias, tornava-se particularmente relevante se tivermos em conta que o Benfica volta a jogar já na terça-feira, contra o RB Leipzig e para a fase de grupos da Liga dos Campeões. A opção de Lage pelos naturalmente titulares, ainda que tenha de sofrer a ressalva de estarmos numa fase embrionária da temporada, é uma indicação daquilo que o treinador encarnado deixou patente na última época e cuja fórmula vai procurar repetir este ano.

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Ficha de jogo

Benfica-Gil Vicente, 2-0

5.ª jornada da Primeira Liga

Estádio da Luz, em Lisboa

Árbitro: João Pinheiro (AF Braga)

Benfica: Odysseas, André Almeida, Rúben Dias, Ferro, Grimaldo, Pizzi, Fejsa, Taarabt, Rafa (Caio Lucas, 71′), Raúl de Tomás (Jota, 77′), Seferovic

Suplentes não utilizados: Zlobin, Tomás Tavares, Jardel, Samaris, Cervi

Treinador: Bruno Lage

Gil Vicente: Denis, Fernando, Rodrigo, Nogueira, Ruben Fernandes, João Afonso (Leonardo, 82′), Soares, Kraev, Lino (Romário Baldé, 45′), Sandro Lima, Baraye

Suplentes não utilizados: Quindim, Erick, Arthur, Vente, Ahmed

Treinador: Vítor Oliveira

Golos: Nogueira (ag, 45′), Pizzi (53′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Nogueira (30′), Kraev (45+1′), William (78′), Baraye (80′)

Mesmo com Luís Filipe Vieira e Rui Costa a assumirem que o Benfica tem um projeto europeu que assenta na formação e que tem como objetivo voltar a ter ambições quanto à Liga dos Campeões a curto-médio prazo, a verdade é que nesta altura — e na realidade natural e normal do panorama do futebol europeu — a prioridade dos encarnados continua a ser a Primeira Liga. Se na Champions (ou na Liga Europa, em caso de o Benfica ficar em terceiro no grupo), as metas traçadas passam por fazer o melhor possível e chegar o mais longe possível, sempre sem colocar em causa o rendimento dos jogadores a nível interno, no Campeonato o objetivo claro é a revalidação do título nacional. E essa trave mestra de Bruno Lage dificilmente se vai alterar ao longo da temporada, mesmo quando os jogos de três em três dias se tornem regulares.

Este sábado, na Luz, uma vitória teria o efeito prático de pressionar FC Porto e Sporting, que só jogam este domingo, e não deixar fugir o Famalicão, que goleou o P. Ferreira e mantém-se na liderança isolada da Primeira Liga. O adversário, mesmo sendo um recém-promovido, não era o ideal: o Gil Vicente venceu o FC Porto na jornada inaugural do Campeonato e só perdeu uma vez desde o início da temporada, ainda que não tenha conseguido voltar a ganhar precisamente desde o encontro com os dragões. A equipa de Vítor Oliveira, que se renovou totalmente para regressar ao principal escalão do futebol português (entraram 24 reforços no plantel gilista), apresentava-se na Luz muito compacto, com as linhas muito juntas e a funcionar em bloco, o que dificultava a entrada dos jogadores encarnados na zona mais recuada do Gil.

A dificuldade de entrar com a bola controlada no último terço do terreno adversário obrigava então o Benfica a explorar situações mais incaracterísticas e que distanciam do ADN habitual de Bruno Lage, como as bolas paradas. A primeira oportunidade de golo apareceu precisamente assim, com um pontapé de canto na direita que descobriu Ferro ao segundo poste (8′); o central cabeceou pouco por cima da baliza de Denis. Pouco depois, numa transição rápida, Pizzi foi carregado em falta por Nogueira no interior da grande área e João Pinheiro não teve qualquer dúvida na hora de assinalar grande penalidade (10′). O capitão encarnado tentou converter o penálti, tal como já havia feito na jornada anterior com o Sp. Braga, mas Denis evitou o primeiro golo do jogo com uma boa defesa e tornou-se apenas o segundo guarda-redes da Primeira Liga a defender uma grande penalidade esta temporada.

Depois do penálti, o Benfica voltou a não conseguir pegar no jogo de forma coerente e perigosa, mantendo-se sempre com posse mas longe da grande área do Gil Vicente. Do outro lado, a equipa de Vítor Oliveira procurava principalmente a transição rápida e a exploração de situações de superioridade numérica, sem nunca descurar a organização defensiva onde os encarnados estavam a esbarrar. O conjunto orientado por Bruno Lage esteve 20 minutos sem criar ocasiões de golo — dos 10 minutos à meia-hora — e essa escassez de esclarecimento e inspiração era visível principalmente em Rafa, que estava a passar ao lado do jogo. Esse paradigma mudou ligeiramente a partir de uma oportunidade de Seferovic, que cabeceou novamente depois de uma bola parada (32′), e de uma outra de Pizzi, que recebeu um passe de Rafa ao segundo poste e rematou para uma defesa enorme de Denis (39′).

O Gil Vicente respondeu com uma ocasião que Vlachodimos resolveu (40′) mas o Benfica conseguia, nesta altura, empurrar a equipa de Barcelos para junto da própria grande área: muito graças à dupla inédita do meio-campo, Taarabt e Fejsa, que estavam a ser os melhores jogadores encarnados e que funcionavam muito bem enquanto ligação entre o setor mais recuado e o mais adiantado. No último minuto do tempo regulamentar da primeira parte, o Benfica acabou por conseguir chegar à vantagem com um autogolo de Nogueira (45′), que desviou para a baliza depois de um passe rasteiro de André Almeida à procura de Raúl de Tomás. Os encarnados iam para o intervalo a ganhar mas sem terem realizado uma grande exibição e com avisos claros do Gil Vicente de que o resultado não era garantido.

Na segunda parte, Vítor Oliveira lançou Romário Baldé no lugar de Lino e o Gil Vicente poderia ter empatado logo nos primeiros instantes, com Kraev a tirar Rúben Dias da frente e a rematar pouco por cima da baliza de Vlachodimos (49′). O Benfica regressou do intervalo tal e qual como tinha saído para o balneário, pouco ligado ao jogo e sem grande inspiração nem criatividade para colocar a bola entre as linhas do Gil. No meio campo, ainda assim, o marroquino Taarabt — que nesta pausa para as seleções foi titular e capitão da equipa de Marrocos — permanecia um pêndulo consistente, sem falhar passes e a efetuar inúmeros desarmes, numa atitude que se destacava principalmente devido à inferior reação à perda dos colegas de equipa.

[Carregue na imagens para ver alguns dos melhores momentos do Benfica-Gil Vicente:]

O falhanço de Kraev acabou por ser um turning point no jogo: se o médio búlgaro tivesse marcado, a partida ficava empatada logo no início da segunda parte e totalmente relançada; como o médio búlgaro não marcou, o Benfica chegou ao segundo golo poucos minutos depois e acabou por dar uma machadada praticamente decisiva no encontro. Depois de ter falhado uma grande penalidade e uma oportunidade clara ainda na primeira parte, Pizzi conseguiu chegar ao golo com um remate de primeira no seguimento de um canto batido na direita por Grimaldo (53′) e aumentou a vantagem encarnada sem ainda estarem cumpridos dez minutos da segunda parte.

O ritmo caiu de forma natural a partir do golo de Pizzi, Bruno Lage lançou Caiu Lucas no lugar do desinspirado Rafa e Jota no lugar do azarado Raúl de Tomás (que, tal havia acontecido com o Sp. Braga, viu um defensor adversário roubar-lhe o primeiro golo pelos encarnados) e o Benfica mostrava pouca frescura física, resultante da pausa para as seleções. O Gil Vicente teve mais bola a partir do segundo golo e procurou sempre o reduzir da desvantagem que poderia relançar a partida mas mostrava pouca clareza na hora de fazer entrar o último passe ou de rematar à baliza. O jogo arrastou-se até ao apito final, com as duas equipas a mostrarem muito pouco no derradeiro quarto de hora.

O Benfica somou a segunda vitória consecutiva na antecâmara da receção ao RB Leizpig, esta terça-feira para a Liga dos Campeões, e fica agora à espera daquilo que fazem FC Porto com o Portimonense e Sporting com o Boavista. Sem ser brilhante, a equipa de Bruno Lage conseguiu garantir os três pontos a solucionar vários problemas: solucionou a lesão de Florentino com a aposta em Fejsa, que foi dos melhores dos encarnados; solucionou a dificuldade em criar oportunidades de bola corrida ao tornar-se perigoso de bola parada; e solucionou a carreira de Taarabt, que depois de ter regressado à seleção de Marrocos após quase cinco anos de ausência voltou a ser o melhor jogador do Benfica, tal como já tinha sido há duas semanas em Braga. Pelo meio, tornou-se a solução clara para um setor que não tinha problemas mas que já é difícil de imaginar sem ele.

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