Ao contrário do que se passa em Portugal sobretudo entre os clubes “grandes”, onde quanto muito existem entrevistas a jornais desportivos e generalistas antes das Assembleias Gerais Ordinárias ou Extraordinárias, em Espanha há regimes alternativos e o Real Madrid é um exemplo paradigmático disso mesmo: antes das reuniões magnas, que se realizam este domingo, o presidente dos merengues, Florentino Pérez, reuniu com uma espécie de comissão que junta como que representantes de todos os sócios do clube para resumir aquilo que se passará no encontro e trocar algumas impressões. Algumas e sobre tudo.

Do interesse em ter um Roger Federer-Rafael Nadal no Santiago Bernabéu para bater o recorde da maior assistência de sempre num jogo de ténis à forma como consegue gerir a sua vida no clube com a atividade profissional, incluindo até as negociações (que ainda estão em fase demasiado prematura) com a NBA para tentar colocar o Real como a primeira equipa europeia a entrar na principal liga mundial de basquetebol, grande parte dessa conversa passou pelo futebol e por vários alvos “falhados” no mercado de verão, de Pogba a Neymar, passando pelo interesse em Bruno Fernandes. Apesar dos mais de 300 milhões de euros gastos em contratações, são os milhões que se seguem que geram interesse. Mas será isso que faz a equipa melhor?

Karim Benzema, avançado que já está nos espanhóis desde 2009 (apenas superado por Sergio Ramos e Marcelo, fora jogadores da formação), uma espécie de “patinho feio” nas piores fases para servir de bode expiatório para os insucessos da equipa, virou em definitivo cisne. Neste caso, o principal cisne do ataque do conjunto de Zidane. O avançado teve uma carreira onde os episódios polémicos e o feitio peculiar fora de campo iam toldando a forma como era olhado dentro das quatro linhas mas, já com 31 anos, o caminho feito pelo número 9 mostrou que é ainda hoje um dos melhores da atualidade na sua posição.

“BBC? Então, tinhas um rocket e um goleador, depois estava lá eu que era a peça que fazia funcionar tudo”, atirou na semana passada à RMC Sport, respondendo às críticas de quem o considerava o elo menos forte daquele ataque campeão europeu com Gareth Bale e Cristiano Ronaldo no Real Madrid. “O goleador da equipa era Ronaldo, eu tinha outro papel, estava mais na construção na abertura de espaço. Para mim ele foi o melhor goleador, mesmo quando jogava na esquerda. Eu afastei-me para libertar espaço e permitir que ele marcasse”, acrescentou de forma altruísta sobre os números do português em Espanha.

Numa altura onde ainda são apresentados reforços de última hora (o guarda-redes Areola, que trocou o PSG pelo Real em sentido inverso a Keylor Navas e foi oficializado esta sexta-feira) e já se pensa no que se poderá passar nas próximas duas janelas de mercado – com Eriksen à espera de uma confirmação de Florentino Pérez para começar a preparar as malas no Tottenham –, o francês voltou a ser resposta aos problemas que o Real podia ter (como teve) na receção ao Levante e deu mais uns passos numa história algumas vezes invisível mas que o coloca com números ao nível dos melhores até no Campeonato espanhol.

Depois de um arranque de jogo onde o Real Madrid sentiu dificuldades em entrar na área do Levante apesar das tentativas de fora da área do francês, ao ponto da própria realização televisiva aproveitar as investidas dos visitantes para ficar a bandeira branca com o número 7 na claque dos merengues em alusão a Ronaldo, Benzema abriu o livro e praticamente decidiu o encontro em 15 minutos: primeiro inaugurou o marcador de cabeça após cruzamento de Carvajal (25′); depois aproveitou da melhor forma uma grande assistência de James Rodríguez para rematar em jeito de pé esquerdo na área (36′); por fim, deu início à jogada que acabou com o passe de Vinicius para o 3-0 de Casemiro com que se atingiu o intervalo (41′).

Contas feitas, Benzema, que realizou 59 dos últimos 61 jogos na Liga, tornou-se o 19.º melhor marcador de sempre na competição igualando o registo do antigo avançado do Barcelona Julio Salinas, chegou aos quatro golos nas primeiras quatro rondas e ficou mais próximo de Messi e Mbappé, os dois melhores marcadores das cinco principais ligas europeias no ano civil de 2019 (21-19). Em dia da estreia de Eden Hazard, o Real Madrid mostrou que tem uma nova imagem, de barba e mão ligada como Benzema. No entanto, os fantasmas do passado continuam pelo Bernabéu (que ainda viu mais um remate ao poste do avançado francês de fora da área, após grande trabalho individual) e, depois dos golos de Borja Mayoral e Melero, Courtois ainda evitou o empate do Levante já em período de descontos perante os muitos assobios dos adeptos da casa…