A derrota do Manchester City este sábado com o Norwich não só apanhou o futebol inglês de surpresa como deixou os adeptos do Liverpool, que ficaram assim com cinco pontos de avanço para os principais rivais, a torcer pela equipa do leste de Inglaterra. Um sentimento, ainda assim, que os adeptos do Arsenal entendiam bem: em caso de vitória este domingo perante o Watford, os gunners igualavam o City no segundo lugar da tabela e colavam-se aos dois destacados favoritos à conquista da Premier League.

Depois da pausa para os jogos das seleções, o Watford regressava com novo treinador — Quique Flores substituiu Javi Gracia e regressou ao clube que orientou em 2015/16 — e o Arsenal regressava sem Lacazette, habitual companheiro de Aubameyang na frente de ataque, que dificilmente vai voltar aos relvados antes de outubro graças a uma lesão no tornozelo. Depois do empate no Emirates perante o Tottenham na jornada anterior, era importante para a equipa de Unai Emery voltar às vitórias, igualar então o Manchester city na classificação e ganhar confiança para uma semana que traz o início das competições europeias.

Sem Lacazette, Emery apostava numa frente de ataque a dois, com Pépé ao lado de Aubameyang, e o losango Ozil, Ceballos, Guendouzi e Xhaka no apoio direto aos homens mais adiantados. Já o Watford continua sem contar com o avançado e capitão Troy Deeney, que foi operado ao joelho no início da temporada e permanece de fora das opções. A jogar em casa, a equipa de Quique Flores começou por cima e criou várias oportunidades ao longo do primeiro quarto de hora, obrigando o guarda-redes Bernd Leno a intervenções apertadas. O Arsenal, obrigado a recuar as linhas e juntar o bloco defensivo para asfixiar as investidas do Watford, tinha Xhaka e Ceballos demasiado ocupados com ações mais recuadas para conseguirem pensar no jogo e construir a partir de trás.

Mas tal como normalmente acontece nos jogos entre as grandes equipas e aquelas do meio da tabela, a qualidade individual acabou por fazer a diferença ao passar do minuto 20. Na primeira ocasião de golo digna desse nome que construiu, a equipa de Unai Emery chegou à vantagem depois de uma recuperação de bola de Ceballos no meio-campo e uma condução de Kolasinac que apanhou a defesa do Watford num momento de total passividade. Aubameyang recebeu do bósnio, rodou sobre si mesmo e atirou para o primeiro da partida. Uma oportunidade, um remate, um golo: a eficácia do Arsenal ia fazendo a diferença.

O golo trouxe tranquilidade aos gunners, que começaram a fazer exatamente aquilo que tinha faltado até ao primeiro golo de Aubameyang — construir a partir das linhas mais recuadas, trocar a bola ao longo do meio-campo, mudar de corredor e de velocidade até encontrar espaço entre os setores adversários e fazer entrar um passe de rotura. Foi assim que acabaram por chegar ao segundo golo, novamente por intermédio do avançado gabonês, que aproveitou um cruzamento de Maitland-Niles para encostar ao segundo poste e concluir uma jogada que se desenrolou ao longo de 20 passes (32′). O lance do segundo golo do Arsenal foi mesmo a maior sequência de passes a originar golo na atual edição da Premier League.

Unai Emery não faz qualquer alteração no regresso para a segunda parte e o Arsenal não conseguiu recuperar o domínio dos últimos instantes do primeiro tempo, em que segurou a bola e a fez circular de forma a desgastar os jogadores adversários e ver passar os minutos numa situação favorável de vantagem. À maior intranquilidade juntou-se um conjunto de erros de concentração na defesa — e foi precisamente daí que acabou por surgir o golo do Watford.

Bernd Leno bateu um pontapé de baliza de forma curta para Sokratis e o central, prontamente pressionado por dois elementos do Watford, tentou um passe vertical para a entrada da área e para Guendouzi. Tom Cleverly intercetou a bola e bateu Leno (53′), relançando desde logo a partida e obrigando o Arsenal a voltar a carregar no acelerador para não perder os três pontos. O erro de Sokratis foi o 14.º (!) cometido pelos gunners desde o início da temporada passada que culminou diretamente em golo sofrido, uma estatística que demonstra de forma óbvia que o calcanhar de Aquiles da equipa de Unai Emery continua a ser o setor defensivo.

Ao longo de uma segunda parte em que esteve sempre por cima do jogo e procurou muito mais o empate do que o Arsenal procurou o terceiro golo, o Watford acabou por beneficiar das alterações de Unai Emery, que ao invés de darem frescura à equipa limitaram-se a dificultar as dinâmicas pré-estabelecidas. Saíram Ceballos, Guendouzi e Ozil, entraram Willock, Torreira e Nelson, e os gunners fecharam-se por completo no próprio meio-campo defensivo. O conjunto orientado por Quique Flores acabou por chegar ao merecido empate a dez minutos do apito final, por intermédio de uma grande penalidade cometida por David Luiz e convertida por Pereyra, e o Arsenal falhou a subida ao segundo lugar e somou o terceiro jogo consecutivo sem vencer.

Desde que chegou ao Arsenal vindo do Borussia Dortmund, em janeiro de 2018, Aubameyang já esteve envolvido em 46 golos do clube londrino (marcou 37, assistiu para nove). Mais: nos últimos nove remates enquadrados que fez na Premir League, o avançado concretizou sete. Aubameyang anda sem o colega favorito, porque Lacazette está lesionado, tem um amigo novo, porque Pépé entrou de imediato para o onze inicial, mas não consegue fazer tudo sozinho. E o Arsenal precisa de construir uma equipa para o gabonês.