“Temos modelos de sociedade completamente diferentes, por isso é que este modelo de debate nem é fácil”, começou por admitir Rui Rio, já depois de Catarina Martins ter tentado esquematizar as “diferenças muito grandes” entre os dois. A verdade é que o líder do PSD e a coordenadora do Bloco de Esquerda até podem ter um objetivo semelhante — tirar a maioria absoluta ao PS — mas não se entendem em tudo o resto, nem tão pouco na forma de lá chegar. Por isso, um debate de meia hora entre os dois, como o que ocorreu esta noite na TVI, acaba por ser mais uma sessão de pergunta-resposta, à vez, do que um debate de ideias.

“O que Catarina Martins diz é verdade: o nosso papel passa por tirar o Bloco de Esquerda e o PCP da esfera do poder, tal como o papel do Bloco de Esquerda foi tirar o PSD e o CDS da esfera do poder, por isso nesse aspeto estamos quites”, afirmou a dada altura Rui Rio, depois de Catarina Martins o ter desafiado a explicar porque é que o objetivo primordial do PSD era impedir o BE de influenciar a governação, estando até “disposto a perder eleições para apoiar António Costa contra a esquerda”. Mas nesse aspeto, estamos conversados: Rui Rio diz que se o seu objetivo fosse perder eleições, mais valia estar internado “no Júlio de Matos”; que não vale a pena falar-se em maioria absoluta do PS porque “isso não faz sentido nenhum”, não vai acontecer; nem sequer o PSD vai afundar tanto quanto as sondagens, “mais ou menos manipuladas”, dizem. Palavra de Rui Rio.

Quanto ao resto, é um mundo de distância. Rui Rio e Catarina Martins defendem “modelos de sociedade completamente diferentes”, pelo que um debate entre os dois serve mais para cada um falar aos seus, do que para cada um tentar ir buscar votos ao outro. Foi o que aconteceu este domingo, com Catarina Martins a colar Rio ao PSD da troika, e com Rio a colar Catarina Martins ao Bloco que esteve ao lado do PS quando o governo deu dinheiro dos contribuintes aos bancos que faliram. Nacionalização ou privatizações, parcerias-público-privadas ou proibir gestão privada de hospitais, desinvestimento no SNS maior durante a troika ou maior nos últimos quatro anos, leis laborais mais amigas dos patrões ou dos trabalhadores: cada um com a sua.

Nacionalizações e PREC = novo Sócrates?

A banca, contudo, foi o tema onde houve mais faísca, com Catarina Martins a obrigar Rui Rio a defender-se, primeiro, e a atacar depois. Pegando numa frase do programa eleitoral do PSD (página 13) — que diz que “pagámos caro a promiscuidade entre decisores políticos e elites financeiras” –, Catarina Martins foi aos números para evidenciar uma contradição. “Quando vemos as empresas privatizadas pelo anterior governo e vemos o número de ex-governantes do PSD e do PS, vemos como as privatizações foram lesivas para o Estado: 18 ex-ministros do PSD e PS na EDP, 13 no BES, 17 no BCP e, no BNP, 8 do PSD e 3 do PS”, disse, defendendo que, no tempo de Passos Coelho, PSD e CDS privatizaram empresas estratégicas por “tuta-e-meia”, e não foi porque “tinha se ser”, foi porque “quiseram”.

A proposta do BE passa, por isso, pela nacionalização de parte de algumas destas empresas estratégicas, como a EDP, os CTT ou a REN, com Catarina a dizer que, por exemplo, o controlo público dos CTT não custa para lá de “100 milhões de euros” e que ter o controlo de parte da REN, “que neste momento é controlada pelo Estado chinês”, não custaria mais do que 50 milhões. Números que, no fundo, não chegam a “um quinto do que damos todos os anos à Lone Star pelo fundo de resolução do BES”.

Mas para Rui Rio, ouvir isto é recuar até ao PREC de 1975. “Não é bem, mas é parecido ao que está no programa do Bloco de Esquerda”, disse. Primeiro, porque o governo PSD e CDS só privatizou as empresas que privatizou porque “perdemos os anéis porque nos endividámos em excesso”, e, depois, se as nacionalizações que o BE propõe avançassem, “aí deixávamos de dizer que o governo de Sócrates nos atirou para a bancarrota e passávamos a dizer que o governo de Catarina Martins nos atirou para a bancarrota”. Estava feito o ataque.

A ideia era colar o BE ao PS de Costa que, por sua vez, aparece colado ao PS de Sócrates. “O dinheiro que está a ser dado aos bancos estava nos Orçamentos do Estado do PS que o BE aprovou”, disse Rio, para a seguir Catarina contrapor, lembrando que o fundo de resolução para o Novo Banco foi aprovado com a abstenção do PSD, não com o voto do BE.

De resto, da Saúde à legislação laboral, não há debate possível. Enquanto um (Rio) defende que a gestão privada de hospitais não deve ser proibida, porque o que interessa é o doente ser bem atendido e o Estado pagar o menos possível, o outro (Catarina) diz que isso só serve para aumentar a “promiscuidade e alimentar grupos privados de saúde”. Enquanto um (Rio) diz que este governo foi o que vais desinvestiu no SNS, o outro (Catarina), diz que o governo anterior do PSD e CDS cortou no orçamento da Saúde e fez crescer os privados à conta do Orçamento do Estado.

No fim, um reparo de Catarina Martins e uma justificação de Rui Rio. O reparo: Catarina não gostou de ouvir Rio dizer que não se entusiasma pela função de deputado porque “quem se candidata tem de respeitar quem o elege, e se não gosta não se devia ter candidato”. Rui Rio vai continuar a explicar-se em todas as entrevistas e debates sobre o porquê de ter dito que a função de deputado não o entusiasmava. A justificação: voltou para a política apenas para ser candidato a primeiro-ministro, se não fosse para isso, não tinha voltado. O problema é que “as pessoas não estão habituadas a que uma pessoa seja sincera”.