“Querida equipa, não sei como vos agradecer. Não sei como agradecer pelo que estão a fazer. Não falo de resultados nem do grandíssimo Campeonato que estão a realizar. Vocês fizeram algo muito mais difícil: estão a dar ilusão às pessoas, a todos os fãs de desporto, criando mais fãs a este bendito jogo de basquetebol. Sinto isso nas ruas, sinto que as pessoas respiram basquetebol, algo tão são e amável como este jogo, e isso é uma maravilha.

Obrigado porque são um exemplo de como se trabalha em equipa e essa é uma boa lição nestes tempos. Dá gosto ver o esforço que fazem em cada partida, como deixam a pele em campo porque apenas no dicionário a palavra trabalho está antes do êxito. É um exemplo e uma maravilha a dedicação, o vosso empenho, do início ao final, desde o que joga mais minutos aos que ficam no banco para animar os seus companheiros. A mim emociona-me ver-vos a funcionar assim, desta maneira, como foi em todos estes anos, esteja quem esteja. Sinto isso à flor da pele.

Obrigado por nunca se renderam. Sinto orgulho. Todos sabemos que é assim, como nos comportamos nos Campeonatos. Não é a primeira vez que crescemos consoante vão avançando os jogos do torneio, que aguentamos as sensações irregulares e os possíveis comentários negativos que recebemos. Se o mundo fosse perfeito, a perspetiva de fora nos maus momentos seria distinta, dando a volta ao que se vê, tentando apoiar a equipa quando as coisas não correm como queremos ou quando não ganhamos por 30 ao Irão. Dizemos sempre o mesmo: isto não é como começa, é como acaba (…) Fixaram-se na Sérvia, dominante, e nos Estados Unidos, que têm jogadores magníficos. Mas a final jogámos nós e a Argentina, equipas que ganham na base do trabalho, da unidade, do companheirismo, da generosidade. É uma delícia esta forma de ser que temos. É mais uma lição (…)”.

Em dia de final do Campeonato do Mundo, Pau Gasol, um dos principais ausentes na seleção espanhola, escreveu uma carta aberta para os companheiros de equipa. Uma carta emotiva, motivacional, transversal a todo um país. Porque foi assim que a Roja alcançou na China o encontro decisivo da competição, como se viu na forma como lutou entre dois prolongamentos para superar a Austrália nas meias-finais. Porque será assim que ficará recordada na revalidação do título 13 anos depois.

Num jogo muito aguardado pelas características das duas equipas (que tinham entre si vários companheiros de clubes, sobretudo no Real Madrid que tinha dois espanhóis e três argentinos na final), as entradas em campo da Espanha acabaram por ser fulcrais para decidir uma partida bem mais desnivelada do que se esperava. Aliás, basta atentar no filme do primeiro período para se perceber 40 minutos: depois de um início avassalador com um parcial de 14-2, a Argentina ainda conseguiu reduzir para 14-8 com Brussino em evidência mas o quarto terminou com 23-14 e os espanhóis a liderarem em todos os parâmetros, dos ressaltos aos roubos de bola, passando pela eficácia de lançamento ou pelos turnovers forçados ao adversário.

Num remake desse filme, após um intervalo que chegou com 43-31, a Espanha voltou a conseguir fazer a diferença na defesa, foi somando pontos no ataque repartidos por vários elementos como Ricky Rubio, Marc Gasol (que depois de ter sido campeão da NBA fecha a temporada com o título mundial), Rudy Fernández e Sergio Llull, e terminou o terceiro período já com um avanço de 19 pontos com outra curiosidade: Luis Scola, El Abuelo de 39 anos que tem sido o grande coração de uma equipa onde brilham nomes como Campazzo ou Laprovittola, tinha apenas seis pontos e da linha de lance livre. Se Maradona imortalizou a Mão de Deus com o golo apontado no Mundial de 1986, aquela que podia ser a outra Mão de Deus do desporto argentino ficou-se pela prata apesar da reação nos últimos minutos que deixou o resultado resumido a 95-75.