Enviados especiais à Madeira

Quatro dias e algumas horas. É tudo o que resta de campanha na Madeira. Os vários partidos apostam tudo no sprint final naquelas que são as eleições regionais com o desfecho mais incerto desde o 25 de abril de 1974. A vitória pode cair tanto para o lado PS como para o do PSD, a maioria absoluta desenha-se como o cenário mais improvável de todos e não é líquido que o partido vencedor venha a ser o líder do governo regional. Pela primeira vez, os socialistas podem pedir uma vitória de forma realista.

Talvez tenha sido a soma desses fatores que levou cerca de 600 apoiantes de Paulo Cafôfo a encher um restaurante em Câmara de Lobos esta noite para um jantar comício. Um dado que ganha especial relevo por se tratar de concelho tradicionalmente dominado pelo PSD e que nunca sucumbiu ao crescimento do PS na Madeira ao longo dos últimos anos — nas hostes socialistas há até quem se refira a este município nos arredores do Funchal como “o laranjal” da ilha.

Há quatro anos, o PS tinha tentado ali um mega-comício, num parque de estacionamento, com palco “à Jardim” e artista convidado. Foi uma noite desastrosa, com o candidato de então, Vítor Freitas, a cancelar o comício já depois da hora marcada, por falta de comparência dos apoiantes. Uma humilhação que ficou completa com a atuação de Quim Barreiros, que insistiu em tocar na mesma para as não mais de 15 pessoas que tinham aparecido.

Desta vez, as coisas estão muito diferentes na política madeirense. Minutos antes de o candidato socialista entrar na sala, a JS-Madeira ia coordenando os cânticos que aqueciam as vozes dos apoiantes do PS, que se iam levantando e agitando bandeiras, ensaiando a receção, que se queria calorosa, ao candidato. “Graças a Deus/Tudo vai mudar/Graças a Deus/O Cafôfo vai ganhar”, iam gritando os jotinhas para não deixar morrer o ambiente de festa que se sentia à chegada ao restaurante “O Lagar”.

Quando finalmente Paulo Cafôfo entrou na sala, os cânticos que tinham sido ensaiados a espaços foram entoados em catadupa durante mais de cinco minutos. Quando subiu ao palco para discursar, o número um pelo PS às regionais de dia 22 de setembro não esqueceria a receção. “É desta energia que precisamos”, repetiu diversas vezes ao longo da sua intervenção.

Com uma plateia favorável, que exaltava com qualquer soundbite que o candidato proferisse — mesmo os mais repetidos e gastos –, Paulo Cafôfo não precisava de fazer uma grande intervenção para galvanizar a assistência. Chavões como “é preciso escolher entre o passado e o futuro” eram suficientes para levar os jotinhas a gritar vários decibéis acima do recomendado e a levantar a sala. Não havia grande critério na escolha dos momentos para interromper a intervenção do candidato socialista, mas serviam para mostrar a confiança com que a caravana parte para a última semana da campanha.

Sentimos que estamos perto, estamos lá, estamos perto de concretizar o sonho de tantas e tantos madeirenses“, resumiu Paulo Cafôfo já no púlpito. Antes tinha usado uma série de argumentos que vem repetindo nos últimos dias. Entre reforçar a mensagem ou trazer novidade, a campanha do PS vai apostar na primeira estratégia nesta reta final para convencer o eleitorado a ir votar.

Falou dos problemas da habitação, da saúde — “um hospital novo e mais médicos de família é possível com o PS”, prometeu — e pediu mais maturidade no diálogo com o Governo nacional — “os madeirenses querem um presidente que se deixe de bocas infantis, querem um presidente que resolva os problemas”. A distinção entre “nós” e “eles” foi constante ao longo da intervenção. Tudo para legitimar um pedido que surgiu aparentemente de forma inadvertida a meio do discurso. “Só há duas opções: ou os mesmos de sempre, que não souberam resolver os problemas dos madeirenses, ou nós, o PS e esta energia que aqui vemos“, dramatizou o ex-presidente da Câmara Municipal do Funchal para gáudio e excitação da JS, que voltava aos habituais cânticos.

Ao longo dos últimos meses, proclamou-se “um bom negociante” para surgir como o candidato mais capaz de dialogar tanto com a esquerda como com a direita. Agora, Cafôfo parece mais apostado em desfazer-se desse argumento para reforçar a ideia de que só há dois votos que decidem o futuro governo da Madeira: ou no PS ou no PSD.