Depois de uma época que terminou com a frustração de acabar o Campeonato com 97 pontos mas no segundo lugar antes da festa em Madrid pela vitória na final da Liga dos Campeões frente ao Tottenham, a perceção em torno do Liverpool mudou. Deixou de ser a equipa do quase, confirmando que o quase foi apenas o melhor caminho para o sucesso final. Também por isso, passou a ser uma espécie de alvo a abater onde não ganhou (Premier League) e onde é o campeão em título (Champions). E também por isso, os resultados durante a pré-temporada foram deixando muito a desejar para quem tinha esse estatuto.

Na sequência dos triunfos com os mais modestos Tranmere Rovers e Bradford, o Liverpool teve alguns jogos longe do que estava habituado a fazer, perdendo com B. Dortmund, Sevilha e Nápoles e empatando com o Sporting antes de fechar a preparação com uma vitória diante do Lyon. É certo que nem todas as peças estavam ainda à disposição de Jürgen Klopp mas havia sinais que, para quem estava fora, geravam alguma preocupação. Nos resultados e não só: no desaire por 3-0 com os italianos, num encontro realizado na Escócia, Van Dijk e o técnico alemão chegaram mesmo a pegar-se no primeiro golo dos napolitanos.

“São coisas entre nós os dois, não é necessário revelar o quê… Creio que todos devem comunicar entre si e às vezes é preciso alguém dizer-te a verdade. É assim…”, comentou no final o central holandês, melhor jogador da UEFA na última temporada e que surge também ao lado de Ronaldo e Messi como candidato ao prémio The Best da FIFA. Depois, chegou a época a sério. E a seguir à derrota na Supertaça inglesa frente ao Manchester City nas grandes penalidades, os reds conquistaram a Supertaça Europeia também nas grandes penalidades e começaram a Premier League com cinco vitórias consecutivas e já cinco pontos de avanço sobre o campeão Manchester City, o que acendeu a troca de palavras entre Pep Guardiola e Klopp.

“Ele deu os parabéns pela pontuação e disse que éramos a melhor equipa da Europa? Isso é impossível, não podemos ser a melhor equipa da Europa porque eles são a melhor equipa do mundo e pelo que sei ainda estamos no mesmo planeta”, atirou o treinador germânico, em mais um capítulo de uma “novela” fora de campo que promete arrastar-se por mais algumas semanas. Melhor da Europa ou não, o Liverpool, este Liverpool, parte como favorito para qualquer jogo que realize mas só não ficou antes em desvantagem porque o único jogador entre os 18 que não foi campeão europeu segurou a equipa nos momentos chave. Logo ele que, depois do desemprego e de ter estado a treinar numa equipa dos regionais, continua a ter uma história digna de filme para Aurelio De Laurentiis, o líder carismático do Nápoles que dificilmente encontraria melhor argumento para produzir mais uma película. No entanto, se o espanhol Adrián brilhou, os compatriotas Callejón e Llorente não ficaram atrás.

Ainda com o jogo da última temporada em Anfield na memória, em que Alisson acabou por atirar os visitantes para a Liga Europa com uma grande defesa a remate de Milik nos últimos instantes, os italianos entraram a todo o gás no jogo e foram somando várias oportunidades junto da baliza dos ingleses que, quando passavam a barreira quase intransponível de Van Dijk, chocavam de forma inevitável com o muro Adrián, o espanhol de 32 anos que após sair do West Ham chegou a treinar num conjunto dos regionais para manter a forma antes de ser contactado pelo Liverpool para assumir a posições de segundo guardião.

No segundo tempo, o rumo do encontro foi mudando e o tridente ofensivo foi conseguindo chegar-se mais à baliza dos visitados, por mérito próprio ou demérito dos defesas contrários. Meret, sobretudo num lance onde Manolas colocou a bola nos pés de Salah em zona proibida, também travou o golo antes do momento que decidiria a partida, quando Callejón percebeu o movimento de Robertson na área, fez um convite para ser tocado e Felix Brych assinalou mesmo grande penalidade, convertida por Mertens com Adrián a tocar ainda na bola sem ser ainda assim capaz de evitar o 1-0 (82′). E o triunfo do Nápoles não ficaria por aí, com o recém entrado Llorente, que no ano passado perdeu a final da Champions frente ao Liverpool, a aproveitar um erro da defesa inglesa para ficar com a bola à disposição na área para o remate certeiro já em período de descontos (90+2′).

Numa semana em que o estado (atrasado) das obras do Estádio San Paolo foi alvo de alguma polémica, ao ponto do técnico Carlo Ancelotti questionar como era possível ter-se feito tão pouco em dois meses numa guerra mais abrangente entre a autarquia local e o presidente dos napolitanos, De Laurentiis, tudo ficou pronto a tempo para receber uma grande noite europeia para o clube. E se é verdade que a requalificação do recinto é fundamental para o Nápoles recuperar sócios e receitas, os 90 minutos disputados dentro de campo frente ao campeão europeu também prometem ser uma boa ajuda.