Título: Alojamento Letal
Autor: Álvaro Filho
Editora: Planeta
Ano da Edição: 2019
Páginas: 208
Preço: 15,95€

O romance foi publicado em julho pela editora Planeta

“Uma série de crimes atormenta Alfama e o principal suspeito é o senhor Ming, um milionário chinês que é dono dos prédios onde as vítimas viviam e que quer convertê-los em alojamento local. Para tentar provar a inocência, o empresário recorre aos serviços de Nuno Cobra, um escritor português de romances policiais, que decorrem em gélidas paisagens nórdicas e cujo vilão age da mesma forma que o frio assassino lisboeta. A situação complica-se quando o escritor descobre que também mora num dos apartamentos do ‘chinês com apelido de vaso’ e que o seu nome pode ser o próximo na lista de ‘despejos macabros’. Inicia-se então uma cruzada pelas tortuosas e escuras ruelas do bairro medieval, num thriller regido pelas fases da Lua e pela sabedoria dos biscoitos da sorte, para caçar o verdadeiro culpado pelos ‘Crimes do Airbnb’.”

É esta a sinopse do novo livro de Álvaro Filho, escritor brasileiro radicado em Portugal que, em 2018, foi semi-finalista do Prémio Oceanos com o trabalho de ficção Curso de Escrita de Romance — Nível 2. O enredo é no mínimo estranho — há um assassino que se aproveita da situação e vive em Lisboa para alegadamente atacar “velhinhas” indefesas —, mas não deixa de ser potencialmente interessante para quem vive na capital portuguesa e tem sentido na pele um problema que não afeta apenas as idosas do bairro de ruas “medievais”. O título, Alojamento Letal, tem graça e a sinopse até arranca uma gargalhada ou duas — ingredientes que são suficientes para levar o leitor a dar uma hipótese ao livro.

Mas aquilo que o “policial cómico” de Álvaro Filho (é assim que o próprio autor lhe chama) promete, não cumpre. A graça vai-se desvanecendo à medida que a história “avança”; as personagens, às quais são dedicadas páginas e mais páginas são pouco credíveis (apesar da descrição pormenorizada); e os “Crimes do Airbnb”, de que se fala na contracapa, têm direito a uma única referência durante as primeiras 100 páginas e outras duas mais à frente. Fala-se num terrível assassino que anda à solta em Alfama, mas este aparece e desaparece como uma miragem; durante 97 páginas não há mortes (o livro tem 208); não há investigação e a polícia parece mais preocupada em comer bifanas do que em apanhar o criminoso; não há suspense e não há tensão dramática. Além de tudo isto, é praticamente impossível tentar adivinhar o nome do assassino porque não existem pistas ou suspeitos, apenas eventuais vítimas. É como jogar Cluedo e as personagens estarem todas mortas na casa de partida.

Claro que isto não impede o leitor de ter curiosidade em saber a identidade do assassino de “velhinhas” (que, bem vistas as coisas, não mata nenhuma) com uma fixação por olhos e pelas fases da Lua. É isso que dá alento para atravessar o deserto que é Alojamento Local, particularmente difícil a partir de metade, quando finalmente nos apercebemos de que a história só vai chegar a algum lado perto do fim. O constante uso das mesmas expressões torna o percurso particularmente penoso. Parece que um dos objetivos do autor (que teve objetivos a mais) era escrever uma espécie de sátira dos romances policiais, dos nórdicos e dos outros, cheios de chavões e personagens-tipo para fazer rir. Só que a sátira é um género difícil, e esta foi muito mal conseguida.

O mais flagrante neste policial é, contudo, a falta de ação policial. Ou, vá, de um pouco de investigação. O inspetor-chefe, José Touro, parece andar sempre muito atarefado, embora nunca o vejamos a fazer o que quer que seja. O clímax é constantemente adiado por descrições exaustivas das personagens e pelo enredo paralelo do policial nórdico que Nuno Cobra, o escritor quarentão com queda para mulheres exóticas, está a escrever. Num livro onde falta tanta coisa, uma personagem complexa podia ser uma coisa boa — só que não é. Questões de profundidade à parte, o grande problema das pessoas que povoam o romance de Álvaro Filho é a falta de credibilidade. Ora vamos por partes:

  1. O romance passa-se em Alfama, um bairro típico lisboeta (cada vez menos, bem sei). Apesar da multidão de turistas que invadiu a cidade, aos quais Alfama não foi naturalmente imune, ainda lá vivem portugueses. No romance de Álvaro Filho, contudo, não há nem um para amostra. Além, claro, do narrador, nascido, crescido e vivido em Alfama, do inspetor-chefe, que é do Seixal (e cuja morada de residência nunca nos é dada), e do seu partenaire estrábico, Gervásio. Ou seja, para um livro que é publicitado como tendo o problema do Alojamento Local como pano de fundo, o número de portugueses é muito reduzido. Além disso, os únicos que parecem ser verdadeiramente afetados por este são os estrangeiros, como o vizinho de cima de Cobra, um italiano com pretensões a músico que foi corrido do apartamento pelo sr. Ming das “mãos venenosas” (expressão que o narrador repete de todas as vezes que encontra o chinês para o caso de não a termos apanhado da primeira vez).
  2. E como é que são estes estrangeiros que vivem em Lisboa? Bizarros, no mínimo. Há um francês gigolot que cheira mal e tem nome de cão (literalmente, chama-se Chien), uma brasileira, amante do gigolô, que cheira bem, uma chinesa espia (a tal “ninja sodomita”), que gosta de fumar ópio e de andar com uma espada japonesa porque é sexy, um oftalmologista alemão que coleciona olhos em frascos… Isto para não falar em Hóu Ming, que disfarça a sua ligação com o governo chinês com diversas atividades comerciais, como um restaurante de comida chinesa e um peep show. Tudo na Baixa, claro está.
  3. Todas estas personagens extravagantes são descritas exaustivamente em capítulos que lhe são dedicados e que têm o nome do seu respetivo signo chinês. A astrologia é, aliás, muito importante neste romance, uma vez que contribui para um melhor entendimento de quem compõem esta trama complexa — demasiado complexa. As fases da Lua e os bolos da sorte têm também papel de destaque, oferecendo um toque exótico a uma Lisboa que só pode ter nascido da cabeça do escritor.
  4. Todas estas personagens deveriam constituir o lado mais divertido deste policial (onde não faltam piadolas, é certo), mas são tão inusitadas que é impossível achar-lhes graça. Não são caricaturas, são um elenco de gente saída não se consegue compreender de onde. Essa falta de credibilidade impede o leitor de entrar na história porque não há identificação possível. Mesmo que se parta do princípio que o autor nunca pretendeu retratar uma realidade real, mas sim uma alternativa (e se isso é verdade, então não se entende o porquê de o enredo se passar na Lisboa moderna afetada pelo problema do Alojamento Local que até dá título ao romance).

E depois há o livro de Nuno Cobra, que é muitas vezes mais interessante do que o livro de Álvaro Filho. Isto porque, na história do Inspektör Mus, há aquilo que falta na de Touro e companhia limitada — ação. Ou será que o que o autor de Alojamento Letal não quis escrever um policial? A dúvida paira no ar ao longo de todo o romance e estabelece-se definitivamente no final, quando o leitor é atirado sem dó nem piedade para um universo de mundos paralelos onde pouco se entende e onde muito fica por explicar. Com duas reviravoltas inesperadas, Álvaro Filho deixa o leitor a navegar na maionese, esforçando-se para entender onde é que o escritor quis chegar. 

Não é possível responder a esta questão, da mesma forma que não é possível definir Alojamento Letal. Talvez seja um policial que só aparenta ser um policial, uma sátira aos policiais, um alerta para os perigos da loucura do Alojamento Local em Lisboa (de que na verdade pouco se fala) e um elogio à sabedoria chinesa. Ou talvez não seja nada disto e a verdade seja tão críptica como uma mensagem de um bolo da sorte chinês.