“O sistema judiciário falhou redondamente”. O bispo do Porto publicou esta terça-feira uma mensagem no site da Diocese do Porto onde lançou críticas à atuação da justiça no caso do assassinato da freira Antónia Pinho (mais conhecida por “irmã Tona”), que foi encontrada morta a 8 de setembro na casa do próprio suspeito, no concelho de São João da Madeira, em Aveiro. D.Manuel Linda não poupou nas palavras e apontou também o dedo a políticos, organismos que defendem os direitos humanos e feministas por não terem abordado este “bárbaro assassinato”.

D.Manuel começou por afirmar que o que aconteceu à freira Antónia Pinha — “o martírio da ‘Irmã Tona'” — “tem muito de paralelo com tantas mulheres, de todas as idades, que, na defesa da sua honra e dignidade, acabaram por pagar com a vida a resistência ao agressor depravado”. Nos três pontos de “reflexão social” que considera ser necessário fazer a partir deste caso, o bispo do Porto diz duvidar “se as prisões são centros de recuperação ou ‘escolas do crime requintado'”, uma vez que, nas suas palavras, não tem a certeza de que a sociedade protegeu “os mais vulneráveis” da “ação devastadora” dos criminosos.

Freira encontrada morta na casa de ex-recluso. Suspeito está detido

Se bem que, por natureza, todos sejamos ‘imagem e semelhança de Deus’, de facto, no comportamento, há verdadeiros monstros. Não sei se por culpa própria, isto é, se agem em liberdade, ou se sem responsabilidade moral, no caso das patologias mais graves. Seja como for, a sociedade tem a obrigação de os curar, se tal for possível, ou, no mínimo, de proteger os mais vulneráveis da sua ação devastadora. Neste caso concreto, não sei se fez isso”, escreveu D.Manuel.

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De seguida, o responsável da Igreja Católica criticou o sistema judiciário. “Falhou rendondamente”, apontou D.Manuel Linda, sublinhando que foram precisas “duas tentativas (?) de violação, a juntar aos antecedentes criminais, para se emitir um mandado de captura do malfeitor”. Neste caso em concreto, o de Antónia Pinho, “a execução demorou tanto” que “já não foi a tempo”. “Alguém tem de ser responsabilizado por isto. Se é pouco previsível que o sistema judicial seja ‘chamado à pedra’, pelo menos moralmente algumas pessoas hão de sentir-se culpadas pelo homicídio da religiosa”, acrescentou na mensagem.

Por último, o bispo do Porto apontou ainda críticas ao silêncio de várias pessoas em relação ao caso. “Com honrosa exceção da Câmara Municipal de São João da Madeira, nenhum político, nenhum (e nenhuma…) deputado desses radicais, nenhum organismo que diz defender os direitos humanos, nenhuma feminista veio condenar o ato. Nenhum e nenhuma!”, sublinhou. E apontou ainda um possível motivo para este silêncio: “Porventura porque, para elas (e para eles…) as vidas perdem valor se se tratar de pessoas afetas à Igreja. Sumamente, se defenderem a sua honra”. “Critérios…que, obviamente, não são os meus”, terminou.

“Porque não entregar-me aos outros?” Quem era a freira “radical” que foi morta a cuidar dos outros

A “irmã Tona”, alcunha de Antónia Pinho, era conhecida no concelho como “freira radical”, por deslocar-se com uma lambreta. O seu maior compromisso resumia-se a ajudar idosos e toxicodependentes. O homicídio terá acontecido durante a manhã e o suspeito foi detido fora de flagrante delito, referiu a Polícia Judiciária em comunicado. A freira terá sido asfixiada e violada. O detido é toxicodependente, está desempregado e tem antecedentes criminais pela prática de crimes de tráfico de estupefacientes, violação e sequestro. Tinha saído da prisão há três meses.