António Costa apresentou-o como um “ex-quase tudo o que se pode ser” e que ainda é “defensor dos direitos humanos quando já podia estar a gozar a tranquilidade da vida”. Jorge Sampaio foi homenageado pelo partido que liderou, pelos seus 80 anos, no Largo do Rato onde se “sente bem, não tem de justificar nada” e onde lhe “perdoam as faltas”, garantiu. E onde seguramente lhe agradecem o apoio de ter um histórico a separar águas às portas da campanha eleitoral, troçando com os “todos que andam a medir se são sociais-democratas. Isto não se mede assim, mede-se com propostas e estudo”.

Sampaio não teve de nomear Catarina Martins, que classificou o programa do Bloco de Esquerda de social-democrata, em entrevista ao Observador, apontou antes ao que procurava no seu tempo de liderança e nos primeiros passos da política altura em que “nunca ninguém aprofundou isso ou andou a medir”. E nesta memória política do ex-Presidente da República cabe um PS que escolheu por “ser uma entidade plural onde o espaço ideológico é vasto, a construção deve ser permanente e o espírito tem de estar aberto para a discussão viva, mas não para a conspiração”. Soou quase a acerto de contas com 21 anos de atraso.

É que, curiosamente, Sampaio esteve no centro de conspirações históricas dentro do PS, a primeira cozinhada no sótão de António Guterres contra o então secretário-geral Mário Soares (que não vingou) e a segunda, como vítima, quando Guterres conspirou contra a sua própria liderança, depois da segunda maioria de Cavaco Silva. Sampaio não queria abandonar o cargo, mas na noite eleitoral Guterres apeou-o desse caminho ao largar na sede do PS um corrosivo: “Estou em estado de choque”. Foi o fim da liderança de Sampaio e o início da era Guterres no PS. A frase expôs o que já reinava dentro do partido, a guerra entre sampaístas (onde estava António Costa) e guterristas.

António Guterres até foi um dos socialistas de peso que, não podendo estar presente da cerimónia, enviou uma mensagem a Sampaio para sublinhar a “ultra merecida homenagem”. Não ouviu, por isso, a tirada da conspiração do ex-Presidente que admitiu ter “sofrido muito” e também ter tido “alguns êxitos” ali na sede do Rato, que escolheu, entre as opções que Costa lhe colocou, para celebrar a data. “Só me esqueci das escadas”, gracejou Sampaio que apresenta dificuldades de mobilidade e que discursou sentado, ao lado de António Costa.

É um homem “tranquilo, fleumático e britânico”, descreveu o líder socialista que lhe destacou ainda a capacidade de se manter ativo, concretamente na Plataforma Global de Apoio a Estudantes Sírios, a que Sampaio preside. Um desses estudantes discursou até no início da homenagem que concentrou, nos jardins da sede do PS em Lisboa, as mais altas figuras do partido. Na primeira fila estava Manuel Alegre, o presidente socialista Carlos César, Ferro Rodrigues e a secretária-geral Adjunta Ana Catarina Mendes. Entre a assistência estava ainda Jorge Coelho, Vera Jardim ou Vital Moreira, além de alguns membros do Governo, como Francisca Van Dunem, Tiago Brandão Rodrigues ou Pedro Nuno Santos. E também o presidente da Câmara de Lisboa (cargo que Sampaio também ocupou), Fernando Medina.

Para os que se seguem no partido, Sampaio deixou o conselho de “descobrir novas formas de agir e de mobilizar os que têm de ser mobilizados no interesse pela coisa pública”. E também na economia, o ex-Presidente que nessas funções um dia avisou o Governo (de Durão Barroso) que “há vida além do défice”, Sampaio aconselha agora que se saia do “circuito Wshington-Cambridge-Harvard. De tudo o que significa o grande consenso adaptado a uma espécie de forma fechada de ver como o capitalismo financeiro vai tratar das crises”. Para o ex-Chefe de Estado essa será “obviamente a mesma maneira com que sempre tratou, com pequenos retoques”.