Kodi Lee ganhou o America’s Got Talent. Dito assim, parece apenas mais uma vitória normal de alguém que se destacou no maior concurso televisivo de talentos do mundo, com réplicas por dezenas de países. Mas desta vez foi muito mais que isso. Kodi, de 22 anos, nasceu cego. E é autista. A sua primeira audição, quando mal se conseguia expressar, foi uma surpresa. O triunfo confirmou apenas que não só é um verdadeiro artista mas, também um enorme exemplo. Mais do que o milhão de dólares que leva para casa, Kodi Lee deixou milhões de lições no palco.

Comecemos pelo início, para quem não segue o programa, que para já ainda não é transmitido em Portugal e só está disponível online. A tal primeira audição de Kodi Lee nesta 14ª. temporada do AGT, há três meses. O rapaz entrou no palco muito hesitante, segurando o bastão que acompanha os cegos, e acompanhado pela mãe, Tina. Nos bastidores, ao lado do apresentador, Terry Crews, ficavam o pai e os irmãos, muito nervosos. Kodi posicionou-se no X central do palco e foi entrevistado pela atriz Gabrielle Union, um dos quatro membros do júri, ao lado da dançarina Julianne Hough, outra das novidades deste ano, e dos já veteranos Howie Mandell e Simon Cowell (o criador do formato).

Percebeu-se que era a mãe que lhe sussurrava as palavras. Ele conseguiu responder de uma forma estranha a perguntas sobre como se chamava, quantos anos tinha — e disse que ia cantar e tocar piano. Com as dificuldades da voz e o corpo a fazer os movimentos característicos dos autistas, as câmaras mostraram desconfiança no rosto dos jurados e perplexidade no público. A mãe explicou então  que a música foi a salvação do filho, a única forma pela qual se conseguia expressar, que o deixava sempre de olhos arregalados, e que o apoiou a tocar e a cantar a partir daí.

Rapidamente se encontraram vídeos de Kodi a tocar em bares e com amigos, com a sua ‘espécie’ de banda, mas o melhor estava para chegar.

Na audição do programa onde se revelaria ao mundo, Kodi seguiu, depois, para o piano, sempre ajudado pela mãe, que o ia confortando com frases ao ouvido e lhe dizia para ignorar as câmaras e as pessoas. Simon Cowell revelou, agora, que essa audição demorou quase duas horas — quando não costumam levar mais de 15 minutos — e que ele chegou a pensar pedir para voltarem no fim.

Mas de repente, perante a expectativa de todos, Kodi começou a tocar como se não tivesse qualquer incapacidade física. E começou a cantar como se não tivesse nenhum problema de desenvolvimento como é o autismo.

Aliás, muitos fecharam os olhos só para o ouvir como um simples (e grande) artista. Logo às primeiras notas e às primeiras palavras de “A Song for You”, de Donny Hathaway, viu-se Simon Cowell de boca aberta. Depois, com Kodi a dizer os versos sem qualquer dificuldade nas palavras e atingir as notas mais altas e os falsetes de forma incrível, houve lágrimas e aplausos.

No fim, Gabrielle deu-lhe o botão dourado que permite passar diretamente aos ‘live shows’ sem enfrentar as outras eliminatórias. O vídeo (ou vídeos) da prova tem milhões e milhões de visualizações. Nascia uma estrela.

A partir daí, Kodi, o rapaz do Utah, nunca mais parou. As suas atuações, uma a uma, revelaram-se sucessos atrás de sucessos.

Voltou com “Bridge Over Troubled Water”, de Simon & Garfunkel, e tocou depois, de forma muito emocional , “We Are The Reason”, de Calum Scott, nas meias-finais, sendo ovacionado de pé. Chegou assim, sem surpresas, à final.

Interpretou “Lost Without You”, de Freya Ridings, e novamente “You Are The Reason”, de Calum Scott, num dueto com Leona Lewis. A partir daí, poucos já duvidavam do seu triunfo.

Não é possível dizer o quanto Kodi soube ou saberá valorizar a vitória, mas a sua felicidade era evidente enquanto saltava no palco.

E de repente, mais que um novo talento, a América tinha dado ao mundo um grande exemplo.