No início de março, Florentino Pérez decidiu que a aposta em Santiago Solari — temporária numa primeira fase, logo após a saída de Lopetegui, e definitiva semanas depois graças aos bons resultados iniciais — tinha chegado ao fim. Aquela que foi retratada como a “semana trágica do Real Madrid”, em que o clube foi eliminado da Taça do Rei com o Barcelona e ainda da Liga dos Campeões com o Ajax, não poupou o treinador argentino que chegou para tentar restaurar a identidade merengue. Solari saiu e os nomes para o substituir atropelaram-se desde logo — com Mourinho à cabeça, com a possibilidade de Raúl subir à primeira equipa, com os italianos Antonio Conte a Massimiliano Allegri a surgirem novamente como hipóteses, como já o haviam sido na altura em que foi Lopetegui o escolhido.

Para surpresa (ou não) do panorama do futebol europeu — e para alegria generalizada dos adeptos do Real Madrid –, Zidane aceitou voltar. Nove meses depois de ter deixado o comando técnico dos merengues “para não fazer asneiras”, nas palavras do próprio, o francês aceitou a proposta de Florentino Pérez para regressar ao sítio onde conquistou três Ligas dos Campeões consecutivas e recuperou uma imagem galáctica que há muito não pairava no Santiago Bernabéu. No final da temporada passada, já não conseguiu fazer milagres: restringido apenas à liga espanhola, limitou-se a fazer uma espécie de damage control e terminou em terceiro, atrás do campeão Barcelona e do Atl. Madrid.

Passou o verão. E neste verão, o Real Madrid gastou um valor recorde de 303 milhões de euros em novos jogadores. Chegou o eterno prometido Hazard, chegou o já contratado Éder Militão, chegaram Mendy e Jovic e Zidane pediu, logo numa das primeiras conferências de imprensa, a contratação de Paul Pogba. Para o treinador francês, a garantia de um elemento para o meio-campo, forte tanto tecnicamente como fisicamente, era fulcral para as ambições merengues para esta temporada e o eleito era o jogador do Manchester United, que nunca escondeu a pretensão de trocar Inglaterra por Espanha. O acordo foi dificultado pelos red devils e Zidane abriu o livro e apontou outras hipóteses à direção: o holandês Van de Beek, do Ajax, o dinamarquês Eriksen, do Tottenham, e Bruno Fernandes. Nenhum assinou pelo Real Madrid e os merengues começaram a temporada com um plantel visivelmente desequilibrado que integra oito defesas, dez avançados e apenas seis médios.

Ainda assim, as expectativas para esta temporada, muito graças a Zidane e a Hazard, eram — e são — elevadas. Os adeptos do Real Madrid voltaram a olhar para a Liga dos Campeões como uma página em branco, a liga espanhola é novamente um objetivo e as restantes competições internas estão no leque de possibilidades. O problema é que, desde a saída de Zidane em maio do ano passado, o clube espanhol vive embrulhado numa espécie de Lei de Murphy em que tudo corre mal mesmo quando existem todas as condições para que corra bem. Depois da goleada com o Atl. Madrid, ainda na pré-época, o Real Madrid ainda não perdeu para o Campeonato mas já empatou duas vezes em quatro jogos, uma delas em casa, e sofreu esta quarta-feira uma pesada derrota em Paris, com o PSG, na primeira jornada da Champions (3-0). O desaire frente aos franceses levou os jornais espanhóis, já a partir desta quinta-feira, a avançarem com a possibilidade de uma saída de Zidane numa fase ainda embrionária da época.

O desgaste do treinador francês começou ainda a meio do verão, quando descartou desde logo Gareth Bale e garantiu que o galês iria sair. Ora, Bale ficou, é titular e tem sido um dos elementos em maior destaque nos merengues. Depois, James Rodríguez: Zidane também deixou bastante claro que não contava com o colombiano, que regressou de empréstimo ao Bayern Munique, mas a verdade é que o avançado ex-FC Porto tem jogado e parece estar num interessante momento de forma. Além disso, o técnico está a ser acusado do subaproveitamento das contratações — que custaram então um valor recorde aos cofres merengues –, já que só Hazard entrou de forma direta para o onze inicial. Zidane tem preferido optar pela coluna vertebral que lhe garantiu a vitória europeia em três anos seguidos (Sergio Ramos, Marcelo, Modric, Kroos e Benzema) e apagou ou enfraqueceu as apostas feitas por Solari (Marcos Llorente saiu para o Atl. Madrid, Reguilón está emprestado ao Sevilha, Vinícius saiu das opções iniciais).

O vórtice negativo acelerado por diversos fatores — incluindo uma espécie de praga inexplicável de lesões, na sua maioria musculares — parece ter retirado a Zidane a quase imunidade de que o treinador beneficiava durante o primeiro período no comando técnico merengue e terminou com um quase endeusamento à volta do técnico. Em Espanha, já se discutem substitutos: o mesmo Mourinho, o mesmo Raúl, o mesmo Allegri. Mas o treinador português, que está sem clube desde dezembro do ano passado, já descartou a hipótese de um regresso, ao explicar que “foi uma honra” trabalhar no Real Madrid mas que “não gostaria de voltar a treinar” o clube porque “têm treinador”. Mourinho não parece interessado em voltar ao Santiago Bernabéu e o Santiago Bernabéu também não está muito interessado numa viagem ao passado, já que na última Assembleia Geral do clube um sócio assobiou quando o nome do técnico foi mencionado.