O empregado do mês também é aquele que agarra na batata quente. Certo, Haris? (a crónica do Moreirense-Benfica)

A perder por 1-0 com o Moreirense a cinco minutos do final em mais um jogo aquém, Seferovic assistiu o MVP Rafa para o empate e marcou o golo da reviravolta (2-1) – assim voltou o empregado do mês.

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Seferovic assistiu Rafa para o 1-1 e apontou o 2-1 da reviravolta à entrada do período de descontos do jogo com o Moreirense

Miguel Pereira/Global Imagens

Seferovic assistiu Rafa para o 1-1 e apontou o 2-1 da reviravolta à entrada do período de descontos do jogo com o Moreirense

Miguel Pereira/Global Imagens

Quando entrou para reduzir a desvantagem do Benfica frente ao RB Leipzig, num lapso de apenas oito minutos entre substituir Cervi e apontar o 2-1, Seferovic levou o dedo à boca mandando calar os adeptos que iam manifestando o seu desagrado sobretudo com o resultado frente à formação germânica. “Parece uma pessoa fechada ao público mas não é, ele é um indivíduo tranquilo, que está a viver o melhor momento da sua vida, que foi pai recentemente. Sinto que gosta muito de estar no Benfica e os adeptos também têm um carinho enorme pelo melhor marcador da época passada. O gesto nem era tanto para os adeptos, ele sente a equipa a marcar, a golear, a vencer e as perguntas que lhe fazem é dos golos. Foi mais uma reação desse tipo mas é claro que não deve ter, nem para os adeptos nem para ninguém”, justificou Bruno Lage, na antecâmara do jogo com o Moreirense.

Mais do que a derrota na estreia europeia diante dos germânicos, as opções do técnico, nomeadamente a colocação como titulares de Tomás Tavares, Cervi e Jota, levantaram muitas dúvidas em relação às reais prioridades dos encarnados na presente época. Por um lado, percebe-se que, para qualquer equipa portuguesa, o Campeonato será sempre o foco principal – numa visão que tem muito a ver com a forma como se encara o futebol por cá; por outro, tudo apontava para uma tentativa de afirmação das águias no plano europeu, não só numa vertente desportiva mas também de marca e financeira. “O nosso projeto, o nosso caminho é este. É importante que se perceba isto. Coloquei a melhor equipa para ganhar o jogo”, assegurou Lage. Todavia, era na questão dos avançados e dos golos que se centrariam as principais reflexões do técnico, quase que adivinhando o que se passaria à noite.

Raúl de Tomás, segunda contratação mais cara de sempre do Benfica, chegava a Moreira de Cónegos com 533 minutos entre Liga dos Campeões, Campeonato e Supertaça sem golos; Haris Seferovic, grande referência ofensiva dos encarnados na última época, tinha apenas dois golos em 540 minutos. “Isto não é atletismo…”, defendeu Bruno Lage, fazendo mesmo uma analogia entre o suíço e… um funcionário do McDonald’s: “Está numa situação em que parece que foi o empregado do mês no McDonald’s e no dia seguinte deixou queimar as batatas fritas e levou uma ‘dura’ do chefe. Se queremos jogar como equipa, com comportamentos defensivos e ofensivos, os avançados têm de correr muito. Vejam quanto correram os avançados do Atl. Madrid, do RB Leipzig… Estou muito satisfeito com o trabalho do Seferovic, atleta que corre tanto e marca 21 golos num Campeonato”.

Ao longo do encontro, Seferovic e Raúl de Tomás, as duas unidades mais ofensivas do Benfica, trocaram apenas uma bola entre si. E essa foi apenas a ponta do icebergue numa exibição que deixou a desejar dos encarnados, ao ponto de Mateus Pasinato não ter feito qualquer intervenção complicada ao longo dos 90 minutos. Mas se Rafa voltou a dar a cara como MVP de uma equipa com menos ideias, velocidade e ligação entre setores do que é habitual (sendo Pizzi o exemplo paradigmático dessa noite de menor inspiração), Haris Seferovic teve o mérito de mostrar que o empregado do mês não é apenas aquele que não deixa queimar as batatas fritas – também assume a batata quente quando é necessário. E foi da cabeça do suíço que saiu a assistência para o 1-1 e o golo que fez a reviravolta frente ao Moreirense por 2-1 em cinco minutos quando tudo parecia perdido.

Ficha de jogo

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Moreirense-Benfica, 1-2

6.ª jornada da Primeira Liga

Parque Desportivo Comendador Joaquim de Almeida Freitas, em Moreira de Cónegos

Árbitro: Artur Soares Dias (AF Porto)

Moreirense: Mateus Pasinato; João Aurélio, Iago Santos, Steven Vitória, Djavan (D’Alberto, 7′); Filipe Soares, Fábio Pacheco, Alex Soares; Luther Singh (Luís Machado, 75′), Bilel e Nenê (Fábio Abreu, 84′)

Suplentes não utilizados: Pedro Trigueira, Rosic, Ibrahima e Pedro Nuno

Treinador: Vítor Campelos

Benfica: Vlachodimos; André Almeida (Jota, 88′), Rúben Dias, Ferro, Grimaldo; Fejsa (Gedson Fernandes, 66′), Taarabt; Pizzi (Caio Lucas, 75′), Rafa; De Tomás e Seferovic

Suplentes não utilizados: Ivan Zlobin, Tomás Tavares, Jardel e David Tavares

Treinador: Bruno Lage

Golos: Luther Singh (48′), Rafa (85′) e Seferovic (90+1′)

Ação discplinar: cartão amarelo a Fábio Pacheco (19′), André Almeida (31′), Bilel (38′), Nenê (67′) e Taarabt (79′)

Com André Almeida, Rafa e Seferovic de volta à equipa inicial que voltou dessa forma à ideia original do início da temporada, o encontro começou sem grandes motivos de interesse, com azar para o Moreirense e tentativa de estudo por parte do Benfica: sem Djavan logo aos sete minutos, por lesão no ombro que obrigou à entrada de D’Alberto, os cónegos tiveram vantagem nos duelos e foram procurando transições rápidas sempre com uma grande preocupação na recuperação com Taarabt, como foi bem audível numa conversa do técnico Vítor Campelos com Filipe Soares. Com demérito dos encarnados à mistura, os minhotos conseguiram controlar as ações ofensivas do adversário até que um lance acabou por mudar as características do encontro.

Dentro do campo de dimensões mais reduzidas que Bruno Lage tinha falado, Rafa descobriu espaço mais encostado à linha do lado esquerdo para fazer a diagonal, encontrar Seferovic no meio para assistir Pizzi e o remate do internacional a sair às malhas laterais (15′). A primeira grande oportunidade, que coincidiu com o primeiro remate dos encarnados, nasceu de uma jogada ao primeiro toque, rápida e a fazer rodar a bola pelas principais referências ofensivas, que foi uma espécie de mote para a subida de linhas do Benfica (Fejsa teve dois lances onde andou no último terço a procurar roubar e intercetar bolas) e para mais lances de perigo junto da baliza de Mateus Pasinato, com Grimaldo a assumir protagonismo nas ações ofensivas.

[Clique nas imagens para ver os melhores momentos do Moreirense-Benfica em vídeo]

Nessa fase, e durante 15 minutos, parecia que o golo do Benfica era uma inevitabilidade mas o Moreirense conseguiu de novo inverter a tendência, colocando outra qualidade nas suas saídas com bola e conseguindo o primeiro remate com algum perigo quando Bilel atirou pouco por cima da trave da baliza de Vlachodimos (26′). Até ao intervalo, Seferovic ainda teve uma tentativa de cabeça que passou muito perto da baliza dos cónegos e Singh conseguiu a única tentativa enquadrada da primeira parte nos descontos (45+1′) mas ficava a nota das dificuldades que a boa organização coletiva dos visitados conseguia colocar a uma equipa encarnada que costuma revelar uma enorme facilidade na criação de oportunidades – o que não estava a acontecer.

No segundo tempo, e quando as atenções estavam ainda centradas na condição física de Rafa que tinha acabado a primeira parte ainda com queixas após uma entrada de Bilel que valeu cartão amarelo, o Moreirense entrou logo a ganhar um canto, continuou a apostar no jogo pelos corredores laterais para criar desequilíbrios e conseguiu mesmo inaugurar o marcador no segundo remate enquadrado com a baliza do jogo: Bilel combinou com D’Alberto na esquerda, o lateral cruzou para a área, o primeiro corte falhou e Luther Singh, sozinho ao segundo poste, rematou cruzado sem hipóteses para Vlachodimos (48′). E o encontro podia ter ficado ainda mais complicado para o Benfica caso Nenê tivesse pegado melhor na bola num pontapé acrobático na área (52′).

O encontro estava complicado para o Benfica e a ansiedade do passar dos minutos em nada ajudava na missão de criar chances para chegar ao empate. Bruno Lage lançou Gedson Fernandes no lugar de Fejsa, trocou Pizzi (muito apagado durante todo o jogo) por Caio Lucas mas as dificuldades para entrar no último terço continuavam a ser notórias, havendo apenas um remate perigoso de Raúl de Tomás ao lado numa noite calma para Mateus Pasinato, que não teve de fazer qualquer intervenção apertada mesmo no período em que se esperava uma maior pressão dos encarnados. No entanto, e em cinco minutos, tudo mudou: após um longo cruzamento de Rúben Dias desviado por Seferovic na área, Rafa fez o 1-1 de cabeça (85′) para, cinco minutos depois, o suíço dar o melhor seguimento a um cruzamento do recém entrado Jota e consumar uma inesperada reviravolta no Minho.

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