O que ali estava a acontecer era tão inusitado quanto sintomático do que é o Iminente. Uns metros ao lado, o público assistia ao concerto do “cabeça de cartaz” da noite, o norte-americano Common, rapper com tantos anos de hip-hop e tantos pergaminhos na música norte-americana que só por subalternização deste tipo de música (e desatenção generalizada durante tantos anos) se pode explicar que nunca tivesse atuado em Portugal. Uns metros ao lado, a banda sonora era a mesma, mas o espetáculo era outra.

Por entre as paredes graffitadas e pintadas do interior do miradouro (que já foi restaurante e discoteca) do Panorâmico de Monsanto, um grupo de B-Boys aproveitava para fazer uma “battle” de breakdance. Maioritariamente homens, com (apenas) uma mulher no grupo, iam girando agilmente sobre braços e mãos, pés no ar e movimentos circulares pouco aconselháveis a corpos de chumbo. Dificilmente haveria imagem mais clara do que distingue o Iminente de outros festivais como aquele. Desde logo porque o Iminente não se foca só na música e concertos, tem “um equilíbrio bastante grande entre artistas visuais e musicais, tendo todas as culturas [do hip-hop] no mesmo espaço” e juntando concertos a peças de Akacorleone, Tamara Alves e ± maismenos ±, por exemplo, como explicava Tiago Silva à Rádio Observador.

Cada um aproveitava como queria a banda sonora e, imediatamente à frente do palco, era o balanço do corpo — menos virtuoso e espetacular, não é B-Boy quem quer — a ditar regras. Afinal, à frente estava uma instituição do hip-hop dos anos 1990 e 2000, que conseguiu contornar a veterania mantendo-se incisivo — até no plano exterior à música, com um posicionamento marcado sobre os EUA e sobre aquilo de que o hip-hop tanto se debruçou em tempos, a organização da vida comum e quotidiana, a dureza das ruas e das desigualdades diariamente sentidas. Tem-no feito também com canções, rodeando-se de colaboradores escolhidos a dedo (veja-se esta magnífica sessão ao vivo na Casa Branca) e lançando discos dignos do estatuto de referência do hip-hop, os últimos dos quais Nobody’s Smiling, de 2014, o mais do que recomendável Black America Again, de 2016, August Greene, lançado com os músicos e produtores Robert Glaser e Karriem Riggins em 2018, e Let Love, este editado há menos de um mês.

Durante um pouco mais de uma hora, quem se deslocou ao Panorâmico de Monsanto e ao Festival Iminente — e estavam lá alguns intervenientes importantes do hip-hop e da música lusófona, como Sam the Kid, Kalaf Epalanga, Selma Uamusse ou DJ Big, por exemplo — foi transportado para um outro tempo do hip-hop, em que era a perícia das rimas e o talento mostrado ao microfone que garantiam credibilidade. Não se trata de saudosismo: no hip-hop dos últimos anos, a evolução da originalidade das batidas instrumentais tem sido enorme e é bem-vinda a ideia de que rappers como Common podem coexistir com artistas que têm valências distintas, que têm na produção musical e no canto, não na palavra, a sua estratégia de revolução.

Common faz da sua música campo aberto para que confissões íntimas e crítica social se misturem e deem bons frutos. Acompanhado por uma banda que, tal como em disco, leva as suas rimas e cantorias (graças também a uma vocalista feminina que o acompanhou ao vivo) para um terreno soul que se apropria do jazz mais melódico, Common foi intercalando canções com momentos de freestyle a capella, por vezes improvisando até sobre coisas que lhe tinham acabado de acontecer — uma demonstração de talento lírico nato, portanto —, como conhecer em palco uma mulher angolana, rapper e escritora.

Originário de uma era em que o rap não era tanto quanto o é hoje uma via para a fama e enriquecimento, Common lembrou que foi “chamado” para a música, atraído para a música, que o compeliu a escrever a “primeira rima aos 12 anos”. Era um “rapaz do sul de Chicago” que, lembrou, graças ao hip-hop visitou vários países, chegando agora a Portugal. “Quem diria que o hip-hop me levaria tão longe”, disse, mostrando que o sucesso foi mais consequência do que plano. “Até cheguei à Casa Branca, para me encontrar com o primeiro presidente negro dos EUA, Barack Obama”.Vai daí começa a recitar o que se lembra dessas primeiras rimas escritas aos 12 anos, conseguindo o possível, “é tudo o que me lembro”.

“Quantos amam a música hip-hop?”, perguntou primeiro, logo acrescentando, talvez também por estar no sítio certo para o fazer, “e quantos amam a cultura hip-hop?”. Não eram poucos, até porque os bilhetes diários para esta sexta-feira, certamente muito por culpa dele, esgotaram em apenas dois dias.

“Come Close”, tema resgatado ao longínquo ano de 2002 e gravado com Mary J. Blige, foi um dos momentos altos, num concerto e lição de história do hip-hop a que não podiam faltar também “Go!” (tema que deu nome a um dos seus mais marcantes álbuns, editado em 2005), “The Light” ou “Get ‘Em High”, que gravou com Talib Kweli e Kanye West para o primeiro álbum editado por “Ye”, The College Dropout. Acabou a disparar com a “liderança americana” de Trump como alvo, que não o satisfaz “enquanto americano e negro”. Todos “podemos fazer melhor”, dizia Common. Talvez, mas um pouco de juízo, não nos meçamos com o sr. hip-hop, por favor.

A “sensualidade feminina” da “Manga” de Mayra de Andrade

Antes de Common, já se tinham ouvido artistas como David Bruno — com um novo álbum, Miramar Confidencial, acabado de editar —, o histórico Large Professor ou o emergente Pedro Mafama. E ouvir-se-iam ainda o promissor português Mike 11 e batidas de dança com o tropicalismo urbano de Shaka Lion e a afro-festa de DJ Firmeza. Mas o outro momento de união e grande comunhão coletiva do segundo dia de festival aconteceria à chuva e ao som de Mayra Andrade, que deu (mais um) concerto exímio como é seu apanágio.

Vestida de branco, acompanhada por uma banda que tem funk e mornas — mas também uma melancolia doce que a percussão tinge de calor — nas mãos e nos instrumentos, Mayra Andrade passou por muitos temas de Manga, o seu mais recente álbum, com destaque para “Tan Kalakatan” (o tema com o qual se apresentou recentemente na plataforma musical Colors, estendido no Iminente com doses de auto-tune cósmicas), a dançante “Pull Up”, a cantiga de saudade “Vapor di Imigrason” — que revelou ter escrito aos 17 anos, quando se mudou sozinha de Cabo Verde para Paris, momento em que começou a perceber o porquê da emigração e da saudade de casa serem temas tão presentes na música do seu país — e “Segredu”.

A chuva caíu e levou alguns espectadores a procurarem refúgio, mas foram muitos os que ficaram. Quem aguentou, aguentou para dançar — e para ouvir Mayra falar ainda da sensualidade feminina e de uma relação à distância que inspiraram a canção “Manga” e da sensação de que a o acrescer da idade traz inesperadas melhorias (a quem tem menos de 30 anos e receia envelhecer, deixou uma mensagem: “despreocupem-se”). No fim, ficou confirmada a impressão de que não só Manga é um dos melhores álbuns lusófonos editados este ano, como Mayra Andrade está cada vez mais capaz de fundir tradição com modernidade, ritmos antigos com uma abordagem às canções, ao canto e aos arranjos que é cada vez mais sua e de mais ninguém. E ao vivo tudo isto é uma festa despudorada e descomplexada, celebração afro-lusa elaborada ao detalhe, eficiente ao máximo.