O comentador da SIC, Luís Marques Mendes, disse que, embora ainda não tenham sido apurados todos os resultados das eleições na Madeira, tudo aponta para que haja uma “mudança histórica” no arquipélago.

“Há uma mudança histórica na Madeira. Acabam as maiorias absolutas de um só partido, que existiram durante 40 e tal anos. É uma mudança histórica e estrutural”, disse. “Não acredito que nos próximos anos, alguém consiga voltar a ter maiorias.”

As projeções iniciais “apontam para uma fortíssima bipolarização entre PS e PSD, o que era previsível”. Para Marques Mendes, a novidade destas eleições “é a esquerda”. “O PS durante 40 anos teve sempre fracos candidatos. Desta vez foi diferente”, apontou. Com o crescimento do PS, os pequenos partidos, “sobretudo à esquerda, são engolidos, vítimas desta bipolarização”.

Caso o PSD vença, “há um mérito” do partido, “porque há um fator resistência”. “Ao fim de 40 anos e do desgaste do poder e, nestes anos em que houve um programa de assistência, aguentar e conseguir ganhar é ótimo”. Neste cenário, o ainda presidente do governo regional, Miguel Albuquerque, teria “mérito” porque “uniu o partido”. “Resta saber se com o CDS consegue ter os 24 deputados indispensáveis para fazer coligação de governo.” E se isso não acontecer? “Pode acontecer uma geringonça à esquerda”, atirou Marques Mendes, caso os partidos mais pequenos tenham conseguido sobreviver a “esta bipolarização”.

O PS tem agora, na visão do comentador, “dois sentimentos contraditórios”: ” Faz o seu melhor resultado eleitoral de sempre” e, por isso, “pode cantar satisfação”, mas “a aposta do PS não era ter o melhor resultado de sempre, era ganhar. (…) Se não ganhar tem uma forte desilusão”.

Marques Mendes considera ainda que os resultados na Madeira “não têm efeito nacional”.

Debates? Rui Rio “ganhou claramente”, António Costa fez-se “de morto”

Sobre os debates entre os líderes partidários, Marques Mendes considerou que Rui Rio esteve “assim-assim”, mas “teve o seu momento alto no debate com António Costa”, na última segunda-feira. O líder do PSD “ganhou claramente”, diz o comentador, porque “esteve ao ataque, teve iniciativa, foi assertivo, e colocou António Costa à defesa”. Além disso, “centrou-se em três temas que são os calcanhares de Aquiles do Governo”: impostos, saúde e crescimento económico. Já António Costa “cumpriu o seu guião, que, em grande medida, é fazer-se de morto”.

Já Jerónimo de Sousa “não marcou propriamente pontos nos debates”, enquanto Catarina Martins teve “altos e baixos” — esteve “mal nalguns debates, por exemplo com António Costa. Não foi acutilante como devia ser”. Assunção Cristas, por sua vez, “foi sempre muito igual, pela positiva”. Foi “a mais combativa e manteve um padrão”. E André Silva “tirando questões dos animais, é um susto, muito impreparado nas outras matérias”.

Marques Mendes acrescentou ainda que a “maioria absoluta não está alcançada nem de longe nem de perto”.

Demissão de secretário de estado da Proteção Civil foi “tardia” e pela “porta dos fundos”

O comentador da SIC defendeu que a demissão do secretário de Estado da Proteção Civil foi uma “demissão tardia, inevitável”, acrescentando que se José Artur Neves tivesse saído em agosto, quando a polémica das golas antifumo estalou, “teria saído pelo seu pé e com dignidade”. “Assim, saiu pela porta dos fundos, empurrado pela Justiça e pelo Ministério Público.” Esta demissão “tardia” é, defende Marques Mendes, também culpa do primeiro-ministro, que empurrou o tema “com a barriga” e, por isso, tem agora um “desgaste em período eleitoral”.

José Artur Neves demitiu-se depois de desencadeadas buscas, na quarta-feira, pelo Ministério Público a vários pontos do país na sequência do escândalo das golas inflamáveis.

Questionado sobre o parecer do Conselho Consultivo da Procuradoria-Geral da República — que disse não haverem incompatibilidades nos casos noticiados de familiares de membros do Governo que têm negócios com entidades do Estado — Marques Mendes considerou que se tratou de “uma vitória” para António Costa.

Ainda assim, deve ser feita uma “reflexão”, porque “em todos os governos há sempre problemas” de incompatibilidades e conflitos de interesses com governantes. “Isto mina a confiança das pessoas na política. Veja-se o caso de Manuel Pinho [ex-ministro da Economia]. Ainda hoje não está esclarecida a relação com o BES.”

Marques Mendes sugeriu, por isso, que os ministros e secretários de Estado passem obrigatoriamente por uma audição parlamentar, “um escrutínio”, para garantir que não há incompatibilidades resultantes do passado pessoal e profissional. “Se saírem limpinhos dessa audição, ficam reforçados e, com isso fica reforçada democracia.”

Sobre a decisão da Universidade de Coimbra de proibir a carne de vaca, Marques Mendes disse tratar-se de uma “medida de enorme  hipocrisia”, cuja grande preocupação “não foi ambiental”, mas “economicista. “A grande razão por que o reitor toma esta medida é para poupar dinheiro.”