O valor é astronómico, mas foi aquele que o Barcelona chegou a calcular como sendo o necessário para tirar Neymar Jr. de Paris e o levar de volta para a Catalunha: 700 milhões de euros. Era esse o custo que o futebolista brasileiro teria para o Barcelona, incluindo-se aqui o que custaria a transferência, o salário que o brasileiro iria auferir durante cinco anos (acima dos 30 milhões de euros limpos por ano), as comissões pagas no negócio e o valor dos impostos que ficariam a encargo do clube catalão. A notícia é dada pelo jornal El Mundo, que não só falou com elementos do círculo próximo dos envolvidos no negócio (incluindo Neymar Jr.) como acedeu a documentos contratuais enviados — com algum conteúdo rasurado — pelo PSG à Justiça Espanhola.

A história é contada na íntegra pelo jornal espanhol. Inicialmente, refere o El Mundo, o PSG exigiu 300 milhões de euros a possíveis compradores e potenciais interessados, que viriam a ser o Real Madrid, o Barcelona (em parte, por sugestão expressa de Leo Messi) e até a Juventus, que não terá estado verdadeiramente interessada mas que o pai do jogador e empresário, Neymar da Silva Santos, terá tentado aliciar.

A posição de intransigência e a vontade de manter o jogador por parte do clube francês — que considerava uma eventual saída uma humilhação para o clube — era tanta que a cedência no preço começou por ser de apenas dez milhões de euros: “Não estão dispostos a pagar 300? Não há problema, [fica por] 290”, terá dito um porta-voz do clube ainda em maio, quando o mercado não estava aberto mas já existiam movimentações para encetar transferências de atletas.

Os dois grandes interessados na contratação do extremo brasileiro, o Barcelona e o Real Madrid, tinham como grande objetivo baixar o custo dos direitos desportivos e económicos de Neymar Jr. recorrendo à inclusão de jogadores seus no pacote negocial. O PSG começou por recusar insistentemente a hipótese, dizendo que já tinha “futebolistas suficientes” e queria “dinheiro”, mas acabou por ver com bons olhos a hipótese de receber alguns jogadores: o brasileiro Vinicius, o costa-riquenho Keylor Navas e o colombiano James Rodriguez, do Real Madrid, e o francês de Ousmane Dembélé e o português Nélson Semedo, do Barcelona.

De Bale, os franceses não quereriam nem ouvir falar, segundo o jornal espanhol. A relação qualidade-custo do galês, que aufere um salário astronómico, tê-lo-á tornado um ativo tóxico no mercado para os principais clubes europeus. Tanto assim é que acabou por ficar no Real Madrid, quando o desejo assumido dos dirigentes blancos era a venda do jogador.

Um dos aspetos mais curiosos de todo o processo, revelado pelo jornal El Mundo, é a postura do pai de Neymar, que terá telefonado várias vezes ao presidente do Barcelona, Josep Bartolomeu, para lhe dizer que Neymar queria voltar ao Barcelona para jogar de novo com Messi e Suárez no ataque. Ao mesmo tempo que piscava o olho ao Barcelona, o progenitor de Neymar, que tem direto a 10% do salário líquido do jogador e uma comissão de 10% do custo de qualquer transferência, oferecia-o ao Real Madrid e à Juventus. Segundo um “antigo colaborador seu” citado pelo mesmo jornal, Neymar “queria sair a todo o custo, não gosta de Paris e apercebeu-se que não vai encontrar em mais lado nenhum o ambiente que tinha em Barcelona”.

O clube catalão só se terá interessado verdadeiramente por Neymar por exigência da estrela do clube, Messi, que terá dito ao presidente do clube catalão que “com ele seremos mais competitivos, é um jogador que aguenta muito bem a pressão e precisamos dele”. Também Suárez terá feito “uma exigência pessoal” a Bartolomeu para que contratasse o brasileiro, o que levou o Barcelona a interessar-se mais pelo jogador do que o Real Madrid, que se manteve expectante. A expectativa deveu-se ao clube madrileno estar “escaldado” com o brasileiro: segundo o El Mundo, em 2011 os merengues tiveram um pré-acordo com o Santos pela transferência de Neymar, mas quando estava tudo praticamente acertado o empresário e pai do jogador roeu a corda, fazendo exigências  de última hora.

Nélson Semedo “não se mostrou interessado” em ir para Paris

O lateral português Nélson Semedo ter-se-á mesmo deparado com a hipótese de se mudar para Paris, mas de acordo com o El Mundo quer Semedo quer Dembelé “não se mostraram interessados”. Houve outro motivo para nenhum dos clubes espanhóis ter avançado para Neymar: uma lesão que o futebolista brasileiro teve em março do ano passado, quando fraturou o quinto metatarso do pé direito durante um jogo que o PSG disputou contra o Marselha.

A lesão, em si, é reversível — e Neymar até voltou a jogar. No entanto, depois de uma recaída em janeiro deste ano, existem dúvidas de que a intervenção cirúrgica (feita no Brasil por ordem do pai de Neymar) tenha corrido bem. O valor exigido pelo PSG, no entanto, torna o investimento “altamente arriscado”, segundo alguns especialistas clínicos consultados pelos clubes espanhóis.

Outra curiosidade é uma cláusula, também chamada de “bónus ético”, que o PSG paga a Neymar: de acordo com o El Mundo, o clube francês investe todos os anos cinco milhões de euros por bom comportamento do jogador dentro e fora de campo. As práticas recomendadas são aliás detalhadas no contrato: Neymar tem de “ter um comportamento exemplar, ser pontual, não questionar as decisões táticas do treinador e não criticar publicamente os profissionais e os adeptos do PSG”.