“O Grupo Thomas Cook, incluindo a operadora de viagens e a companhia aérea britânica, deixam oficialmente de operar com efeitos imediatos”. Foi com esta mensagem que mais de 600 mil clientes do histórico operador turistico britânico acordaram nesta segunda-feira e perceberam que os voos que tinham marcado seriam, muito provavelmente, cancelados e que as reservas que tinham feito em hotéis poderiam ficar sem efeito. A notícia lançou o pânico um pouco por todo o mundo: aeroportos em estado caótico, hotéis preocupados com os pagamentos, planos cancelados e milhares de pessoas encurraladas nos seus destinos de férias.

As histórias começaram a chegar aos vários meios de comunicação social logo depois do anúncio da falência. Entre casamentos adiados, informações dadas apenas através do Twitter e confusão nos hotéis, houve também funcionários da agência de viagens a protagonizarem alguns momentos de despedida, uma vez que o encerramento da Thomas Cook coloca também em risco mais de dez mil postos de trabalho.

A empresa, com 178 anos de atividade, tinha previsto assinar esta semana um pacote de resgate com o seu maior acionista, o grupo chinês Fosun, estimado em 900 milhões de libras (1.023 milhões de euros), mas tal foi adiado pela exigência dos bancos de que o grupo tivesse novas reservas para o inverno.

As dificuldades financeiras da empresa acumularam-se no ano passado, mas em agosto foram anunciadas negociações com o grupo chinês Fosun, que detém múltiplos ativos a nível mundial, nos setores de saúde, bem-estar, turismo (como o Clube Med), financeiro e até futebol (o clube inglês Wolverhampton Wanderers, treinado pelo português Nuno Espírito Santo). Só que não foi o suficiente e declarou falência imediata.

Empresa deixa hospedeira de bordo a 300 quilómetros de casa

Elizabeth Evans viajou com o Marido de Manchester num dos últimos voos que a companhia aérea da Thomas Cook realizou. “Foi um dia triste, eles [funcionários] aterraram e descobriram que ficaram sem emprego”, conta Elizabeth ao The Telegraph, acrescentando que o piloto continuava a agradecer aos colegas durante a viagem. “Foi triste vê-los chorar quando estávamos a sair do avião. Uma das hospedeiras esteve 22 anos na empresa para agora acabar assim”, lamentou. Os passageiros deste voo, no entanto, destacaram o profissionalismo dos funcionários depois de receberem a notícia, uma vez que “continuavam com um sorriso na cara”.

Noutro voo, houve até um grupo de passageiros que juntou algum dinheiro e deu-o aos funcionários, depois de saberem que o mais provável é que tanto pilotos como hospedeiros fiquem sem emprego e sem receber o salário deste mês. “Os funcionários ficaram muito emocionados, principalmente quando o saco com o dinheiro foi entregue”, contou o casal Geraldine e Adam Cartwright também ao The Telegraph.

Familiares e amigos de funcionários demonstraram também o seu descontentamento com a forma como a empresa os terá “abandonado” depois de encerrar. “A minha namorada era hospedeira de bordo com a Thomas Cook. Tomou conta dos passageiros ontem à noite sabendo que não seria paga. Perdeu o emprego e a empresa abandonou-a em Newcastle para que depois encontre forma de voltar para Cheshire [a quase 300 quilómetros]. Outros funcionários foram expulsos dos hotéis durante a noite. Quem é que está a tomar conta deles?”, questionou um utilizador no Twitter.

Alguns comissários de bordo aproveitaram o seu último voo com a empresa para se despedirem e deixarem uma mensagem aos passageiros, que também retribuiram com aplausos.

“Não há funcionários da Thomas Cook para virem para cá e organizarem o casamento”

E se os funcionários da Thomas Cook não sabem qual será o seu destino a partir de agora, há planos que o encerramento súbito da agência de viagens também veio mudar, incluindo casamentos. Foi o caso de um homem chamado Thomas Cook (sim, o mesmo nome da empresa) que tinha casamento planeado em Rhodes, na Grécia.

“Por causa do meu nome, Thomas Cook, a empresa prometeu-nos uma surpresa para o nosso casamento, mas esta não era a surpresa que estávamos à espera”, explicou Thomas ao jornal britânico Nottinghamshire. Com este encerramento, Thomas e a noiva poderão nem casar, uma vez que os funcionários que iriam tratar de todos os detalhes — como as flores, a decoração e o próprio bolo de casamento — iriam chegar através da Thomas Cook, a empresa. “Não há funcionários da Thomas Cook para virem para cá e organizarem o casamento”.

Mas a história de Amelia e Thomas não foi a única afetada pelo encerramento da empresa. Também Ruth Morse viu o seu casamento e o seu sonho desde pequena ser colocado em risco. Depois de gastar milhares de euros para realizar a cerimónia no Chipre, e levar toda a família — tudo organizado pela Thomas Cook –, os planos parecem ter sido arruinados.

Ao programa televisivo “Victoria Derbyshire”, Ruth contou que o casamento está a ser planeado há dois anos, depois de o seu irmão ter morrido num acidente de viação (e que tinha como grande sonho levar a irmã ao altar). Era suposto os 44 convidados voarem para o Chipre no dia 8 de outubro e o casamento ser no dia 14.

Já Scarlett, também no Twitter — numa publicação que, entretanto, foi apagada –, queixou-se de que a companhia aérea não pagou ao hotel que iria receber os convidados do seu casamento, mesmo tendo feito um depósito à Thomas Cook. Como consequência, o hotel informou que nada foi pago atempadamente e que as reservas iriam ser canceladas. O mesmo estabelecimento informou ainda que não está mais a receber clientes da Thomas Cook.

https://twitter.com/Scar198607/status/1176173547594690565

As férias estragadas e os clientes que os hotéis não deixam sair

Para os clientes da Thomas Cook que já estão nos seus destinos de férias ou que já tinham tudo programado, há também um problema extra que veio complicar ainda mais a situação: a situação financeira da empresa afetou os que gozam pacotes de férias organizados pela operadora de viagens e que não conseguiram sair dos hotéis e resorts sem antes pagar a estadia, apesar de já terem feito o pagamento à Thomas Cook. 

“O Hotel Marhaba está a tentar garantir que vai ser pago pela Thomas Cook antes de deixar as pessoas sair do hotel e comer”, escreveu uma utilizadora no twitter esta segunda-feira.

À BBC, outra cliente, Danielle Rutheford, que está na Tunísia referiu que a gerência do hotel onde está hospedada ainda não lhe deu qualquer ordem destas, mas revelou estar com algum receio: “O hotel do lado fechou os portões e não deixa as pessoas sair”.

O que vai acontecer agora?

No comunicado publicado esta segunda-feira no site da empresa, a Thomas Cook garantiu que “o governo [britânico] e a Autoridade de Aviação Civil estão a trabalhar em conjunto para fazer de tudo para dar apoio aos passageiros que iriam voar de volta para o Reino Unido com a Thomas Cook entre 23 de setembro e 6 de outubro”. Esta terça-feira, a Autoridade de Aviação Civil britânica anunciou que quase 15 mil turistas já foram repatriados para o Reino Unido. Mas, e os restantes clientes da empresa?

Os vários países onde a Thomas Cook tem clientes, incluindo Portugal, já vieram assegurar que tudo está a ser resolvido. Na Alemanha, por exemplo, as companhias de seguro estão a tentar resolver a situação. Para os passageiros portugueses, a Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo (APAVT) disse não prever problemas de repatriamento de turistas portugueses, mas revela alguma preocupação com o caso das dívidas da Thomas Cook aos hotéis do Algarve.

Pedro Costa Ferreira, presidente da APAVT, começou por ressalvar à agência Lusa que a falência acabou de ser anunciada e os efeitos reais demoram a ser clarificados, e que é desconhecida ainda a dimensão dos efeitos na hotelaria nacional, mas admitiu que “haverá problemas de dívidas do grupo com os hotéis” e que esta falência “será nefasta para a região” do Algarve, uma vez que o operador é um dos maiores do mundo, detentor de agências de viagens e companhias de aviação, como a Condor, e só na Grã-Bretanha tem 560 balcões.

Ao jornal Expresso, Elidérico Viegas, presidente da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA), revela que a associação está a proceder ao levantamento das dívidas deixadas pela falência da Thomas Cook e informa que há “situações muito preocupantes, de dívidas avultadas em alguns hotéis que trabalhavam com a Thomas Cook”. Algumas das dívidas, acrescenta, atingem mesmo os dois milhões de euros.

“Os hotéis têm perfeita consciência que não vão recuperar nada. Não há histórico de os hotéis recuperarem créditos resultantes de falências de operadore”, referiu ainda Elidérico Viegas ao Expresso.

Pedro Costa Ferreira, explicou à agência Lusa que, comparando com outros destinos mundiais, não será em Portugal que os efeitos serão mais relevantes. O responsável da APAVT adiantou ainda que, ao longo desta semana, se vai saber quantos turistas portugueses são afetados pela falência. A Secretaria do Estado do Turismo revelou, citando dados da embaixada britânica, que são 500 as pessoas afetadas pela falência da agência no Algarve.

Já relativamente à Madeira, outro local que pode ser afetado por esta falência, a Associação Comercial e Industrial do Funchal referiu, citada pelo jornal da Madeira, que o pior cenário seria se a Condor, uma das subsidiárias da Thomas Cook, fosse também afetada e deixasse de voar (na Madeira, esta companhia aérea tem oito ligações por semana). No total, terão sido afetados cerca de 300 turistas.

Quanto aos turistas afetados pela falência, o presidente da APAVT recomenda contacto com a proteção do consumidor inglesa e explica que as situações são muito diferentes consoante o tipo de contrato. “Em Portugal, os consumidores que compraram em agências de viagens estão protegidos por lei, mas quem tivesse comprado na companhia de aviação já teria de comprar o regresso e não estava protegido. Há uma imensidão de diferentes situações”, advertiu.