Admirador de Roman Polanski, de filmes de terror sem violência nem sustos gratuitos e de todos os géneros clássicos do cinema, o realizador americano Ari Aster, autor de “Hereditário”, passou por Lisboa para apresentar no MOTELX o seu novo filme, “Midsommar — O Ritual”, que ganhou o Prémio do Público do festival e se estreia esta semana. O Observador conversou com Aster sobre esta fita de “folk horror”, a sua conceção e rodagem, na Hungria, e o cinema de terror em geral. E soube que o cineasta tem um fraquinho por musicais.

[o trailer de “Midsommar”:]

Podemos dizer que “Hereditário” e “Midsommar — O Ritual” são parentes próximos? Os dois filmes são sobre a família, sobre o desgosto, e há um culto sinistro em ambos. Só que neste não existe um elemento sobrenatural óbvio, visível, ao contrário do que acontece em “Hereditário”.
Sim, ambos os filmes têm muito em comum e há também coisas que os separam, mas são os dois sobre todos esses temas. São faces diferentes de uma mesma moeda. E ambos são de terror, embora de formas diferentes. “Hereditário” pertence mais intimamente ao género do que “Midsommar — O Ritual”, que vejo mais como um conto de fadas sinistro, abraçando também as tradições do filme de “folk horror”.

O que é que no filme são tradições escandinavas genuínas, e o que é inventado?
É uma mistura. Pesquisei muito as tradições escandinavas, o folclore escandinavo, bem como as tradições germânicas e inglesas dos rituais de Solstício de Verão, assim como dialetos nórdicos, para construir a linguagem dos Harga. Peguei depois em tudo de maneira muito liberal e usei o que precisava para a história. O resto, foi uma questão de invenção, e de tomar liberdades.

E o resultado é um mundo pequeno e fechado, extremamente coeso, homogéneo, no qual tudo faz sentido, até a forma como quem lá vive acredita nele e o acha normal.
Sim é, e era muito importante que o mundo dos Harga tivesse essa coesão. O que eles fazem é obviamente muito feio e sinistro, mas ao mesmo tempo, estão mais ligados entre si e ao mundo em seu redor do que os visitantes americanos. E também a tradições e rituais muito antigos. Os americanos também têm os seus rituais, mas são muito soltos e superficiais. E esta comunidade tem um grande sentido do coletivo e de apoio mútuo.

E de pertença, também?
Exatamente. Ao contrário dos americanos, que são muito individualistas, egoístas e competitivos.

E no final da história, a personagem principal, Dani, que perdeu toda a família, ganha uma nova família. Pertence de novo a alguma coisa.
É isso mesmo. A ideia é mesmo essa. E os espectadores é que têm que decidir se isso é bom para ela ou não, e se o final é mesmo um final feliz.

É feliz para a personagem.
Sim, mas quem sabe o que a espera mais tarde? Quem sabe se ela não enlouqueceu? E provavelmente foi o que sucedeu. Ela saltou para o lado mais fundo.

O filme está mais preocupado em construir uma atmosfera, devagarinho, e em acumular tensão e ameaça, do que em pregar sustos. Lembrou-me, por exemplo, “A Semente do Diabo”, de Roman Polanski.
Gosto muito de “A Semente do Diabo”, é um dos meus filmes preferidos. Gosto desse período do Polanski, desde “A Faca na Água” até “Tess”. Não gosto de sustos, de sobressaltos nem de “exploitation films”. Aprecio imagens fortes, vívidas e gosto de construir uma atmosfera para chegar àquilo que as pessoas chamariam sustos, mas sempre muito ligada à história, que sejam essenciais a ela. É outra maneira de dizer que não gosto de nada que seja gratuito: violência gratuita, terror gratuito, sobressaltos gratuitos. Quero tudo bem pausado. Os meus dois filmes trabalham sobre um sentimento de receio crescente, de ameaça, e banham nela.

É como se sentíssemos que algo terrível vai acontecer, mas não sabemos o quê, quando e como.
Exato. É algo que está ao virar da esquina e que é inevitável. Ficamos a antecipá-lo, e a consumir-nos nessa expectativa.

Em “Midsommar — O Ritual” está sempre sol e bom tempo, é um filme de  terror solar, por oposição a “Hereditário”, que era sombrio e tristonho e passado no Inverno. Teve problemas acrescidos pelo facto da rodagem ter decorrido em pleno Verão?
Tive, sim. É muito trabalhoso rodar ao ar livre e depender do tempo, e apanhar com todo aquele calor de Verão. É difícil, para onde quer que se olhe, foi uma rodagem muito penosa. Prometi a mim mesmo, e à minha equipa, que não voltava a fazer um filme ao ar livre outra vez. Claro que não vou cumprir a promessa, mas quando a fiz, estava a falar a sério. [risos]

Usaram construções ou cenários já existentes para a comunidade dos Harga, ou foi tudo feito do nada?
Não havia nada. Aquilo era um campo vazio. Construímos tudo, foi tudo criado e concebido por nós. E tudo o que são pinturas decorativas nas paredes das casas da comunidade foram feitas pelo Ragnar Persson, um artista sueco. A pintura no início do filme, que se abre como se fossem portadas de madeira, é da Mu Pan, uma taiwanesa que é uma espécie de Bosch asiática. Quanto aos edifícios, foram concebidos pelo diretor artístico, Henrik Svensson, em colaboração muito estreita comigo. Fomos muitos inspirados por quadros já existentes em Helsingland, em quintas antigas.

Porque é que o filme foi rodado na Hungria e não na Suécia, onde se passa a ação?
Era muito caro rodar na Suécia. Só podíamos filmar oito horas por dia. Não por causa da luz, mas devido à leis laborais locais, que são muito rígidas. Por isso, fomos para a Hungria, onde os dias são mais curtos e temos menos luz, mas podemos filmar o tempo que quisermos. Mesmo que não o tenhamos aproveitado bem, porque o filme implicava muita organização e perdíamos muito tempo com isso. E o elenco, além dos atores principais, é uma mistura de atores suecos, que trouxemos de lá e são muito conhecidos na Suécia, e de húngaros.

“Hereditário” tem atores muito conhecidos, como Gabriel Byrne e Toni Collette, enquanto que os principais intérpretes de “Midsommar — O Ritual”, Florence Pugh e Jack Reynor, o são menos. Porque é que os escolheu? Queria atores menos conhecidos para estes papéis ou queria trabalhar especificamente com a Florence e o Jack?
Não quis usar atores que fossem muito familiares, mas também achei que eram ambos as escolhas ideais para os papéis.Teria igualmente escolhido uma grande estrela, se achasse que era ideal para fazer o papel. Mas a Florence e o Jack eram mesmo perfeitos para as suas personagens. A Florence não tem escola clássica de representação, mas é espantosa, um talento natural, e com muitos recursos dramáticos. Pode fazer qualquer papel.

Disse numa entrevista a uma revista de cinema que entre os filmes que gostava de fazer no futuro, está um musical. Gosta do género, ou quer só variar do terror?
Sim, adorava realizar um musical. Adoro o género. Gosto de todos os géneros clássicos, gostava de fazer um filme de cada género: uma comédia, um policial, um “western”, uma comédia romântica, um filme de ficção científica.

O próximo filme será o musical?
Não, esse ainda está no futuro. Mas tenho em projeto uma fita de ficção científica, uma comédia negra e uma tragédia familiar. Tenho muita coisa entre mãos, felizmente.