Imoralidade, pedidos de perdão de joelhos e perus para a ceia de Natal. Não parece a descrição de um debate parlamentar, mas a verdade é que todos estes três pontos foram abordados pelo procurador-geral do Reino Unido, Geoffrey Cox, durante a primeira sessão na Câmara dos Comuns depois de o Supremo Tribunal ter considerado a suspensão do Parlamento ilegal e ordenado a sua reabertura. E não só as expressões foram inusitadas, como o tom foi acalorado dos dois lados das bancadas.

O conteúdo, esse, redunda em dois pontos: o de que o Governo respeita o veredito do Supremo Tribunal, mas que está revoltado com os deputados por não permitirem a realização de eleições antecipadas. Mais: numa resposta a uma deputada da oposição, Cox deu a entender que o Governo vai voltar a colocar a questão à Câmara, desta vez através de uma moção que exige apenas uma maioria simples para ser aprovada.

Poderá acontecer ainda esta quarta-feira e pela voz do próprio primeiro ministro. Boris Johnson é esperado esta tarde na Câmara dos Comuns, depois de ter regressado mais cedo da Assembleia Geral da Nações Unidas, em Nova Iorque.

Geoffrey Cox — o procurador-geral que está sob fogo depois de a Sky News ter publicado documentação oficial onde Cox garantia ao Governo que a suspensão do Parlamento era “legal e constitucional” — até começou a sessão com um tom calmo e ponderado, que levou o próprio presidente da Câmara, John Bercow, a notar a sua voz de “barítono” e o seu tom “melífluo”. “Ficámos desiludidos que o Supremo Tribunal tenha tido um entendimento diferente do nosso e respeitamos esse julgamento”, declarou Cox, afirmando ainda que os juízes são “imparciais e independentes” e que “têm direito a concluir o que concluíram”.

Esta foi uma decisão do Supremo Tribunal clara e definitiva. Acontece frequentemente que o Governo perca casos”, afirmou o procurador-geral perante os deputados. “Aceitamos a decisão e estamos orgulhosos por termos um país capaz de produzir julgamentos independentes deste tipo.”

Mas o tom cordial e humilde relativamente aos juízes rapidamente deu lugar a uma postura desafiadora perante os deputados da oposição. Após ser questionado por um deputado do seu próprio partido (mas ex-adversário de Boris Johnson na corrida à liderança), Rory Stewart, Geoffrey Cox exaltou-se: “Este Parlamento é um Parlamento morto, já não devia reunir-se. Não tem qualquer autoridade moral para se sentar nestes bancos verdes”, acusou, provocando grande exaltação entre os deputados. “Eles não gostam de ouvir isto, não gostam da verdade…”, gritou Cox por cima do barulho. “Este Parlamento é uma desgraça!”

O deputado trabalhista David Hanson reagiu ainda mais exaltado, gritando ao procurador-geral: “Estou aqui porque fui eleito pelo povo!”, respondeu. Mas Cox tinha o gatilho pronto para responder: “Só estou a sugerir que dê aos seus constituintes a oportunidade de o elegerem novamente”, afirmando que sabe que não o irão fazer porque, apontado os dedos às bancadas da oposição, “só querem é travar o Brexit”. Antes disso, já o procurador-geral tinha deixado clara qual é a estratégia do Governo de Boris Johnson: “O Parlamento devia ter a coragem de enfrentar o eleitorado, mas não vai fazê-lo, porque muitos dos deputados só querem é impedir-nos de sair da UE”, afirmou. “Mas está a chegar o momento em que nem estes perus conseguirão travar o Natal”, disse, referindo-se a eleições.

O procurador-geral voltaria a ter momentos de tensão com a ex-ministra do Trabalho Amber Rudd, que lhe pediu para “acabar com esta linguagem que coloca o povo contra o Parlamento”, e com Philip Lee, o deputado que trocou os conservadores pelos liberais-democratas à frente de toda a gente. À primeira, disse que tinha sido levado a esta linguagem e que sempre lutou por compromissos, mas que o Parlamento atual “já não vale a pena”. Ao segundo, disse faltarem-lhe as palavras, mas acabou por dizer que Lee não tem moral para falar de humildade, por ter trocado de partido: “Ele deveria estar de joelhos a pedir perdão aos seus constituintes, perdão pela sua traição.”

Mais tarde, já com os ânimos mais calmos e com a sessão de perguntas ao procurador a aproximar-se do final, Cox acabaria por insinuar, numa resposta à deputada escocesa Patricia Gibson, que o Governo irá voltar a pedir eleições antecipadas: “Posso encorajá-la a votar a favor da moção para eleições antecipadas que iremos apresentar?”, questionou. A ideia já foi rejeitada duas vezes na Câmara mas, se o pedido for feito através de uma moção simples e não da Lei dos Mandatos Fixos (como foi até agora), só é necessária uma maioria simples para a sua aprovação. Boris Johnson terá os números? Ninguém sabe.

Tal como ninguém sabe se o primeiro-ministro irá arriscar pedir uma nova suspensão do Parlamento para breve. Questionado pelos deputados sobre essa possibilidade, Cox, de novo em tom melífluo, respondeu de forma simples que apenas pode garantir “que não haverá nenhuma prorrogação que não cumpra a decisão do Supremo Tribunal”. Ou seja, daqui para a frente, Boris só apresentará um pedido de suspensão se tiver “uma justificação razoável” — mas tal não quer dizer que não venha a fazê-lo.