O dia-a-dia não indiciava que se tratava de um escritor pop star, cuja série de livros mais popular, que narrava as aventuras da coelhinha Miffy, está traduzida em mais de 40 línguas e terá vendido mais de 89 milhões de cópias em todo o mundo. Dick Bruna, o desenhador e escritor de Utrecht cujas histórias terão sido parodiadas pelo misterioso autor do polémico livro erótico-sexual “As Gémeas Marotas”, garantia sempre que não sabia quanto dinheiro tinha no banco. O seu dia-a-dia era relatado assim pelo jornal The Telegraph, que o entrevistou antes de este morrer em 2017, com 89 anos:

Acorda todos os dias às 5h ou 5h30, faz um sumo de laranja natural para a sua mulher, Irene, e desenha um retrato dela. (…) Depois, senta-se na sua bicicleta e vai ao café, sempre o mesmo, para beber um café, que já está preparado para ele assim que chega. Ainda durante a manhã, trabalha em desenho no seu estúdio; depois, pedala para regressar a casa para almoçar. À tarde, volta ao estúdio e faz o trabalho administrativo que houver para fazer”.

Dick Bruna, que nasceu em 1927 em Utrecht e era filho de um livreiro que tinha como projeto para o descendente a continuação do negócio de família, voltou a ser falado esta quarta-feira, após mais um episódio da saga polémica que envolve o livro “As Gémeas Marotas”, que se inspira nos seus desenhos para contar histórias de teor sexual envolvendo personagens infantis. A paródia, aliás, é evidente dado o pseudónimo que o autor de “As Gémeas Marotas” utilizou para assinar o livro: Brick Duna.

Depois de ter sido muito discutido no Brasil — foi utilizado como exemplo pelo prefeito (presidente da câmara) do Rio de Janeiro para a necessidade de censurar livros infanto-juvenis de teor LGBT —, o livro “Gémeas Marotas” teve um exemplar seu apreendido esta terça-feira numa biblioteca portuguesa, nos Olivais, em Lisboa, pela ASAE.  O motivo da apreensão, contudo, não esteve relacionado com o teor da obra, que tanto chocou responsáveis políticos brasileiros (por o seu design poder ser confundido com o de um livro infantil, mas o seu conteúdo não ser adequado a crianças). A apreensão deveu-se a uma queixa-crime de que o livro incorreria em “usurpação de direitos de autor”, tendo sido recolhido pela ASAE “como medida cautelar e somente para preservação de prova”.

Por agora, não se sabe ainda se foi algum dos herdeiros do holandês Dick Bruna a processar o livro “As Gémeas Marotas” — contactada pelo Observador, a editora dos livros do popular autor infanto-juvenil holandês, a ASA, revelou desconhecer a origem da queixa. Esta não seria contudo, a primeira vez que os detentores do espólio de Dick Bruna criticariam publicamente obras e desenhos que consideram terem sido indevidamente criados com base nos desenhos do holandês. Por outros motivos, que não a subversão das aventuras das suas personagens e trocadilhos com o seu nome, até os criadores da boneca Hello Kitty ouviram a acusação de que tinham feito uma “cópia” da coelhinha Miffy.

A inspiração num refúgio da Segunda Guerra Mundial

Quem é este Dick Bruna, que o autor de “As Gémeas Marotas” parodiou ao publicar livros que parecem infantis mas têm teor sexual com o nome Brick Duna? Filho de Albert Willem Bruna e Johanna Clara Charlotte Erdbrink, começou a trabalhar na histórica editora de família, a A. W. Bruna & Zoon — fundada pelo seu bisavô —, aos 24 anos, como designer. O pai tencionava que o filho fosse livreiro, para prosseguir a gestão do negócio de família (até por ser quatro anos mais velhos do que o seu irmão, Frederik Hendrik Bruna), mas como contou em entrevista ao The Telegraph, Dick Bruna nunca sentiu que tinha jeito para o negócio empresarial.

A orientação artística tinha-lhe começado a ser fomentada muito antes, quando nos anos 1940, ainda adolescente no período da Segunda Guerra Mundial, esteve refugiado com a família numa casa próxima da região de Loosdrechtse Plassen, perto da cidade de Hilversum, na Holanda do Norte. Nessa morada, relata a biografia de Dick Bruna que consta no site oficial da sua personagem mais famosa, Miffy, a família Duna recebia visitas regulares de designers e ilustradores que “trabalhavam para a editora do pai” de Dick. Impedido de frequentar a escola, devido ao conflito militar, o filho mais velho do livreiro dedicava-se ao desenho para ocupar o tempo e chegou a receber aulas de alguns artistas e designers — um dos quais, Rein van Looy. Dick Bruna tinha, também, paisagens de eleição que o motivavam a desenhar, dado que a região é conhecida pelos seus extensos lagos. Nas estantes de livros dos pais, encontrou dois livros de arte que o marcaram, um sobre Rembrandt e outro sobre Van Gogh, que leu “umas cinco ou seis vezes”, como viria a assumir mais tarde.

Dick Bruna no seu estúdio, em Utrecht, em 2010 (@ Martin Godwin/Getty Images)

Apesar do jeito para o desenho e da vontade de prosseguir um caminho artístico, Dick Bruna chegou a ter uma passagem fugaz pela função de livreiro, trabalhando fora da Holanda, em livrarias de Londres (W. H. Smith) e Paris (na editora Plon). Contrariamente às intenções do pai, a estadia no estrangeiro só lhe aguçou o interesse pelas artes, interessando-se pelo trabalho do pintor (mas também desenhador e escultor, entre outras coisas) Henri Matisse — que o influenciou como ninguém, sobretudo pela sua utilização da cor — e do escultor, pintor e realizador Fernand Léger, ambos franceses. Em entrevista ao The Telegraph, muitos anos mais tarde, Dick Bruna recordaria assim a sua passagem por outras cidades europeias: “Ia de uma galeria de arte para a outra, passava o dia nisso. Estava tão impressionado pelo trabalho do Picasso e do Léger, Matisse, [Georges] Braque e todas essas pessoas…”

Em 1948, com 21 anos, regressou à Holanda, mas não voltou com o plano de começar a trabalhar no negócio de família. Antes de se começar a estabelecer como designer na A. W. Bruna & Zoon, teve uma passagem curta por uma prestigiada escola de artes, a Rijkasandemie van beeldende kunsten, instituição de Amesterdão por onde passaram vários dos impressionistas holandeses.  Seria três anos depois, já com 24 anos, que entraria no negócio de família. Na A. W. Bruna & Zoon desenhou incontáveis capas de livros, mas também logos e posters promocionais para clientes particulares. De designer, Dick Bruna daria o salto para ilustrador de livros e autor de obras infantis ilustradas, tendo começado a trabalhar nas suas próprias obras em 1953, dois anos depois de ingressar na editora fundada pelo bisavô.

Exemplar de um dos seus livros em holandês, ao lado de uma boneca da “coelhinha Miffy” (@ VI Images via Getty Images)

Bastaram dois anos de experiência como autor de livros ilustrados para que criasse uma personagem tão marcante que ainda hoje, mais de 50 anos depois, é ainda lembrada e reconhecida um pouco por todo o mundo. Com um estilo que primava pela simplicidade, pela utilização de cores vivas (no caso da coelhinha Miffy, cores primárias), pelo tamanho e formato dos livros (que facilitavam o seu manuseamento por crianças) e pela expressividade dos desenhos, que contavam as histórias que não precisava de narrar em detalhe, Dick Bruna criou a personagem da coelhinha Miffy (o nome original em holandês é Nijntje, termo utilizado pelos holandeses para se referirem a um coelho no diminutivo — “coelhinho” ou “coelhinha”, portanto).

O sucesso da primeira obra foi imenso e ao primeiro livro, inspirado por uma história que Dick contou a um dos seus três filhos, Sierk, então com apenas um ano, durante umas férias de família, seguiram-se mais de duas dezenas de obras, um filme e séries televisivas de animação, que relatam (pequenos no formato e dimensão) as aventuras quotidianas da sua famosa coelhinha. Em Portugal estão traduzidos muitos dos seus livros, com títulos como “A Rainha Miffy”, “A Fada Miffy”, “Miffy Vai ao Baile de Máscaras” e “Os Avós da Miffy”, entre outros.

Além dos livros ilustrados e infantis que publicou, Dick Bruna foi um ilustrador profícuo, desenhando capas de disco e ilustrações para livros de Shakespeare e da saga James Bond, por exemplo. Aqui, uma visitante observa obras suas numa exposição de retrospetiva do trabalho de Dick Bruna, no museu Rijksmuseum, em Amesterdão (@ Robin Van Lonhuijsen/AFP/Getty Images)

Além de obras centradas na coelhinha Miffy, Dick Bruna tem livros infantis inspirados em outras personagens, tendo publicado mais de 120 obras ilustradas. Foi ainda considerado um exemplo de benemérito social entre artistas holandeses, pelas suas doações a instituições como a UNICEF e Cruz Vermelha e pela sua atenção ao caráter inclusivo dos seus livros, maioritariamente destinados a crianças entre os 4 e 8 anos e que editou também em sistema braille. Em Utrecht, a sua cidade de sempre, há uma praça nomeada em sua homenagem: a “Praça da Pequena Miffy”. No Museu Centraal, em Utrecht, há uma exposição permanente em seu tributo: os curadores e administração do museu chamaram-lhe “Casa Dick Bruna”.