O dia da CDU foi tudo menos tradicional. Começou por trocar as vacas pelos cogumelos, depois visitou o inovador laboratório ibérico internacional de nanotecnologia (INL) onde os investigadores não têm os comuns vínculos precários, mas sim estatuto de diplomatas. À hora de jantar, as habituais cadeiras de plástico em salas de jantar de sociedades e associações recreativas, foram substituídas por um aperitivo ao pôr-do-sol no Cais das Pedras, no Porto, seguido de um jantar à luz das velas  com direito a música tocada ao vivo.

Era um jantar com o setor intelectual do partido e, por isso, no breve discurso breve, não faltou a exigência para que se inscreva 1% no Orçamento do Estado para a cultura. Mas, diz Jerónimo, esse número não deve estar camuflado, por exemplo, com o financiamento da RTP que absorve logo “50% do valor total”.

O secretário-geral do PCP fez referência ao governo de Passos Coelho e aos anos da intervenção da troika, para dizer que nessa altura a cultura e as artes sofreram duros cortes de financiamento, acusando ainda “os sucessivos governos da política de direita” do “afundamento do tecido cultural português numa profunda crise”.

Ainda a música tocava e as conversas corriam animadas, já Jerónimo tinha desaparecido da sala de jantar. A agenda desta quarta-feira foi a mais exigente da campanha e o secretário-geral tinha mais dois compromissos antes de fechar a noite.

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Antes do comício em Vila Nova de Gaia, ainda encaixou uma entrevista na RTP. Para quem o esperava no largo Estevão Torres, do outro lado do rio Douro, valeu a animação do grupo de música cubana (claro).

Aqui também havia música a ser tocada ao vivo, mas era o regresso à praia da CDU: um comício num bairro residencial, com as inevitáveis cadeiras de plástico e as bandeiras coloridas a compor o cenário. À espera de Jerónimo aqueciam-se as vozes, treinava-se o ritmo das palmas e houve até quem arriscasse uns passos de dança frente ao palco.

Jerónimo lá chegou — ao som da ritmada música Corazon Espinado — muitos beijinhos e apertos de mão, e um inesperado convite para dançar. Seria um clássico de campanha, político a dançar. Mas este político não aceitou o convite.

Ainda tocou um dos hinos revolucionários cubanos, Hasta Siempre Comandante, entoada de cor pelos apoiantes comunistas, e depois a revolução passou a fazer-se em Gaia. Diana Ferreira, a deputada e cabeça-de-lista pelo distrito do Porto, recordou as conquistas da legislatura, alertou para o perigo de deixar os socialistas de mãos livres e, no dia em que deu entrada no Tribunal Constitucional o pedido de fiscalização sucessiva da lei laboral, não foi desperdiçou também mais uma oportunidade de lembrar que o “PS dá as mãos à direita”.

Em Vila Nova de Gaia ainda há problemas por resolver no capítulo dos passes sociais e esse foi mais um dos argumentos usados no comício. Para que “não se volte para trás” é preciso votar na CDU. E antes de sair do palco, a candidata ainda calcou nos calcanhares do PAN ao reclamar para o PCP a conquista no diploma que proíbe o abate de animais em canis.

Jerónimo subiu ao palco e lembrou a plateia que “simpatia ao longo da campanha não se traduz em votos”. E esses são importantes para combater quem pratica uma “política de direita”, como aconteceu, por exemplo, com o subsídio de Natal: “Houve direitos que pareciam perdidos para todo o sempre, tal não foi a violência daqueles quatro anos de destruição de rendimentos e direitos. Houve um que muitos já consideravam perdido. Estou a falar do subsídio de Natal em que eles (PSD, CDS, PS), com aquela moscambilha dos duodécimos iam fazer com que, quando chegasse ao fim do ano, sem dinheiro para receber, significaria que não se justificava o direito. Era um direito que foi conquistado com o 25 de abril. Foi uma vitória de abril, dos reformados e pensionistas, dos trabalhadores” disse Jerónimo antes de ser interrompido por um forte coro de aplausos e gritos de apoio.

E se a colagem do PS à direita tivesse passado despercebida, voltou à carga: “Quem acha que o problema é apenas a direita, engana-se”. “Os riscos de andar para trás existem não apenas com o voto no PSD e CDS, mas também com o voto no PS”, clarificou.

A longa jornada de campanha estava, finalmente, a chegar ao fim. Jerónimo de Sousa ainda deixou um pedido aos apoiantes e militantes: “Nesta semana e meia vocês têm a obrigação de ser candidatos, candidatos pelas listas da CDU para conseguirmos os nossos objetivos”, disse acrescentando que “ser militante e votante na CDU não chega”.