Quando a mãe de Tarcísio Feitosa nasceu, havia uma zona do interior da Amazónia rica em seringueiras, a “árvore-da-borracha”, muito usada na década de 40 para extrair resina que, depois, compunha os pneus dos carros usados na II Guerra Mundial. O pai vivia perto do mar e era catador de marisco, também na Amazónia.

Tarcísio tem sorte. A cidade onde nasceu, Altamira, perto da bacia do rio Xingu, fica numa zona com 95% de área protegida, uma das áreas mais conservadas da Amazónia. Lá falam-se oito línguas diferentes, pela presença de vários povos indígenas, porque “a Amazónia é isso”, diz a sorrir.

Mas não se passa o mesmo em todo o território. Foi pela falta de proteção, acusa, que parte da maior floresta tropical do mundo ardeu durante duas semanas em agosto.

“Estes últimos incêndios, na verdade, não foram incêndios. Foram queimadas provocadas, numa ação deliberada”, denuncia o ativista ambiental ao Observador. “Houve, por exemplo, um grupo de pessoas que se organizou no Whatsapp e combinou fazer queimadas numa homenagem a Jair Bolsonaro”, revela, “e o fogo aconteceu exatamente nas áreas da Amazónia que não têm proteção nenhuma”.

O Ministério Público Federal brasileiro está a investigar o negócio milionário das queimadas de que fala Tarcísio Feitosa, em Vila Nova de Gaia, onde veio contar a história da sua relação com a Amazónia na conferência Goldman Prize – 30 anos a mudar o Mundo.

Desde os 17 anos que é ativista pelo fim da desflorestação da Amazónia. Em 2006 foi vencedor do prémio Goldman, o chamado “Nobel do Ambiente”, após mais de dez anos de luta pelos direitos dos povos indígenas, pela proteção ambiental e pelo desenvolvimento sustentável de algumas das zonas mais remotas da Amazónia, como as que circundam o rio Xingu.

Com o dinheiro do prémio, 200 mil dólares, foi estudar Agricultura Familiar e Desenvolvimento Sustentável. Dois anos depois, em 2009, quando trabalhava de perto com governos estaduais, apercebeu-se da falta de legislação para as questões da Amazónia. É por isso que hoje tira o Curso de Graduação de Direito no Rio de Janeiro e vive também nessa cidade já há dois anos, apesar de manter contacto com a área em que nasceu.

O ambientalista explica ao Observador que existem na Amazónia terras indígenas, unidades de conservação e outra áreas protegidas, “onde a floresta é a base da economia”. Mas o que queimou foram “áreas de floresta desprotegidas”, que representam na Amazónia cerca de 600 mil quilómetros quadrados, o equivalente a seis vezes e meia a área geográfica de Portugal.

“Estes grupos organizados estão ali para fazer especulação fundiária. Já venderam a madeira e agora pegam fogo para depois transformar em pasto. Transformando em pasto, podem vender as terras”, esclarece. É que, apesar de essas áreas serem desde 2006, por lei, Floresta Pública Nacional, “qualquer um pode chegar lá e pegar fogo, qualquer um pode chegar e demarcar a sua fazenda”.

A desflorestação da Amazónia aumentou 222% em agosto, comparando os valores com o período homólogo do ano passado. Houve também um aumento de 47% dos focos de incêndio em relação a 2018.

Jair Bolsonaro tem repetido que grande parte do território brasileiro é improdutivo, devido aos direitos especiais do povos indígenas, que representam 1% da população brasileira e cujos territórios ocupam 13% da área geográfica do país.

Tarcísio Feitosa considera a posição do Presidente do Brasil “muito preocupante”, acusando-o de “ressuscitar um antigo projeto da Ditadura Militar, da década de 60 e 70, que é o avanço para a Amazónia com atividades agropecuárias, com plantação de soja em grande escala, com apoio à mineração e com abertura de estradas. Tudo sem proteger a floresta”.

Na sua apresentação no Fórum Internacional de Gaia, a primeira que juntou vários vencedores dos Prémios Goldman, falou do trabalho desenvolvido, mas também do que falta fazer. Veio para reafirmar a necessidade de pensar que estes incêndios de agosto, o pior mês para a Amazónia desde 2010, vieram já a reboque de uma continuada falta de um plano sustentável e “o problema é que ainda temos três verões com este governo. E se repetir no verão que vem?”.

Argumenta que o Brasil deveria definir um prazo curto de uma semana para julgar o que considera ser os “crimes ambientais” que provocaram os últimos incêndios. Mas, a longo prazo, há que “discutir o modelo económico que se quer para a Amazónia”, reunindo cientistas, locais e solidariedade mundial. Exemplificou até o caso de uma região no meio do rio Xingu “onde vai parar de correr 80% da água. O peixe está a morrer. De cada vez que há um aumento de temperatura, o peixe morre e as populações passam fome. Esse é o modelo que não queremos”.

“Como me preocupo com o Ártico, como me preocupo com o Antártico, tenho me preocupar com a Amazónia, que, se continuar a ser destruída, vai provocar os mesmos impactos de clima no mundo”, que passam por “queimar as florestas em Portugal, aumentar a temperatura em alguns lugares e reduzi-la noutros”, exemplifica. “A Amazónia faz parte deste conjunto do planeta e não há planeta B”.