Há um antes e um depois na Fórmula 1 de 2019 entre o Grande Prémio da Hungria, disputado no início de agosto, e o Grande Prémio da Bélgica, no primeiro dia de setembro. E um antes e depois que se aplica sobretudo à equipa da Ferrari, que nas primeiras 12 provas da temporada o máximo que conseguiu foi chegar ao segundo lugar. Até aí, olhando para os dois pilotos da formação transalpina, aquilo que se via era um Sebastian Vettel a subir seis vezes ao pódio (em três ocasiões como segundo, outras tantas como terceiro), mais uma do que Charles Leclerc – que apenas na Áustria alcançou a segunda posição. Na Ferrari ou no Mundial, quase tudo mudou.

Depois das pole positions no Bahrain e na Áustria, Leclerc conseguiu agora uma série de quatro primeiros lugares na qualificação entre Hungria, Itália, Singapura e Rússia, igualando um feito na Ferrari que pertencia ao maior dos maiores da Fórmula 1: Michael Schumacher. Há duas semanas, Jean Todt, presidente da FIA, tinha referido numa entrevista que considerava o monegasco “o futuro da F1 e da Ferrari”, traçando mesmo pontos de comparação com o piloto sete vezes campeão do mundo – forte mentalmente, talento de campeão, um líder natural. Charles Leclerc mostrou-se honrado mas fintou esse paralelismo. Tal como voltou agora a fazer em relação ao registo conseguido: “É especial mas há muito para fazer, não podemos ficar a olhar para as estatísticas”.

Mais do que evitar o aumento de pressão ou o incremento de holofotes, Leclerc não esqueceu o que se passou na última prova em Singapura, quando tinha a corrida aparentemente controlada até que a primeira paragem nas boxes acabou por entregar de bandeja a liderança ao companheiro de equipa Vettel, que quebraria um jejum de mais de um ano sem vitórias em Grandes Prémios – e que evitou o terceiro triunfo consecutivo do monegasco. Por isso, centrou atenções no que se seguiria no presente em vez de ficar a olhar para o bom (registo de Schumacher) e o mau (a “derrota” no último circuito). Mas nem tudo correu como se parecia estar à espera.

A análise de Lewis Hamilton ao segundo lugar na grelha de partida dizia muito sobre essa alteração que houve depois da paragem de quase um mês na Fórmula 1, quando admitiu que não esperava ficar sequer na primeira linha por perceber que os Ferraris voavam em retas (algo que a Mercedes conseguiu controlar da melhor forma na primeira metade da temporada). E essas dificuldades voltaram a sentir-se na saída, com o britânico a ser mesmo apertado por Carlos Sainz depois de ter visto Vettel voar para o primeiro lugar da corrida. Depois, pelo que se foi percebendo das conversas, parecia ser uma estratégia definida mas que travou na segunda parte.

As indicações da equipa passavam pela “cedência de passagem” de Vettel a Leclerc, deixando o Mercedes de Lewis Hamilton a uma distância suficiente para gerir a corrida até nova “dobradinha” da Ferrari. No entanto, o problema era que o monegasco não conseguia colar no germânico e, pior ainda, distanciava-se. Um, dois, três segundos, com Vettel a forçar. sem que houvesse possibilidade de mexer na ordem dos dois pilotos. Leclerc foi então às boxes para a primeira paragem, conseguindo pouco depois fixar a volta mais rápida da corrida (melhorada logo a seguir) e ficando a partir da 27.ª volta à frente de Vettel, no coroar de uma estratégia que chegou ao resultado pretendido contra a ideia do alemão mas que passou de sonho a pesadelo em pouco mais de um minuto.

A forma como encostou o carro e saiu, com um salto quase preparado, aparentava uma calma que deveria ser tudo o que Vettel não sentia naquele momento. Desde a primeira volta que se percebeu que o germânico estava melhor, estava mais confortável na corrida, estava com melhor ritmo; depois, quando foi às boxes, cedeu a liderança a Leclerc e acabou por desistir por aparentes problemas no motor, o que obrigou à entrada do safety car em pista – o que também contribuiu para uma viragem total. E como um mal nunca vem só, Hamilton estava também na altura de paragem, saltou para a liderança e depois ainda viu Bottas subir ao segundo lugar com nova paragem do monegasco. Quase parecia karma da Ferrari; foi sobretudo uma ironia para a Mercedes.

Apesar das tentativas de Leclerc no final, com luz verde na Ferrari para dar tudo, Lewis Hamilton garantiu a nona vitória do ano (ou seja, ganhou mais de metade das corridas em 2019) e Valtteri Bottas conseguiu segurar o segundo lugar, com uma prova que tinha tudo para terminar com uma “dobradinha” da Ferrari a acabar com uma “dobradinha” isso sim da Mercedes, em resposta ao que se passara na semana passada em Singapura.