Durante a campanha para as eleições presidenciais dos Estados Unidos da América, vários comentários de Donald Trump considerados ofensivos, misóginos e sexistas foram tornados públicos. A frase “grab her by the pussy” foi apenas um exemplo. Em outubro de 2016, o dramaturgo escocês Gary McNair entrevistou anonimamente centenas de homens e pediu-lhes que falassem desassombradamente sobre mulheres para perceber “se somos mais do que isto”. Escolheu médicos, advogados, taxistas e mineiros, de países como Escócia, Austrália Estados Unidos da América ou Reino Unido, para conseguir um retrato fiel da realidade. O resultado foi uma panóplia de discursos machistas, misóginos, tóxicos, chocantes e até obscenos, que em palco são reproduzidos por mulheres.

“Aqui não há personagens, a encenação é quase invisível, as atrizes apropriam-se deste discurso de forma mais artística e são elas que operam todo o espetáculo, da banda sonora à maquina de fumo que espetaculariza o cenário, numa tentativa de lhes devolver a fala”, explica Jorge Andrade, encenador desta primeira coprodução da companhia portuense mala voadora com o Teatro Nacional S. João.

“Nada decadente”, “Marcar pontos”, “Mulher ideal”, “Se a tua mãe ouvisse” ou “Igualdade” são alguns tópicos que dividem o discurso direto e que surgem num ecrã no centro do palco, composto apenas por quatro bancos e microfones. Da virgindade à violência, da brincadeira à ofensa, do racismo ao feminismo, do poder à submissão, os discursos começam de uma forma politicamente correta e até com uma tentativa diplomacia, mas, num crescendo, terminam com rótulos redutores, estereótipos e até em confissões de homicídio.

O espetáculo que “não quer ser uma lição de moral”

“Assim que li o texto achei logo muito violento. Quando o comecei a trabalhar e a decorar tive mesmo que fazer algumas paragens, é realmente duro”, partilha Crista Alfaiate, uma das atrizes do elenco que leu na integra o resultado das entrevistas anónimas. O processo artístico para Isabél Zuaa foi igualmente penoso. “Questionar isto no dia a dia e depois artisticamente incorporar estes textos foi delicado. Ao mesmo tempo não está tão longe da nossa realidade e isso é assustador.”

Sobre o que mais a chocou nestes depoimentos, Crista Alfaiate destaca a ténue barreira entre o que é uma brincadeira e o que é uma ofensa. “Começa no pensamento de que não há problema nenhum e acaba no ‘eu sufoquei’ ou ‘eu matei’. É brincadeira até deixar de ser.” Já Isabél confessa que o que mais a incomoda é a avaliação da mulher por pontos. “Quando um deles diz ‘uma bimba pobretanas não pode ser um 10’, é como se o estado social fosse definir aquilo que és. Uma mulher que cresça numa aldeia não pode ser sexy? Uma mãe solteira deixou de ter o direito de ser atraente?

As duas atrizes acreditam que os testemunhos são “a real opinião” destes homens, que ora se contradizem, ora hesitam, ora tentam desculpar-se, “mas patinam na sua própria desculpa”. Conceitos como feminismo, machismo ou sexualidade são discutidos e levados ao extremo, num espetáculo desconcertante, desconfortável e provocador, “que não quer ser uma lição de moral”, mas um espelho do que lemos em comentários na internet ou ouvimos nas mesas de café.

“O texto responde a uma coisa que foi dita por um presidente de uma grande potência mundial e parece que vai legitimar o facto de muita gente também pensar assim”, afirma Crista Alfaiate, acrescentando que quando existe a tentativa de um homem se distancia desse pensamento, há um sentimento de isolamento inerente e a sua masculinidade é imediatamente posta em causa.

“Quando um deles diz que o Hitler achava que feminismo era sinónimo de mulheres feias e mal amadas, é um pensamento redutor e arcaico, que infelizmente se perpetua. Estamos em 2019 e ele diz isto? É difícil estar a reproduzir este pensamento e não julgar ou questionar, mas o objetivo é tentar divertir-me com o texto para não vir sofrer para o palco”, diz Isabél Zuaa.

“Locker Room Talk” estreou no Reino Unido e chega agora ao Porto, esta sexta, pelas 21h, e sábado, pelas 19h, no Mosteiro S. Bento da Vitória. “A peça está integrada na quinta edição de Uma Família Inglesa, uma iniciativa da mala voadora que, este ano, se centra na participação de mulher e em narrativas de mulheres, criando uma perspetiva não simplista do movimento #metoo”, lê-se no comunicado.

Preço dos bilhetes é de 10€