Tudo começou em 1926, quando António José Marques Pinho e Manuel José Soares Antunes começaram a trabalhar juntos como funcionários dos Armazéns da Capela ‘Pompadour’, depois como sócios dos Armazéns do Norte, onde ficaram 14 anos. Em 1960 eram já considerados dois dos melhores empresários e trabalhadores na venda de tecidos e despediram-se para, juntamente com os seus filhos, constituírem a sociedade Marques Soares.

A loja mãe abriu portas no número 92 da Rua das Carmelitas, em plena baixa portuense, num espaço com 150 metros quadrados e dez funcionários. O negócio centrava-se na venda de tecidos a metro para vestuário com etiqueta nacional e internacional, principalmente vindos de países como Suíça, Itália, França ou Alemanha. Mais tarde, a empresa aventurou-se no pronto a vestir, disponibilizando várias marcas.

Hoje a Marques Soares tem 300 funcionários, vende mais de 300 marcas nacionais e internacionais e tem lojas distribuídas por Braga, Aveiro, Santarém, Beja, Vila Real, Évora, Gaia, Maia e Vila do Conde. No Porto a oferta variam entre o vestuário, para homem, senhora e criança, têxteis-lar, decoração, perfumaria, lingerie, sapataria, marroquinaria, ótica, eletrodomésticos, artigos desportivos, relojoaria e um restaurante.

Aos 59 anos, a Marques Soares continua a procurar modernizar-se, prova disso foi o investimento e um milhão de euros em obras de remodelação no espaço no Porto, que inaugura oficialmente no sábado, 5 de outubro, e uma aposta cada vez maior no universo online, como conta Paulo Antunes, administrador da empresa, ao Observador.

Uma das fachadas da Marques Soares na Rua das Carmelitas, no Porto

Em que contexto surge este investimento?
A nossa loja do Porto é a mais antiga e a maior, tem um conceito diferente de todas as outras e uma oferta muito mais diversificada. Nas últimas décadas temos crescido em termos de edifício, fomos juntando vários edifícios na mesma rua, mas sempre em épocas diferentes, de 1960 a 2000. Ora isso significa que a decoração de cada época se ia misturando com as outras e tínhamos uma loja com várias leituras e pouco muito homogénea. Há oito anos começamos uma reestruturação da marca, uma espécie de rejuvenescimento, este investimento a nível de decoração será o finalizar desse processo.

Que mudanças a loja terá a olho nu?
A intervenção procurou simplificar e melhorar a circulação do interior da loja, tornando-a mais confortável, mas sem nunca descurar a traça original do edifício e a arquitetura. O espaço terá duas identidades, uma zona mais histórica e clássica, e outra, que dá acesso à Rua Cândido dos Reis, com uma identidade mais moderna. A organização da loja também mudou, voltamos a ter a secção de senhora ao nível do rés do chão, na entrada da Rua das Carmelitas, juntámos a zona de eletrodomésticos e eletrónica ao têxtil-lar para unirmos a secção e demos mais luz natural ao restaurante no quarto piso. Nos últimos anos limpámos as fachadas do edifício, apostamos na criatividade das montras, fizemos o refresh no lettering da empresa e demos formação aos nossos funcionários para que o atendimento seja cada vez mais personalizado.

O atendimento personalizado continua a ser uma das mais valias da casa?
Penso que é muito difícil conseguir este nível de atendimento noutro tipo de comércio que não seja o tradicional.

Size é o restaurante da Marques Soares, situado no 4ª andar da loja principal

Que desafios vive hoje o comércio tradicional no Porto?
Já sou administrador da Marques Soares há 35 anos e por isso sei que as coisas mudam depressa e não podemos estar parados. Depois da novidade dos centros comerciais, que coincidiu com uma altura em que a cidade estava parada e desinteressante, hoje o Porto está revitalizado, tem uma cara nova e está na moda. Atualmente assisto à vontade das pessoas voltarem a comprar na rua, sinto que estão a voltar a viver a própria cidade. Por outro lado, as próprias lojas têm hoje uma imagem diferente, mais moderna e apelativa, e até as grandes marcas preferem ocupar as ruas mais centrais.

Ser vizinho da Livraria Lello ajuda ou atrapalha o negócio?
Ajuda muito em termos de turismo, como ajuda estarmos próximos da Tore dos Clérigos ou da Reitoria do Porto. Estamos rodeados por três ícones da cidade e não há turista que abdique de vir aqui. Mesmo as grandes marcas internacionais que estão presentes no Passeio dos Clérigos são importantes para nós, precisamos de concorrentes para nos ajudar a construir uma zona comercial. Na nossa entrada de moda mais jovem o público internacional já representa 25% da faturação, mas noutras portas onde estão expostas marcas mais caras e clássicas, continua a ser um produto vocacionado para o público nacional.

O interior da secção de vestuário dedicada ao público feminino

A Marques Soares tem apostado no e-commerce. Como está a correr?
O e-commerce representa a evolução natural da nossa atividade, é uma espécie de extensão para o digital nosso catálogo, algo que vendemos de forma pioneira nos anos 1060. Se antigamente apenas 10% do que tínhamos nas lojas estava disponível online, este ano 90% dos produtos que vendemos estão no nosso site, são mais de dez mil artigos. Para já estamos a arrancar e estamos ainda preocupados com o mercado nacional, não temos números, mas o próximo passo é estudar estratégias para entrar em novos mercados internacionais.

Em 2020 fazem 60 anos de vida, já têm alguma coisa programada?
Ainda não. Agora estamos focados em apresentar ao público as mudanças na nossa loja principal, o que irá reforçar a nossa ação no período de Natal.