Todos os jogos têm uma vida própria que vai ganhando novos rumos e destinos com o passar dos minutos e o suceder das habituais incidências de qualquer compromisso. Mas todos os jogos têm também uma vida antes de começarem. Uma vida de memórias, uma vida de efemérides, uma vida de estatísticas, uma vida de casualidades. E nem mesmo os elementos do Feyenoord passaram ao lado dessa vida para projetarem o encontro.

Na única visita do FC Porto a Roterdão, os dragões terminaram com um nulo no marcador mas um saco cheio de histórias (que com o passar do tempo quase se transformam em golos) na bagagem. Depois de um início de época irregular, com dois empates e uma derrota nas primeiras três jornadas do Campeonato, os dragões acertaram o passo mas viveram uma viagem particular à Holanda, incluindo ameaças de bomba no hotel na véspera de jogo que Pinto da Costa, presidente dos azuis e brancos, fez questão de desvalorizar. Também ele, na antecâmara desta partida, recordou esse episódio e preparando já uma dupla dedicatória em caso de vitória: a Rui Filipe, que fazia parte desse plantel, e Tomislav Ivic, que orientava então os campeões nacionais. E com outro fator capaz de aumentar a confiança, além da série de oito triunfos seguidos: o saldo positivo contra equipas holandesas.

Já Jaap Stam, antigo central e internacional holandês que orienta hoje o Feyenoord, preferiu recordar aquele que um dia já foi seu companheiro de equipa na Lazio, Sérgio Conceição, dizendo que a equipa do FC Porto tem muito do que o ex-internacional português era como jogador. “É normal transportarmos para o campo o que somos. Eu era um ala que muitas vezes também jogou como lateral direito, que atacava e defendia. Gosto que as minhas equipas ataquem e que saibam que há uma baliza para atacar mas que também há uma baliza para defender. Esse equilíbrio é fundamental no futebol”, respondeu a esse propósito o técnico dos dragões, que visitava o estádio onde há quase 20 anos teve um memorável hat-trick frente à Alemanha no Europeu de 2020.

O FC Porto pode ser um espelho do que era Sérgio Conceição como jogador. Aliás, na sua melhor versão, aquela que se viu na temporada de 2017/18 ou na série de 18 vitórias seguidas em 2018/19, tinha mesmo muitos pontos em comum. No entanto, havia algo em que o ala fazia a diferença: o jogo podia ter maior ou menor inspiração, podia ter mais ou menos oportunidades, mas ninguém o superava na luta, na entrega e no espírito de sacrifício em todas as bolas. Na primeira, na segunda, numa terceira se houvesse. Foi aí que os dragões perderam o jogo (2-0) na Holanda, um jogo que noutro contexto podia ter valido um triunfo cómodo aos azuis e brancos.

Entre as falhas defensivas anormais sobretudo nas transições e uma ineficácia sem precedentes na presente época incluindo três bolas nos ferros da baliza de Vermeer, Uribe voltou a ser o melhor. E foi o melhor porque voltou a ser o jogador com melhores intercepções, com mais recuperações e que, a meio da segunda parte, não tinha falhado sequer um passe – e alguns, como aquele que fez para Otávio rematar à trave, foram de craque. Como um dia disse Sérgio Conceição, Uribe “é um jogador muito disciplinado, rigoroso e que tem chegada [à área contrária]. Pode não ser espetacular mas é um espetáculo de jogador”. E em resumo, foi de mais Uribes que o FC Porto precisou esta noite, para tapar as descompensações defensivas e ter outra sorte no capítulo do ataque.

Com apenas uma alteração (e forçada) em relação à equipa que somou o oitavo triunfo seguido na deslocação a Vila do Conde frente ao Rio Ave, entrando Wilson Manafá para o lugar do “condicionado” Corona – que nem para o banco foi –, o FC Porto não demorou a mostrar ao que vinha. Aliás, os dez minutos iniciais funcionaram como uma radiografia perfeita daquilo que teria tendência para acontecer ao longo dos restantes 80: um Feyenoord sempre à procura das transições e da profundidade, um conjunto português a assumir a iniciativa do encontro e a explorar da melhor forma as carências holandesas nos posicionamentos a meio-campo e nas marcações defensivas.

Ficha de jogo

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PSV-FC Porto, 2-0

2.ª jornada do grupo G da Liga Europa

Estádio De Kuip, em Roterdão (Holanda)

Árbitro: Sergei Kartasev (Rússia)

Feyenoord: Vermeer; Karsdorp (85′), Botteghin, Edgar Ié, Haps; Tapia, Toornstra, Fer; Berghuis, Sinisterra (Narsingh, 82′) e Larsson (Senesi, 83′)

Suplentes não utilizados: Bijlow, Malacia, Bannis e Burger

Treinador: Jaap Stam

FC Porto: Marchesín; Wilson Manafá, Pepe, Marcano, Alex Telles; Danilo (Fábio Silva, 81′), Uribe; Otávio, Nakajima (Luis Díaz, 53′); Marega e Zé Luís (Soares, 62′)

Suplentes não utilizados: Diogo Costa, Loum, Mbemba e Bruno Costa

Treinador: Sérgio Conceição

Golos: Toornstra (49′) e Karsdorp (80′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Fer (44′), Sinisterra (67′), Botteghin (70′) e Tapia (90+4′)

Com Danilo a pisar terrenos mais avançados do que é normal no meio-campo e Uribe a dar sempre um critério melhor ao jogo do FC Porto quando a bola passava pelos seus pés, os dragões estavam melhor em campo mas sem terem a agressividade necessária para fazerem a diferença no último terço. Assim, entre lançamentos, cantos e livres que ia ganhando após alívios da defesa contrária, Nakajima conseguiu criar a primeira oportunidade do encontro, surgindo isolado na área num lance de estratégia que terminou com o remate por cima (8′). Mais tarde, num lance que começou numa recuperação do inevitável Uribe, Otávio apareceu em boa posição na área mas acabou por cair na altura de armar o remate, ficando a queixar-se de um penálti por assinalar (18′).

Havia mais FC Porto, que de forma simples mas eficaz (até ao último toque) criou nova chance flagrante quando Nakajima conseguiu abrir a ala esquerda para Alex Telles cruzar antes de Zé Luís, pressionado por um defesa do conjunto de Roterdão, desviou na pequena área por cima da trave (20′). A partir desse momento, e durante cinco a sete minutos, o Feyenoord ainda aproveitou alguma desconcentração no setor defensivo dos dragões para ganhar cantos e ameaçar a baliza de Marchesín mesmo sem conseguir nenhum remate enquadrado mas seriam os azuis e branco a terminar por cima a primeira parte, de novo com Alex Telles a assumir o protagonismo na assistência após canto para a cabeça de Pepe que Vermeer conseguiu defender quase por instinto (37′).

O FC Porto estava globalmente melhor, teve as oportunidades flagrantes do primeiro tempo mas nunca conseguiu asfixiar de tal forma o Feyenoord que levasse os holandeses a baixarem de tal forma as linhas para que ficassem depois demasiado curtos na frente. E com um outro dado importante: os visitados queriam mais, faziam de todas as segundas bolas as primeiras e únicas, e iam crescendo por vontade e não por necessidade. Assim começou o segundo tempo e logo com a equipa de Jaap Stam a inaugurar o marcador por Toornstra, numa jogada de insistência onde a defesa dos portistas foi demasiado permissiva até ao remate cruzado e certeiro (49′). Pouco depois, o mesmo Toornstra ficou perto de aumentar a vantagem, com Marchesín a defender de forma apertada.

Ia começar aí o festival FC Porto. Um festival bom de ser ver mas apenas para quem é adversário e, não tendo a possibilidade de disfarçar evidentes problemas defensivos, agarra-se à fé para não sofrer golos – e a imagem de marca que se via nas bancadas era mesmo os adeptos do Feyenoord a juntarem as mãos a pedir um pouco de ajuda divina para aguentarem o carrossel ofensivo dos dragões. As preces foram mesmo atendidas e o jogo terminou com a sensação de que esta era daquelas noites em que os comandados de Sérgio Conceição ainda podiam estar no De Kuip e mantinham-se a zero, perante tanta eficácia com uma dose grande de azar à mistura.

Começou com Otávio, na sequência de um passe fabuloso de Uribe num livre a picar a bola por cima da barreira e a isolar o brasileiro para disparar um míssil à trave da baliza de Vermeer (62′). Continuou com Marega, num lance em que Soares conseguiu ganhar a bola na área para dar ao maliano de mão beijada o empate e que saiu muito por cima da trave quando estava isolado (68′). Teve prolongamento com mais um balázio a deixar a trave a tremer de Luis Díaz, no seguimento da melhor jogada ofensiva dos dragões ao longo de todo o encontro (74′). E ainda houve mais uma grande chance para Soares, neste caso com Vermeer a agigantar-se na baliza (79′). Não era por falta de tentativa que o FC Porto não conseguia marcar mas seria por falta de organização que viria a sofrer.

Já depois de uma bola de Berghuis a meio da pressão azul e branca que bateu ainda na trave (64′) e de um lance em que Larsson surgiu isolado na área antes de se assustar com a “mancha” de Marchesín (65′), Karsdorp deixou a nu todas as fragilidades defensivas do FC Porto num lance que começou com uma perda de bola de Danilo a meio-campo e que teve o jogador emprestado pela Roma a correr metros e metros sem oposição até entrar na área sem que se percebesse o movimento de Pepe no eixo recuado para fazer o 2-0 (80′). O encontro ficava sentenciado mas ainda haveria tempo para mais uma oportunidade falhada pelos visitantes, com Soares a ver um primeiro remate defendido por Vermeer com a barriga antes da recarga que bateu ainda no poste antes de sair (90′).